Nega explica porque o meme “nego” é racista

Vem cá, meu nego, é preciso entender que a língua é viva, acompanha um povo ao longo dos tempos e expressa uma maneira de organizar o mundo em nomes e estruturas linguísticas. O meme “nego” apareceu e demonstrou como uma única expressão pode adquirir inúmeros significados e ser racista, inclusive.

nego 10

A língua muda e se reinventa com as pessoas, mas essa transformação não exclui sua construção histórica e nem sua variação de acordo com o espaço em que está inserida. Ou seja, “nego” pode ser carinhoso na Bahia, mas racismo em Santa Catarina, razão pela qual precisamos ficar atentos para entender o quão problemática é essa brincadeira.

“Nego”, “nega”, “neguinho” e “neguinha” são expressões que podem ser usadas para demonstrar afeto ou para ofender. No primeiro texto publicado aqui no “Que nega é essa?”, relatei a primeira vez em que senti o racismo de modo violento e escancarado. Na ocasião, andava por Blumenau (SC) e ouvi de um homem desconhecido na rua a palavra “neguinha” dita com todo o asco possível. Na mesma semana, minha mãe encerrou nossa conversa pelo telefone com “se cuida, neguinha”. Minha mãe não foi racista, mas aquele homem, sim.

A diferença nos usos dessas expressões ficam evidenciadas por meio do conjunto de frases a seguir, que apontam o teor pejorativo e racista, pois carregam um contexto que explicita as ofensas. Veja:

“Aquilo ali é uma neguinha!”

“Sua nega feia!”

“Ô nego dos infernos, tire essas tralhas daqui”.

“Quem roubou a casa foi um neguinho”.

Já no grupo de orações abaixo, podemos observar a demonstração de carinho, como a minha mãe buscou transmitir ao me chamar de neguinha. Observem como o contexto gera essa diferença:

“Ô nega, estou com saudade!”

“Ô, meu nego! Obrigado!”

“Obrigado, neguinha! Obrigado mesmo!”

“Meu neguinho tá sozinho em casa!”

Por mais que o meme “nego” tenha surgido sem compromisso social e busque gerar o riso com a sua tradução literal, o conjunto entre palavras e imagem geram desconforto porque remontam a um racismo histórico. A língua varia com o contexto, mas não podemos esquecer que ela nasce a partir de uma disputa ideológica e não se desvencilha de suas origens. Além disso, também pode ser usada como ferramenta de poder. Precisamos relembrar como a palavra “nego” era usada no século 19 para compreendermos porque o atual meme é racista.

nego 7

Com a intensa e numerosa chegada de negros ao país no século 19, o Brasil era considerado um dos maiores importadores de escravos da época. As cargas humanas chegavam de Angola, Moçambique e muitos outros países da África. E foi tratando o negro como um animal de carga que o brasileiro começou a usar do preconceito linguístico para humilhar aquele ser humano.

Quando os escravos eram castigados, as palavras “nego” ou “nega” eram usados. Ou seja, o seu significado era acompanhado da ideia do negro como ser inferior, não humano, um animal fétido, utilizado para trabalhar sem remuneração e passível de castigos e humilhações praticados por pessoas brancas.

nego 2

O racismo viajou no tempo em uma palavra que agora habita novos contextos e registros de expressão e informação. Por esta linha de pensamento, o mesmo termo “nego” utilizado para inferiorizar outro seres humanos no século 19 toma vários significados hoje, no século 21, por causa do cenário atual em que não há mais escravidão oficial segundo a Constituição.

A perversidade do meme em questão dificulta a conclusão sobre a presença ou não do racismo na brincadeira. Isso ocorre pela utilização de uma expressão que adquiriu muitos significados, que excluiu a questão racial em alguns contextos, e que se relaciona ao negro novamente. Ou seja, o que poderia ser considerado um avanço por meio da língua tem se tornado um retrocesso, pois o negro aparece como a figura principal do meme e traz à tona o caráter racial, e, por consequência, racista.

nego

Há ainda alguns memes que vão além no preconceito e trazem em seu texto expressões e situações cotidianas atuais acompanhadas de imagens do período de escravidão ou da forte opressão racial nos EUA, relembrando organizações como a Klu Klux Klan.

Diante de tudo isso, fica a pergunta: para quem a escravidão e o assassinato de negros é piada? Para nós, neguinhas e neguinhos, é que não é.

