A ordem é samba

É samba que eles querem? Eu tenho. Mas só vai ter samba porque a ordem é samba e nada mais. Há quem diga que samba está no meu sangue, na minha alma, na minha genética. Somente samba faz de uma mulher negra uma negra. Não ouse dançar flamengo ou balé, porque a ordem é uma só: samba.

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Deixa que digam, mas fica avisado que eu não sei sambar, não. Será que sou negra? Deixa, deixa, eles acreditam que sou melhor na cama, uma máquina de sexo, mas pra madame eu não sirvo, não. Deixaaaaaaaaaaaa!

Pega esse tambor, esse rebolado, entra nas universidades e questiona a ciência. Mostra que não existe raça biológica, que a tão sagrada ciência serviu para escravizar nosso povo. Vai lá, compõe a mesa de congressos e samba mesmo. Vão avisar que aquele não é seu lugar e vão pedir para que volte à África.

Não deixa, não deixa o nosso desejo virar poeira. Um oceano de luta que não pode secar. Eu tenho tanto pra te falar, nem sei por onde começar, mas dessa vez não vou guardar. O seu lugar não é limpando privadas ou servindo madames desembocadas. A gente não sonha sozinha nesse mundo, mas parece que até esse sonho decidiram acorrentar.

É por isso que há tantas mulheres guerreiras, que trazem o samba da lucidez e não abaixam a cabeça. Nosso destino não é insensato, ele é tudo o que podemos desejar. Por favor, não me olhe assim, quando a solidão apertar, olhe pro lado, estaremos todas lá. Olhe mais um pouco, há muitos abraços a te esperar.

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Desculpa migos, mas vocês não estão lutando pelos negros

Eu tenho um recado chato para dar. Caros companheiros e companheiras do Movimento Estudantil, vocês pouco lutam pelos negros. Em qualquer assembleia estudantil que formos no Brasil encontraremos brancos de dreads, brancos com turbantes, fazendo discursos inflamados sobre a importância de incluirmos os negros na universidade. Entretanto, o que tem sido feito fora das assembleias?

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Foto: Henrique Antero

O que tenho visto são muitos militantes brancos se apropriando do discurso da inclusão e novamente colocando o negro como objeto, como o outro desconhecido que nada se sabe, e nada será feito para conhecer. Muito se fala sobre a periferia, sobre as comunidades negras, mas pouco se conhece de fato. E dessa forma, os espaços estudantis que deveriam ser combativos, acabam por reproduzir o triste histórico da Academia, em que o negro não é protagonista, mas um mero objeto discursivo e de estudo.

Ao longo da minha trajetória na Unesp me afastei do Movimento Estudantil por não me ver representada e por não ver minhas pautas devidamente respeitadas. Decidi trilhar meu próprio caminho e fazer uma militância individual, porém, que vá além dos muros da universidade. Por muito tempo acreditei ser fraca por não resistir nesse espaço de luta, entretanto, passei a conhecer mais negros e negras que passaram pelo mesmo processo de afastamento e de ressignificação de sua militância.

Há outro fator importante que corrobora para a exclusão do negro dento da universidade pública: o silenciamento. Os poucos negros que chegaram a esses espaços frequentemente são cobrados em dobro e passam sempre por um processo em que sua fala é deslegitimada. Já fui vista como alguém que só queria “causar”, nada muito distante do estereótipo de que mulheres negras não barraqueiras. Além disso, fui chamada por muitos de “estrelinha”, por ser integrante do Diretório Acadêmico da minha universidade e não ter participado de uma ocupação durante  greve estudantil realizada no ano de 2013 na minha universidade.

Pouco se perguntou e pouco se quis entender a minha condição, mas o julgamento e a cobrança estavam prontos. Como eu, muitos outros negros são os primeiros da família a ingressarem numa universidade pública, ou até mesmo os primeiros a cursarem o ensino superior. Para nós, negros e negras, conquistar uma vaga numa universidade pública não é uma conquista individual é também familiar e representativa para a comunidade negra. Para nós, negros e negras, uma passagem por delegacias e o recebimento de um Boletim de Ocorrência (B.O.), por qualquer motivo que seja, pesará o dobro em nossas costas do que o que pesaria para colegas brancos. Nossa presença dentro das universidades públicas é muito rara para colocarmos em risco, por mais que a causa seja lutar pela própria universidade em que estamos ineridos. Entretanto, ser negro é ter cautela, é não dar bandeira, é não dar motivos para que nos julguem pela nossa cor.

Do mesmo modo que fui incompreendida e julgada, diversos colegas negros passaram pelo mesmo e ainda passam. Agora me diz, Movimento Estudantil, como se diz que precisamos trazer o negro para a universidade sendo que os que já chegaram nela não são devidamente respeitados e ouvidos? Desculpa dizer isso, migos, mas vocês não estão lutando por nós.

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O Hip Hop salva vidas, mas também pode salvar a universidade

Existe um muro invisível entre a universidade pública e a comunidade que a rodeia. O Hip Hop está no meio disso tudo e deseja quebrar esse muro, mas os “boys” precisam ajudar.

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Foto: Semana do Hip Hop Bauru 2014

Depois que “Nó na Orelha” explodiu e a classe média universitária descobriu que dá para ouvir rap e continuar sendo descolado, todo mundo passou a amar rap e a pedir mais amor por favor. Nada contra o Criolo e seu trabalho musical, mas os fãs de Criolo estão no mesmo caminho dos fãs de Beatles. Só que existe um problema nessa aproximação, rap é compromisso, não é viagem. A galera da quebrada e do Hip Hop está querendo chegar mais perto da universidade, mas o quanto a universidade está disposta a se aproximar e a compreender que o rap não é só Criolo e Emicida?

Em novembro, o Ponto de Cultura Acesso Hip Hop realizou a “Semana do Hip Hop de Bauru” com uma programação extensa repleta de shows, oficinas, saraus, atividades educativas e debates. Com o propósito de gerar uma aproximação entre a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) e o movimento Hip Hop, foi proposta a realização de um debate dentro da universidade. Entretanto, o momento que deveria funcionar como ajuntamento entre esses dois universos reafirmou a distância que existe e quais são os muros que os separam. O coordenador do Acesso Hip Hop, Renato Magú, questionou durante o debate não só a ausência de universitários naquele espaço, bem como o que a universidade pública compreende como Hip Hop.

Para a molecada da quebrada o Hip Hop salva vidas e traz esperança, além de dar voz à periferia. Porém, para a galera da universidade ainda é só um produto cultural a ser consumido na mesma velocidade em que universitários giram seus corpos, em festas indies e descoladas, na disputa para ver quem vira mais copos ou de quem faz mais cara de marrento para a foto quando toca Racionais. Enquanto os estereótipos estéticos sobre o Hip Hop forem maiores que o desejo de mudança da realidade das universidades públicas, o pobre e o preto continuarão sendo objeto de estudo e não protagonistas do seu próprio movimento cultural. Não adianta defender o Sistema de Cotas e recitar Marx nas assembleias estudantis se não compreender que ter marra na favela não é pose, é resistência. O Hip Hop salvou vidas, e pelo visto vai ter que salvar a universidade.

 

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