Lá vai a ala das empoderadas

Já tinha passado a ala da velha guarda, das crianças, e então um furacão passou diante dos nossos olhos. Um grupo de mulheres negras sambava sobre saltos, balançava seus corpos e cabelos, distribuía sorrisos e eu fiquei ali paralisada. Um amigo perguntou que ala era aquela, respondi que só poderia ser a ala das empoderadas da VaiVai.

O bairro do Bixiga é um bairro italiano e branco, mas possui uma veia negra que o faz pulsar e ser um dos locais mais encantadores da cidade de São Paulo. O Bixiga é a casa da escola de samba VaiVai e com os ensaios para o Carnaval suas ruas aos domingos se tornam palco de um dos maiores espetáculos negros. Fui parar num desses ensaios e logo me emocionei quando do portão de entrada pude ver uma pequena garota com os cachos soltos que girava para todos os cantos ao lado da avó que sambava com a disposição de uma adolescente.

As escolas de samba são espaços de resistência e propulsoras de uma autoafirmação com o orgulho de ser negro. VaiVai não é só samba, é política e faz parte da vida de diversas mulheres negras, pois é capaz de transformar a leitura dessas próprias mulheres sobre a vida cotidiana. Todo o processo de construção das escolas de sambas incluem mulheres negras que transformam o samba e o carnaval num processo de construção coletiva e busca por suas raízes ancestrais. Sendo assim, a escola de samba também possui um papel educador sobre a história do povo negro que a escola tradicional não é capaz de suprir. Aos poucos fui achando mais famílias, crianças que corriam atrás da rainha da bateria e o brilho nos olhos de todas as senhoras que também desfilavam.

O vínculo familiar com as escolas de samba também é fruto desse processo de resistência e politização que permeiam esses espaços. A família é onde as discriminações, preconceitos e racismo são sinalizados e combatidos, seja na participação do processo criativo de um carnaval ou na militância dentro de movimentos negros. Eu estava em casa e maravilhada com a quantidade de mulheres que passavam pela minha frente ostentando seus cabelos naturais. Encantavam não só pela beleza, mas pelo empoderamento também.

Eu não sou rainha de bateria, mas sai de lá rainha de mim com uma coroa feita de cachos. Minhas pernas e pés doem, mal consigo andar de tanto que sambei. Mas fica o conselho, quer sambar até o amanhecer? Vai no Bixiga pra ver.

Enquanto isso vai decorando o samba enredo de 2015 que foi feito em homenagem à Elis Regina.

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