Uma tigresa com lábios de Ana e pele cor de mel

A Ana Carolina é o doce tiro silencioso. É beleza e uma certeza inabalável que o mundo é dela. Já o Adriano Bueno é o amigo talentoso que consegue retratar personalidades fortes por meio da fotografia. Os dois se reuniram num parque de diversões itinerante que passava por Bauru (SP), cidade em que moram para realizar esse ensaio fotográfico inspirador.

BeFunky_null_8h.jpg

Foto: Adriano Bueno

Ana encarnou um personagem  hipster com elementos góticos. “Tentei ser um pouco blasé com uma mistura de quem quer estar morta, mas que ainda assim se diverte num parque de diversões”,  brinca com o meme. Sendo uma mulher negra, a atitude blasé, de ignorar certas coisas que acontecem no mundo, nos traz a impressão de que Ana é forte. Por isso vemos nela a figura da mulher negra em sua completude: doce, guerreira, alegre, resistente, uma tigresa.

BeFunky_null_8e.jpg

Foto: Adriano Bueno

O figurino foi montado pelos dois amigos. A saia eles encontraram num brechó, já o top é do acervo pessoal do Adriano e a maquiagem da própria Ana.

IMG_9840

Foto: Adriano Bueno

IMG_9828

Foto: Adriano Bueno

BeFunky_null_5e.jpg

Foto: Adriano Bueno

IMG_9861

Foto: Adriano Bueno

 

 

FacebookTwitterPinterest

Farm divulga coleção de inverno e reascende debate sobre a representação da mulher negra

A marca de roupas Farm apresentou a sua nova coleção inspirada na cultura negra para o inverno 2015, a Black Retrô. Segundo a diretora criativa, Katia Barros, a coleção foi pensada numa forma de reconhecimento à cultura negra que faz parte da história do Brasil. “A coleção foi pensada sobretudo pra reconhecer a beleza e a elegância da cultura negra. A ideia de trazer o retrô dentro da cultura black é resgatar a elegância do passado, é um resgate à memória”.
bola_blackretroOs responsáveis pelos cliques foram os fotógrafos Raphael Lucena e Carol Wehrs, que retrataram verdadeiras obras de arte. Parte da coleção foi fotografada nos Lençóis Maranhenses. “Lençóis trouxe uma estética de arte e fotografia muito precisa nessa campanha, além disso, o lugar tem uma natureza exuberante e uma paisagem que muitas vezes fica monocromática, pois podemos ver só o branco da areia ou o azul do céu e das águas, diferentes visões que fazem toda a diferença”, explica Katia e Carlos, diretor de branding.
41
A coleção está realmente linda, é de encher os olhos. Mas há ainda algo que nos incomoda quando o assunto é mulher negra e a moda. Apesar dessa iniciativa, a Farm esteve envolvida com um recente caso de apropriação cultural e racismo ao postar em seu Instagram uma foto de uma modelo branca vestida de Iemanjá, símbolo de religiões de matrizes afro. O caso teve grande repercussão, pois o cantor de rap Emicida criticou a postura da marca na foto divulgada.
Além desse episódio, a Farm não é uma marca conhecida por retratar negras em sua coleção, por isso fica a dúvida se o objetivo é realmente o de inclusão da cultura negra. Acreditamos que iniciativas como essa sejam interessantes, mas enquanto não existirem mulheres em coleções diversas de marcas como a Farm, o racismo ainda será uma marca do universo da moda. Afinal, mesmo que presente, a mulher preta em geral é escolhida para ensaios temáticos e específicos, mas não é integrante desse universo.
34
A falta de representatividade da mulher negra na moda é alvo da crítica da estudante de 22 anos, Victoria Madeiro.  Victória  cursa  Produção de Moda no Senac, unidade Lapa Faustulo, e acredita que essa coleção não é suficiente. “Eu quero gente preta em todas as coleções, porque gente preta também é gente e deve ser representada no verão, no inverno, na primavera e no outono”.
14
Para a Black Retrô, a Farm alega que sentiu a necessidade de fazer uma coleção com a temática África desde que fizeram sua primeira viagem de pesquisa para o continente. Mas afinal, o que é a África? Quais países foram visitados, qual é a peculiaridade de cada cultura em que entraram em contato? Tratar a África como um só país não é só um erro das marcas de roupas, mas esse conceito de uma África distante e única é amplamente utilizado em editoriais de moda. Para a estudante de Arquitetura e Urbanismo da PUC de Campinas,  Stephanie Ribeiro, é um absurdo a maneira como retratam um continente tão rico e diverso como África. “O negro em geral, no Brasil ou no continente Africano, ele tem sempre uma história única e consequentemente  só é representado quando é interessante em determinado contexto”, critica.
A beleza negra é sempre retratada pelo viés da diversidade, entretanto, é preciso que seja cada vez mais a regra de um contexto estético e político para que possamos avançar  nas representações da negra sem cair na reafirmação de estereótipos.
23
51
 