FacebookTwitterPinterest

Tem dias que eu só quero que você se foda

Eu fico esperando o cansaço passar olhando o ventilador rodar, enquanto a cortina do meu quarto vai e volta numa suavidade e leveza que eu jamais vou alcançar. Se ao menos esse ventilador conseguisse amenizar o calor, mas nem isso, o vento fica entalado, mas o choro não.

10834133_618276364943036_131337051_n

Foto: Scarlett Binti Jua

Você que anda dizendo que eu vejo racismo e machismo demais por ai, eu quero que se foda. Esses dias eu fiquei com um cara e o amigo dele fez chacota de mim na rodinha de amigos. “É né, pegou a neguinha, isso que é amor de pneu”. Não basta ser preta, tem que ter pneu. Eu passei aquela semana inteira me achando feia e tendo que ouvir de quem mais deveria me apoiar que eu me importo demais com o racismo.

Esse cansaço tem me acompanhado e parece que nunca vai ter fim. Até quem diz estar do meu lado faz de tudo para que eu me canse. Porque vocês não me escutam de uma vez por todas e parem de tentar me convencer de que tal coisa não é racismo? Quando qualquer pessoa vem debater racismo e machismo comigo, está debatendo a minha história e quem eu sou. Às vezes eu fico realmente desesperada porque parece que ninguém vai me entender, só as minas pretas. Tem dias que eu perco a linha e uma simples discussão na mesa do bar me faz correr até o banheiro pra chorar. Eu sei de onde eu falo e porque falo, eu estudo o que eu sou e por isso falo. Apenas respeitem.

Eu estou cansada demais, as minhas amigas estão cansadas demais, e as minhas amigas pretas estão mais cansadas ainda. Às vezes a gente só quer que você nos ouça, ou então, que se foda.

FacebookTwitterPinterest

Eu sou neguinha?

Foto: Rodrigo Azevedo

Foto: Rodrigo Azevedo

Eu agradecia a Deus por meu pai ser branco e não ter nascido neguinha. Eu gostava de ser morena, afinal, não era tão ruim como ser neguinha. Eu olhava minhas amigas conhecidas como “escurinha” e sentia um alívio por não ser tão feia quanto elas, as verdadeiras neguinhas.

Durante a adolescência namorei um cara que queria me chamar de neguinha, mas eu disse “não sou tuas negas” e pedi para evitar esse carinho. Até que, com 18 anos, após sair de uma depressão braba, cortei os cabelos alisados e assumi os cachos. Um mês depois. Enquanto eu andava perdida por Blumenau. Um senhor passou por mim e disse com todo o nojo possível “neguinhaaa”. Eu procurei ao meu redor, mas era só eu e ele na rua, eu olhei para mim e fiz a mesma pergunta da música cantada pela Vanessa da Mata: “eu sou neguinha?”.

Eu era um enigma, uma interrogação. Fiquei sem reação e com vergonha por talvez ser neguinha. E cada piada na rua, sobre meu cabelo, parecia bobagem, mas não era não. Eu não decifrava, eu não conseguia, mas aquilo ia, e eu ia, e eu ia, e eu ia, e eu ia. Eu me perguntava e resistia. Até que meu primeiro professor negão, logo que me viu exclamou que eu era a Angela Davis brasileira. Procurei no Google quem era essa tal de Angela Davis, porque nas aulas de História ninguém tinha me contado quem era, e então fiquei me perguntando: eu sou neguinha? Eu sou neguinha? Sou neguinha. Eu sou neguinha? Sou neguinha.

Enfim descobri que estava em Madureira, estava na Bahia, no Beaubourg, no Bronx, no Brás. E eu, e eu, e eu, e eu, eu sou só 5% dos jornalistas negros do Brasil, segundo levantamento realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em 2012. Eu sou o percentual de negros entre os jornalistas que são inferiores à metade da presença de pretos e pardos no país. Eu sou a mulher negra invisibilizada na mídia brasileira e que só aparece no Carnaval. Eu sou a minha voz, mas eu também quero saber quais são as negas que tanto esconderem de mim e que eu também sou. Quais são as mulheres que invadem, machucam, maltratam e fundem a cuca? Que nega é essa? Eu sou neguinha.

 

FacebookTwitterPinterest