Posso te apresentar para um amigo gringo? Não

Vem cá, vamos combinar uma coisa. Eu sou neguinha, preta, pretinha, negra, nega, seu bem, seu mal, tudo o que eu quiser ser, menos mulata exportação. Estamos combinados? Eu sei que você não está falando por mal, então por isso estou vindo aqui explicar com paciência. Você consegue entender que me chamar de mulata e de exportação não é elogio? Eu não gosto de ser comparada com mula e muito menos com um produto sexual a ser exportado.

samba

“Samba” (1925) – Di Cavalcanti

Tá, tudo bem, você não é uma pessoa ruim, mas isso não te impede de ser racista às vezes né? Quando eu ia a igreja ouvia que pra combater o mau a gente tem que chamar o pecado pelo nome. Eu acho que o mesmo é com o racismo, a gente tem que chamar pelo nome. Chamar uma mulher negra de mulata é racismo, e de mulata exportação é racismo e machismo, um combo pra acabar com a minha noite no samba.

Aquele samba era samba de branco, isso dá pra passar. O que mais incomodava era a cerveja cara e a falta de espaço para sambar. Até que uma moça simpática (e branca) cheia dos amigos gringos achou que seria bacana me apresentar pra todos eles. Ela dizia amar meu jeito de dançar, minha cor e meu cabelo. Ela dizia gostar da minha cultura, da história do meu povo e até ficou surpresa quando me viu arranhando no inglês. Ela gostou tanto de mim que até quis me vender pros seus amigos gringos.

– Você é uma mulata exportação linda. Posso te apresentar para um amigo gringo?

– Não, não pode.

Tive que ouvir que sou grossa e eu só queria sambar e comer um caldinho de feijão.

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