61
FacebookTwitterPinterest

Editorial “Tropical Paradise” apresenta a mulher negra brasileira plus size

A renomada fotógrafa Adriana Líbini começou o ano nos presenteando com um Editorial de Moda Plus Size que busca retratar a beleza da mulher negra. Como primeiro trabalho do ano, “Tropical Paradise”, apresenta mulheres repletas de vitalidade, com olhos iluminados e brilhantes. Além dos cílios perfeitamente curvados e maçãs do rosto esculpidas.

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-11

As modelos escolhidas foram Dayana Toledo e Fabiola Romão que se saíram muito bem com looks multicoloridos. A maquiagem em camas é de encher os olhos, com sombras de pó colorido a partir do rosa blush, batons brilhantes coloridos em tonalidades de rosa, laranja ou roxo. O resultado foi um ensaio repleto de leveza, charme e alegria, do jeitinho das mulheres negras, não é mesmo? O ensaio está realmente lindo, nós amamos. Deem uma olhada nas outras fotos.

Para conhecer mais do trabalho da fotógrafa Adriana Líbini, acesse:  http://adrianalibini.com.br/

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-1

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-2

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-3

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-4

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-5

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-6

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-7

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-8

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-9

Tropical-Paradise-Editorial-de-Moda-Plus-Size-Verão-2015-10

 

Créditos: Fotografia Adriana Líbini, Produção de Moda Carol Santos, Makeup & Hair Tati Souza, Direcionamento de Poses Adriana Líbini e Henrrique Santana, Texto Carol Santos, Revisão Magdiel Líbini, Retouch Vania Santos e Adriana Líbini, Modelos Dayana Toledo e Fabiola Romão, Modelos vestem U’Z Criolos, Xica Vaidosa e Wish Fashion.

FacebookTwitterPinterest

Grife norte-americana usa apenas modelos negras e plus size em suas propagandas

A grife “Rum + Coke” vende roupas como qualquer grife, entretanto, na sua publicidade só tem modelos negras e plus size. Os projetos da estilista e designer Courtney Smith ostentam curvas e apelam para estampas, cores vivas e tecidos exuberantes. Os preços da marca são acessíveis, entre 48$ e 200$. Já os tamanhos vão do pequeno ao 3XL, numeração maior que o Extra GG, ou seja, seus produtos são destinados para pessoas da vida real. O mundo da moda é permeado de muitos rótulos, e o objetivo da “Rum + Coke”, é que sendo plus size ou não, a marca atinja mulheres de maneira agradável com modelos semelhantes a elas.

rumcoke2

Kianna Top Curto, US $ 48, Maya Saia, $ 88. Foto: Rum + Coke

 

Smith tem como inspiração a cidade de Nova York, e busca neste grande centro urbano chique mulheres de todos os tipos e de todos os lugares. Em entrevista ao site Refinery 29 a estilista garante que não estava bêbada quando criou o nome da marca, mas explica que faz roupas para mulheres divertidas como ela. “Todo mundo me chama de Coco e um derivado desse nome é Coke. Eu queria que a marca fosse divertida, então eu adicionei um pouco de rum!”, conta Smith.

Outro princípio fundamental da marca é que existe uma multiplicidade de beleza, entretanto, raramente é vista nas propagandas, e por isso, em suas fotos busca representar as mulheres maiores e negras. “Ninguém questiona por que existem apenas mulheres magras e pequenas como público alvo das outras marcas?”, pergunta a estilista.

Ainda sobre os padrões de beleza a criadora de “Rum + Coke” fala sobre as mensagens negativas que as mulheres estão sujeitas diariamente. “Você não é fina o suficiente, você não é jovem o suficiente, você não é leve o suficiente. Isso tudo basicamente diz às mulheres que são insuficientes”, e acrescenta que deseja que as mulheres entendam que elas são bonitas do modo em que são.

