A ordem é samba

É samba que eles querem? Eu tenho. Mas só vai ter samba porque a ordem é samba e nada mais. Há quem diga que samba está no meu sangue, na minha alma, na minha genética. Somente samba faz de uma mulher negra uma negra. Não ouse dançar flamengo ou balé, porque a ordem é uma só: samba.

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Deixa que digam, mas fica avisado que eu não sei sambar, não. Será que sou negra? Deixa, deixa, eles acreditam que sou melhor na cama, uma máquina de sexo, mas pra madame eu não sirvo, não. Deixaaaaaaaaaaaa!

Pega esse tambor, esse rebolado, entra nas universidades e questiona a ciência. Mostra que não existe raça biológica, que a tão sagrada ciência serviu para escravizar nosso povo. Vai lá, compõe a mesa de congressos e samba mesmo. Vão avisar que aquele não é seu lugar e vão pedir para que volte à África.

Não deixa, não deixa o nosso desejo virar poeira. Um oceano de luta que não pode secar. Eu tenho tanto pra te falar, nem sei por onde começar, mas dessa vez não vou guardar. O seu lugar não é limpando privadas ou servindo madames desembocadas. A gente não sonha sozinha nesse mundo, mas parece que até esse sonho decidiram acorrentar.

É por isso que há tantas mulheres guerreiras, que trazem o samba da lucidez e não abaixam a cabeça. Nosso destino não é insensato, ele é tudo o que podemos desejar. Por favor, não me olhe assim, quando a solidão apertar, olhe pro lado, estaremos todas lá. Olhe mais um pouco, há muitos abraços a te esperar.

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Posso te apresentar para um amigo gringo? Não

Vem cá, vamos combinar uma coisa. Eu sou neguinha, preta, pretinha, negra, nega, seu bem, seu mal, tudo o que eu quiser ser, menos mulata exportação. Estamos combinados? Eu sei que você não está falando por mal, então por isso estou vindo aqui explicar com paciência. Você consegue entender que me chamar de mulata e de exportação não é elogio? Eu não gosto de ser comparada com mula e muito menos com um produto sexual a ser exportado.

samba

“Samba” (1925) – Di Cavalcanti

Tá, tudo bem, você não é uma pessoa ruim, mas isso não te impede de ser racista às vezes né? Quando eu ia a igreja ouvia que pra combater o mau a gente tem que chamar o pecado pelo nome. Eu acho que o mesmo é com o racismo, a gente tem que chamar pelo nome. Chamar uma mulher negra de mulata é racismo, e de mulata exportação é racismo e machismo, um combo pra acabar com a minha noite no samba.

Aquele samba era samba de branco, isso dá pra passar. O que mais incomodava era a cerveja cara e a falta de espaço para sambar. Até que uma moça simpática (e branca) cheia dos amigos gringos achou que seria bacana me apresentar pra todos eles. Ela dizia amar meu jeito de dançar, minha cor e meu cabelo. Ela dizia gostar da minha cultura, da história do meu povo e até ficou surpresa quando me viu arranhando no inglês. Ela gostou tanto de mim que até quis me vender pros seus amigos gringos.

– Você é uma mulata exportação linda. Posso te apresentar para um amigo gringo?

– Não, não pode.

Tive que ouvir que sou grossa e eu só queria sambar e comer um caldinho de feijão.

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Lá vai a ala das empoderadas

Já tinha passado a ala da velha guarda, das crianças, e então um furacão passou diante dos nossos olhos. Um grupo de mulheres negras sambava sobre saltos, balançava seus corpos e cabelos, distribuía sorrisos e eu fiquei ali paralisada. Um amigo perguntou que ala era aquela, respondi que só poderia ser a ala das empoderadas da VaiVai.

O bairro do Bixiga é um bairro italiano e branco, mas possui uma veia negra que o faz pulsar e ser um dos locais mais encantadores da cidade de São Paulo. O Bixiga é a casa da escola de samba VaiVai e com os ensaios para o Carnaval suas ruas aos domingos se tornam palco de um dos maiores espetáculos negros. Fui parar num desses ensaios e logo me emocionei quando do portão de entrada pude ver uma pequena garota com os cachos soltos que girava para todos os cantos ao lado da avó que sambava com a disposição de uma adolescente.

As escolas de samba são espaços de resistência e propulsoras de uma autoafirmação com o orgulho de ser negro. VaiVai não é só samba, é política e faz parte da vida de diversas mulheres negras, pois é capaz de transformar a leitura dessas próprias mulheres sobre a vida cotidiana. Todo o processo de construção das escolas de sambas incluem mulheres negras que transformam o samba e o carnaval num processo de construção coletiva e busca por suas raízes ancestrais. Sendo assim, a escola de samba também possui um papel educador sobre a história do povo negro que a escola tradicional não é capaz de suprir. Aos poucos fui achando mais famílias, crianças que corriam atrás da rainha da bateria e o brilho nos olhos de todas as senhoras que também desfilavam.

O vínculo familiar com as escolas de samba também é fruto desse processo de resistência e politização que permeiam esses espaços. A família é onde as discriminações, preconceitos e racismo são sinalizados e combatidos, seja na participação do processo criativo de um carnaval ou na militância dentro de movimentos negros. Eu estava em casa e maravilhada com a quantidade de mulheres que passavam pela minha frente ostentando seus cabelos naturais. Encantavam não só pela beleza, mas pelo empoderamento também.

Eu não sou rainha de bateria, mas sai de lá rainha de mim com uma coroa feita de cachos. Minhas pernas e pés doem, mal consigo andar de tanto que sambei. Mas fica o conselho, quer sambar até o amanhecer? Vai no Bixiga pra ver.

Enquanto isso vai decorando o samba enredo de 2015 que foi feito em homenagem à Elis Regina.

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