Se ao menos essa dor trouxesse o menino de volta

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Foto: Calixto-Nego Júnior

Se ao menos essa dor servisse para bater nas paredes da justiça e abrisse portas. Se ela falasse e não só despenteasse nossos cabelos, mas botasse fogo no país até que ela não existisse mais.

Se ao menos essa dor fosse mais potente que a bala do fuzil. Ela salta fora da garganta como um grito, cai pela janela, faz barulho e morre ali. Se ao menos esse grito descesse o morro, trouxesse o menino de volta.

A dor é um pedaço de pão duro que a gente engole à força e não consegue cuspir de volta. Se essa dor ao menos sujasse os carros, invadisse o espaço do outro, atingisse esse ser que passa indiferente. Que, no escuro, não sofre e diz que não tem o direito de sofrer.

Se essa dor fosse só o punho machucado de tanto socar a parede de pedra. Mas essa dor é visível, é penalizante. Dói com lágrimas, sangra.

“Quando eu corri para falar com ele, ele apontou a arma para mim. Eu falei ‘pode me matar, você já acabou com a minha vida’.”

Se ao menos essa dor trouxesse o menino de volta.

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“Esquenta!” discute racismo sem olhar para si

Domingo de sol, domingo de “Esquenta!”, samba e racismo. O tema escolhido para a atração de Regina Casé foi o preconceito contra os negros, mas a discussão não saiu do lugar-comum. Os convidados presentes relataram tristes histórias de discriminação que passaram ao longo da vida, mas ninguém lembrou de Douglas da Silva Pereira, o DG. O dançarino fazia parte do elenco fixo do programa até ser assassinado pela Polícia Militar em abril de 2014. Na ocasião, o corpo de DG foi encontrado nos fundos de uma creche do Morro do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana (RJ), com um tiro nas costas e escoriações.

Foto: Alex Carvalho (TV Globo)

 

Apesar da aparente boa intenção de propor o debate de uma questão de extrema relevância e que aflige metade da população brasileira, a edição do programa soou como uma tentativa de limpar a imagem arranhada de Regina Casé. Por diversas vezes, a apresentadora já foi informalmente acusada de ter ataques de estrelismo e de não gostar de pobres devido ao tratamento dado aos fãs. O “Esquenta!” de hoje foi inedito, mas a sua gravação ocorreu em dezembro, algumas semanas depois de Casé se ver no epicentro de uma série de críticas que questionavam o seu comportamento e credibilidade de sua atração dominical.

Maria de Fátima Silva, mãe de DG, fez graves acusações à apresentadora. Durante o “Ser Negra”, evento comemorativo ao Dia da Consciência Negra, Maria afirmou que sua participação no programa em homenagem ao seu filho foi limitada pela produção do “Esquenta!” e por Casé. “Eu só deveria responder o que me perguntassem. Quando eu tentava falar sobre a violência da polícia, era cortada”, disse a mãe do dançarino, que completou, sobre Regina: “uma farsa, uma artista, uma mentirosa”. O caso ganhou grande repercussão na imprensa e, apesar da defesa da apresentadora, dividiu as opiniões do público.

O que vimos neste domingo foi a exibição da história que já sabemos: negros no Brasil sofrem preconceito por sua cor. Parte da audiência acredita que a escolha do tema para um programa de forte apelo popular como o “Esquenta!” é avanço no debate sobre o racismo. Afinal, a Rede Globo enfim assume que o Brasil não é o país da democracia racial e que a discriminação é parte do cotidiano da população. Entretanto, abordar o racismo e não mencionar as mortes de DG, Amarildo e Cláudia, vítimas da violência policial, é, de certa forma, ser conivente com o genocídio da população negra no país, pois o falecimento deles não é exceção, mas regra.

O silêncio sobre a violência policial, as acusações da mãe de DG e a edição de 20 de janeiro de 2013 sobre a situação do Rio de Janeiro após a pacificação realizada pelas UPPs nos mostra que o posicionamento do “Esquenta!”, e da Rede Globo, é ideológico. Ao longo do programa deste domingo, Regina Casé não falou a palavra racismo, mas se referiu a ele somente como “preconceito de cor”. O termo foi utilizado somente pelos convidados ao relatarem as suas experiências. O que vimos foram negros assumindo seus papéis de vítimas, mas impossibilitados de problematizar os porquês das violências que sofrem.

No debate, a análise teórica do tema ficou por conta de um branco, o jornalista e produtor cultural Alê Youssef, como se os próprios convidados fossem incapazes de fazê-la por si só. A única que fugiu à regra foi Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo, que indicou como o racismo está presente em diversas estruturas da sociedade. “Imagine-se como branco num país só de negros, onde tudo o que foi feito de maravilhoso na estética, os arquitetos, os filósofos, os revolucionários e os reis foram todos negros. Até o ser supremo, Deus, era negro. Jesus Cristo também era negro. E você, sendo branco, na única vez que o sistema escolar começa a falar dos seus ancestrais coloca duas páginas no livro de História do Brasil falando que seus ancestrais eram escravos e não te contam nada mais”, provocou Loras.

E em tantas histórias tristes, Regina Casé se solidariza e afirma que entende bem o que é racismo, pois seus pais sempre tiveram muitos amigos negros que frequentavam sua casa. Como se conviver com negros eximisse qualquer pessoa de ser racista. No caso da apresentadora, acreditar nisso fica ainda mais difícil.

Veja o debate aqui.

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