Outro motivo para que R+C faça sucesso entre as mulheres é a demanda que existe no mercado para a moda plus size. Smith fala que o mercado está evoluindo, mas ainda falta muito. “Sinto que muitas marcas ficam aquém de fazer mais peças de qualidade, ou mais peças em tudo, por causa do estigma ligado ao peso”. A estilista acredita que as marcas plus size podem fazer melhor, e não há dúvidas de que “Rum + Coke” tem feito roupas melhores para mulheres que estão acima da etiqueta G.

Veja mais fotos:

rumcoke

Tina Vestido, US $ 65. Foto: Rum + Coke

 

rumcoke3

Toni vestido, US $ 200. Foto: Rum + Coke

 

rumcoke4

Joan Vestido, $ 115. Foto: Rum + Coke

 

rumcoke6

Coke Vestido, $ 115. Foto: Rum + Coke

 

FacebookTwitterPinterest

Projeto de colagens busca retratar a beleza da mulher negra

A Karol Rodriguez é daquelas meninas que o corpo pulsa arte e criatividade. O Ensino Médio ela acabou de concluir, mas já tem se desafiado em outras formas artísticas. Amante do desenho, Karol decidiu se aventurar nas colagens, método de manipulação de fotografias em que se cola umas sobre as outras.

1377288_743258519085612_5038748036205487515_n

Para começar, a artista realizou uma série de imagens que busquem valorizar a beleza de mulheres negras focando na individualidade de cada uma. As personagens escolhidas vieram de um grupo em que Karol participa no Facebook, “Arte das Pretas”. Para o processo de criação foram utilizados editores online como o Pixrl e o Editor Express, além do programa Adobe Illustrator.

10750317_743258459085618_2270273132096097488_o

Karol conversou com cada menina que desejou retratar e diz que o seu objetivo era o de incentivar a identificação de cada uma como negras. “Acho que o que eu mais queria era mostrar como elas se encaixam dentro delas mesmo, e como se aceitam como pretas, o que não é fácil para todas as minas”, explica.

O projeto ainda está no começo, para janeiro a artista promete fazer mais colagens e dar continuidade nesse trabalho de valorização da beleza negra.

241192_743258492418948_666738285023043799_o

FacebookTwitterPinterest

Menina, mulher da pele Pyetra

Há um sorriso, uma força e uma beleza em Pyetra Macedo que nos toca. Foi essa força que levou o fotógrafo Adriano Vannini a transformar Pyetra numa musa do Jazz seiscentista no ensaio “Blue in Green”. Esse é o primeiro ensaio do projeto de Adriano que busca retratar a mulher negra na música.

10648825_10203848313024088_8795974926089172901_o

A deusa de apenas dezessete sonha em ser modelo e está insatisfeita com as regras que anulam a sua identidade e beleza no atual emprego em que é proibida de usar brincos, maquiagem e unhas cumpridas. “Minhas tranças tem que permanecerem presas, meus cabelos presos, isso me incomoda MUITO”, lamenta.
Longe dos padrões sociais estéticos, Pyetra é uma beleza resistente. “Pela primeira vez senti que minha beleza vinha de dentro de mim, não uma beleza ditada pela sociedade”, enfatiza. Esse é só o começo de um lindo sonho, a jovem acredita que outros ensaios virão. Enquanto isso esbanja beleza num reggae ou num samba raiz.

10860859_10203848318864234_3318039517774347198_o

10848761_10203848310744031_5093947981044238546_o

10841918_10203848313504100_4452771999131387044_o

10841918_10203848313384097_6624848477584054294_o

10835047_10203848315224143_5420219580806370505_o

10629480_10203848319784257_5544532089189902986_o

10620016_10203848318544226_4129820296039922490_o

10608415_10203848311984062_9170974384243276769_o

 

10469380_10203848314624128_1726951662642593550_o

1534852_10203848316384172_5812422852075774019_o

FacebookTwitterPinterest

Apartamento 302 recebe a atriz Polly, que fala sobre racismo e beleza natural

O Apartamento 302 é um projeto do fotógrafo Jorge Bispo que busca retratar a beleza natural das mulheres, fugindo dos padrões midiáticos. O projeto virou programa de TV no Canal Brasil, e recebe neste episódio a atriz Priscilla Marinho, a Polly, que em meio a risadas e lágrimas, se descobre como uma mulher livre diante a uma câmera fotográfica.

