Desculpa migos, mas vocês não estão lutando pelos negros

Eu tenho um recado chato para dar. Caros companheiros e companheiras do Movimento Estudantil, vocês pouco lutam pelos negros. Em qualquer assembleia estudantil que formos no Brasil encontraremos brancos de dreads, brancos com turbantes, fazendo discursos inflamados sobre a importância de incluirmos os negros na universidade. Entretanto, o que tem sido feito fora das assembleias?

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Foto: Henrique Antero

O que tenho visto são muitos militantes brancos se apropriando do discurso da inclusão e novamente colocando o negro como objeto, como o outro desconhecido que nada se sabe, e nada será feito para conhecer. Muito se fala sobre a periferia, sobre as comunidades negras, mas pouco se conhece de fato. E dessa forma, os espaços estudantis que deveriam ser combativos, acabam por reproduzir o triste histórico da Academia, em que o negro não é protagonista, mas um mero objeto discursivo e de estudo.

Ao longo da minha trajetória na Unesp me afastei do Movimento Estudantil por não me ver representada e por não ver minhas pautas devidamente respeitadas. Decidi trilhar meu próprio caminho e fazer uma militância individual, porém, que vá além dos muros da universidade. Por muito tempo acreditei ser fraca por não resistir nesse espaço de luta, entretanto, passei a conhecer mais negros e negras que passaram pelo mesmo processo de afastamento e de ressignificação de sua militância.

Há outro fator importante que corrobora para a exclusão do negro dento da universidade pública: o silenciamento. Os poucos negros que chegaram a esses espaços frequentemente são cobrados em dobro e passam sempre por um processo em que sua fala é deslegitimada. Já fui vista como alguém que só queria “causar”, nada muito distante do estereótipo de que mulheres negras não barraqueiras. Além disso, fui chamada por muitos de “estrelinha”, por ser integrante do Diretório Acadêmico da minha universidade e não ter participado de uma ocupação durante  greve estudantil realizada no ano de 2013 na minha universidade.

Pouco se perguntou e pouco se quis entender a minha condição, mas o julgamento e a cobrança estavam prontos. Como eu, muitos outros negros são os primeiros da família a ingressarem numa universidade pública, ou até mesmo os primeiros a cursarem o ensino superior. Para nós, negros e negras, conquistar uma vaga numa universidade pública não é uma conquista individual é também familiar e representativa para a comunidade negra. Para nós, negros e negras, uma passagem por delegacias e o recebimento de um Boletim de Ocorrência (B.O.), por qualquer motivo que seja, pesará o dobro em nossas costas do que o que pesaria para colegas brancos. Nossa presença dentro das universidades públicas é muito rara para colocarmos em risco, por mais que a causa seja lutar pela própria universidade em que estamos ineridos. Entretanto, ser negro é ter cautela, é não dar bandeira, é não dar motivos para que nos julguem pela nossa cor.

Do mesmo modo que fui incompreendida e julgada, diversos colegas negros passaram pelo mesmo e ainda passam. Agora me diz, Movimento Estudantil, como se diz que precisamos trazer o negro para a universidade sendo que os que já chegaram nela não são devidamente respeitados e ouvidos? Desculpa dizer isso, migos, mas vocês não estão lutando por nós.

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