Festa “Off The Wall” realiza ação contra o preconceito

Existem festas que deveriam colocar no cartaz de divulgação que é open de mordida, beliscão, passada de mão na bunda, elogios que mais parecem xingamentos. Tudo com um forte toque de racismo, machismo e homofobia. Diante aos sucessivos casos de assédio e violência nas festas de Bauru, os organizadores da “Off the Wall” realizaram uma ação especial de divulgação para a próxima edição da festa que está marcada para o dia 16 de janeiro, na Labirinthus International.

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Agnes Sofia Guimarães, estudante de Jornalismo da Unesp, se animou ao saber que a organização do evento possui essa preocupação. Para Agnes, o trauma da violência em que passou numa festa ainda interfere na sua decisão de ir ou não. A estudante conta que ficou com um rapaz que queria força-la a fazer coisas no qual não queria, e por isso, ele a violentou fisicamente e verbalmente. “Ele disse que era muito estranho eu não ser daquelas de ter orgulho da sua sexualidade, afinal eu era negra, um tipo de mulher que se excita com mais facilidade”, relata a estudante.

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“NÃO DEIXEM TE DIZER QUE VOCÊ NÃO TEM ESPAÇO. NÓS SOMOS A RESISTÊNCIA!”

Para Renan Estivan, um dos organizadores da “Off the Wall” é importante que pessoas que passaram por violências de todo tipo em festas, como a Agnes, possam se sentir a vontade. “A gente escolheu essa temática de divulgação, contra o preconceito, para deixar claro o que a festa representa”. Renan conta que também já passou por assédio moral numa festa. “Pela primeira vez na minha vida tive que ir embora mais cedo  porque estava com medo”. O jovem relata que um grupo de rapazes fizeram chacota da fantasia que vestia e isso chegou a assusta-lo. O estudante de Design enfatiza que esse não é o espírito da Off The Wall, e deseja que todos possam “se jogar” na festa sem se preocupar com atitudes violentas.

"A ADORÁVEL LIBERDADE DE AMAR!"

“A ADORÁVEL LIBERDADE DE AMAR!”

A AÇÃO

Com fotos que retratam a quebra de preconceitos, a ação também visa divulgar quais bebidas serão servidas no open bar da festa.  Guilherme Delarmelindo, outro organizador do evento, salienta que é o objetivo é que todos entendam que podem ser quem desejam ser. “Numa festa, geralmente o que mais atrai nosso público é a bebida, então escolhemos a divulgação do open bar para comunicar o que defendemos”, explica. Cada bebida fez referência a algum movimento ou discussão social. A ação conta com imagens sobre a fuga dos padrões de beleza, a luta pelos direitos do movimento LGBT, a luta contra o racismo e da igualdade dos gêneros. Arthur Ferreira, que também é organizador do evento explica que as imagens foram concebidas como um protesto. “Nossa causa é o pop, mas não podemos esquecer-nos dos outros recortes que influenciam nossa diversão”, pondera.

Confira mais imagens que participaram da ação:

"SEU DIREITO É DE SE ACABAR NA PINGA DE SABOR E SE ESBALDAR NO RESPEITO"

“SEU DIREITO É DE SE ACABAR NA PINGA DE SABOR E SE ESBALDAR NO RESPEITO”

 

"LUTE PELO ESSENCIAL!!!"

“LUTE PELO ESSENCIAL!!!”

 

"LIBERTE-SE DOS PADRÕES!"

“LIBERTE-SE DOS PADRÕES!”

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Xênia França: a mulher negra em erupção

Batemos um papo com Xênia, vocalista da banda Aláfia e musa por vocação

A digna banda Aláfia possui dez integrantes, e uma delas é Xênia França, única mulher do grupo. Aláfia é música de resistência, é diversidade, é negritude. Nasceu em 2011 e cruza os extremos de São Paulo e do Brasil apresentando o resgate profundo com a ancestralidade afro-brasileira.

Xênia encanta por sua bravura, beleza e força motora para a transformação. Conversamos quando a banda se apresentou em Bauru e o papo foi longo e provocativo.  Como ela mesma diz, não tem medo de colocar o dedo na ferida. Então segura essa, neguim.

 

Imagem: Sté Frateschi

Foto: Sté Frateschi

Já faz um ano que vocês lançaram o primeiro álbum, né? Que balanço vocês podem fazer desse período? Chegaram onde queriam chegar?

Eu acho que a gente foi até além do que a gente desejava. No começo a gente nem estava pensando em público, se iríamos ou não atingir as pessoas. Mas lógico que a música em si tem uma mensagem e essa mensagem tem um público. E a gente fazia a menor ideia, eu, por exemplo, imagino que é difícil fazer um tipo de música como a nossa no Brasil. Onde a gente levanta questões, onde a gente coloca o dedo na ferida e muitas pessoas se afastam. As próprias pessoas da comunidade negra às vezes se sentem um pouco incomodadas, né?  Só que eu acho que a gente achou um lugar pra falar sobre isso onde a gente tem atraído cada vez mais pessoas, não só pessoas negras, mas eu acho que os negros tem se aproximado cada vez mais.