Polly também fala do que toda mulher negra já conhece, a solidão. Relembra dos casos de amor frustrados quando era mais nova. “Eu era bonitinha pô, porque ninguém gostava de mim?”, desabafa. Além de preta, Polly também é gorda e por isso enfatiza como é difícil se abrir para o outro nessas duas condições, uma vez que os julgamentos são cruéis e podem destruir a sua autoestima.:”Você ser diferente incomoda MUITO as pessoas”.

A história de Polly é a mesma de muitas mulheres gordas e pretas. Vale à pena acompanhar o desabrochar da atriz no palco de sua própria vida e beleza. #ficaadica

Veja o programa completo aqui.

Foto: Jorge Bispo

Foto: Jorge Bispo

FacebookTwitterPinterest

Posso te apresentar para um amigo gringo? Não

Vem cá, vamos combinar uma coisa. Eu sou neguinha, preta, pretinha, negra, nega, seu bem, seu mal, tudo o que eu quiser ser, menos mulata exportação. Estamos combinados? Eu sei que você não está falando por mal, então por isso estou vindo aqui explicar com paciência. Você consegue entender que me chamar de mulata e de exportação não é elogio? Eu não gosto de ser comparada com mula e muito menos com um produto sexual a ser exportado.

samba

“Samba” (1925) – Di Cavalcanti

Tá, tudo bem, você não é uma pessoa ruim, mas isso não te impede de ser racista às vezes né? Quando eu ia a igreja ouvia que pra combater o mau a gente tem que chamar o pecado pelo nome. Eu acho que o mesmo é com o racismo, a gente tem que chamar pelo nome. Chamar uma mulher negra de mulata é racismo, e de mulata exportação é racismo e machismo, um combo pra acabar com a minha noite no samba.

Aquele samba era samba de branco, isso dá pra passar. O que mais incomodava era a cerveja cara e a falta de espaço para sambar. Até que uma moça simpática (e branca) cheia dos amigos gringos achou que seria bacana me apresentar pra todos eles. Ela dizia amar meu jeito de dançar, minha cor e meu cabelo. Ela dizia gostar da minha cultura, da história do meu povo e até ficou surpresa quando me viu arranhando no inglês. Ela gostou tanto de mim que até quis me vender pros seus amigos gringos.

– Você é uma mulata exportação linda. Posso te apresentar para um amigo gringo?

– Não, não pode.

Tive que ouvir que sou grossa e eu só queria sambar e comer um caldinho de feijão.

FacebookTwitterPinterest

Xênia França: a mulher negra em erupção

Batemos um papo com Xênia, vocalista da banda Aláfia e musa por vocação

A digna banda Aláfia possui dez integrantes, e uma delas é Xênia França, única mulher do grupo. Aláfia é música de resistência, é diversidade, é negritude. Nasceu em 2011 e cruza os extremos de São Paulo e do Brasil apresentando o resgate profundo com a ancestralidade afro-brasileira.

Xênia encanta por sua bravura, beleza e força motora para a transformação. Conversamos quando a banda se apresentou em Bauru e o papo foi longo e provocativo.  Como ela mesma diz, não tem medo de colocar o dedo na ferida. Então segura essa, neguim.

 

Imagem: Sté Frateschi

Foto: Sté Frateschi

Já faz um ano que vocês lançaram o primeiro álbum, né? Que balanço vocês podem fazer desse período? Chegaram onde queriam chegar?

Eu acho que a gente foi até além do que a gente desejava. No começo a gente nem estava pensando em público, se iríamos ou não atingir as pessoas. Mas lógico que a música em si tem uma mensagem e essa mensagem tem um público. E a gente fazia a menor ideia, eu, por exemplo, imagino que é difícil fazer um tipo de música como a nossa no Brasil. Onde a gente levanta questões, onde a gente coloca o dedo na ferida e muitas pessoas se afastam. As próprias pessoas da comunidade negra às vezes se sentem um pouco incomodadas, né?  Só que eu acho que a gente achou um lugar pra falar sobre isso onde a gente tem atraído cada vez mais pessoas, não só pessoas negras, mas eu acho que os negros tem se aproximado cada vez mais.

Vocês falam muito da África teórica e da importância de viver a África, como o Aláfia pratica a África e o que é isso?

A África é o que a cada um reconhece nela. Não dá para a gente dizer que pratica a África porque eu acho que ninguém no Brasil pratica a África. É um questionamento, inclusive da gente e não só pra quem está de fora.  A gente vive num país que tem um lastro construído na história do negro que veio para cá escravizado e que a influência desse povo está nos quatro cantos do país. Até onde você acha que não tem, por exemplo, no Sul, onde é a região do país que tem maioria europeia. Eu acho que é como a gente vê a África e como a gente traz para a nossa experiência e como a gente a reflete para o mundo. É algo que o Jairo fala em todo show, resistência em primeiro lugar, que resistir é você manter viva a memória, e no nosso caso é dar um ponto de luz para o futuro. É o que a gente sempre se pergunta né? Como vai estar o negro daqui a quarenta anos? Por nossa vontade e pelo o que a gente tem feito que é muito pouco perto do que os órgãos responsáveis poderiam fazer por uma população inteira, que é fazer com que a população se veja, se olhe no espelho, né? E eu acho que isso que é praticar a África, é todo mundo, a base da população brasileira receber educação adequada, que as pessoas negras possam se ver nos livros de História, tanto o povo negro, como o povo indígena que são considerados minorias na sociedade. Hoje já somos reconhecidos como cidadãos, fazemos parte da sociedade e por isso também temos um dever que é o de não esquecermos nossas raízes e de onde viemos. De manter viva essa chama. O importante é como a gente vê, como a gente absorve e como a gente reflete a África que há em cada um de nós.

Você acredita que uma maneira de combatermos o racismo é contando a história do povo negro?

Nós já sabemos que a maneira que a história é contada é de um modo pejorativo. Eu você, todos nós já aprendemos que o negro veio para o Brasil escravizado. Tem um clipe da Esperanza Spalding que fala exatamente disso, “Black Gold” que é a história de um pai que vai buscar os filhos na escola e quer saber o que os filhos aprenderam. E as crianças contam que aprenderam sobre os negros que foram para os Estados Unidos e foram escravizados. Então o pai pergunta se os filhos também aprenderam que antes deles serem escravizados, em seus países na África, esses negros eram reis e rainhas. É preciso contar a verdadeira história, a história que está atrás da cortina.

E como você vê a apropriação da cultura negra, ela existe?

Isso é uma coisa que me revolta muito. Muitos artistas se apropriam da identidade do negro. Vão lá, fazem pesquisa, vão ao terreiro de candomblé, escrevem livros, lançam álbum, e o negro não entra em contato com isso. Por isso acho que está na hora de mexer os pauzinhos. Algo que observo é que todo filme de escravidão existe um branco que vai salvar o negro, pra mim isso não deve existir. Eu acredito que há brechas no sistema, se formos observar todos os negros que conseguiram sucesso não nasceram em berço de ouro. Então temos que aproveitar essas brechas e contarmos nossa própria história.

Qual é a importância de uma artista negra como você dentro desse meio e como se dá a construção da identidade da mulher negra nesse processo?

Se o homem branco está no topo da pirâmide e recebe mais que a mulher branca, e o homem negro recebe menos que o homem branco e a mulher branca, o que sobra pra mulher negra? Temos um problema gravíssimo que é como se vê a mulher negra na sociedade brasileira, que é como um pedaço de carne. Temos você como uma estudante de Jornalismo e isso tem cada vez mais se espalhado, a mulher negra não está só na cozinha. Não que existam problemas em ser cozinheira, amo a todas, mas o problema é só coloca-la num lugar. Nós sabemos que após a abolição da escravidão não havia lugar para a mulher negra na sociedade, então ela virou cozinheira, babá ou prostituta. Essa mentalidade da sociedade sobre o que eu e você representamos leva a absurdos como “Sexo e as Negas” que só pelo título é gravíssimo porque só reforça essa ideia. Eu penso em soluções, nós sabemos como é e como sempre foi, e um passo importante é cada vez mais a mulher negra se organizar. A mulher negra cuidou e cuida até hoje da sua família e da dos outros. E por isso essas mulheres inteligentes devem se mobilizar. A mulher que é independente, que gasta com cosméticos, que frequenta bares, cafés, viaja, essa mulher que já existe na sociedade precisa a se organizar para criar força e mudar a sociedade. Precisamos nos posicionar quanto mulher, profissionalmente e não deitar para machismo e racismo. E continuar achando essas brechas porque elas existem.

FacebookTwitterPinterest