Vocês falam muito da África teórica e da importância de viver a África, como o Aláfia pratica a África e o que é isso?

A África é o que a cada um reconhece nela. Não dá para a gente dizer que pratica a África porque eu acho que ninguém no Brasil pratica a África. É um questionamento, inclusive da gente e não só pra quem está de fora.  A gente vive num país que tem um lastro construído na história do negro que veio para cá escravizado e que a influência desse povo está nos quatro cantos do país. Até onde você acha que não tem, por exemplo, no Sul, onde é a região do país que tem maioria europeia. Eu acho que é como a gente vê a África e como a gente traz para a nossa experiência e como a gente a reflete para o mundo. É algo que o Jairo fala em todo show, resistência em primeiro lugar, que resistir é você manter viva a memória, e no nosso caso é dar um ponto de luz para o futuro. É o que a gente sempre se pergunta né? Como vai estar o negro daqui a quarenta anos? Por nossa vontade e pelo o que a gente tem feito que é muito pouco perto do que os órgãos responsáveis poderiam fazer por uma população inteira, que é fazer com que a população se veja, se olhe no espelho, né? E eu acho que isso que é praticar a África, é todo mundo, a base da população brasileira receber educação adequada, que as pessoas negras possam se ver nos livros de História, tanto o povo negro, como o povo indígena que são considerados minorias na sociedade. Hoje já somos reconhecidos como cidadãos, fazemos parte da sociedade e por isso também temos um dever que é o de não esquecermos nossas raízes e de onde viemos. De manter viva essa chama. O importante é como a gente vê, como a gente absorve e como a gente reflete a África que há em cada um de nós.

Você acredita que uma maneira de combatermos o racismo é contando a história do povo negro?

Nós já sabemos que a maneira que a história é contada é de um modo pejorativo. Eu você, todos nós já aprendemos que o negro veio para o Brasil escravizado. Tem um clipe da Esperanza Spalding que fala exatamente disso, “Black Gold” que é a história de um pai que vai buscar os filhos na escola e quer saber o que os filhos aprenderam. E as crianças contam que aprenderam sobre os negros que foram para os Estados Unidos e foram escravizados. Então o pai pergunta se os filhos também aprenderam que antes deles serem escravizados, em seus países na África, esses negros eram reis e rainhas. É preciso contar a verdadeira história, a história que está atrás da cortina.

E como você vê a apropriação da cultura negra, ela existe?

Isso é uma coisa que me revolta muito. Muitos artistas se apropriam da identidade do negro. Vão lá, fazem pesquisa, vão ao terreiro de candomblé, escrevem livros, lançam álbum, e o negro não entra em contato com isso. Por isso acho que está na hora de mexer os pauzinhos. Algo que observo é que todo filme de escravidão existe um branco que vai salvar o negro, pra mim isso não deve existir. Eu acredito que há brechas no sistema, se formos observar todos os negros que conseguiram sucesso não nasceram em berço de ouro. Então temos que aproveitar essas brechas e contarmos nossa própria história.

Qual é a importância de uma artista negra como você dentro desse meio e como se dá a construção da identidade da mulher negra nesse processo?

Se o homem branco está no topo da pirâmide e recebe mais que a mulher branca, e o homem negro recebe menos que o homem branco e a mulher branca, o que sobra pra mulher negra? Temos um problema gravíssimo que é como se vê a mulher negra na sociedade brasileira, que é como um pedaço de carne. Temos você como uma estudante de Jornalismo e isso tem cada vez mais se espalhado, a mulher negra não está só na cozinha. Não que existam problemas em ser cozinheira, amo a todas, mas o problema é só coloca-la num lugar. Nós sabemos que após a abolição da escravidão não havia lugar para a mulher negra na sociedade, então ela virou cozinheira, babá ou prostituta. Essa mentalidade da sociedade sobre o que eu e você representamos leva a absurdos como “Sexo e as Negas” que só pelo título é gravíssimo porque só reforça essa ideia. Eu penso em soluções, nós sabemos como é e como sempre foi, e um passo importante é cada vez mais a mulher negra se organizar. A mulher negra cuidou e cuida até hoje da sua família e da dos outros. E por isso essas mulheres inteligentes devem se mobilizar. A mulher que é independente, que gasta com cosméticos, que frequenta bares, cafés, viaja, essa mulher que já existe na sociedade precisa a se organizar para criar força e mudar a sociedade. Precisamos nos posicionar quanto mulher, profissionalmente e não deitar para machismo e racismo. E continuar achando essas brechas porque elas existem.

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