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O não dito da hashtag #meuamigosecreto

Existem certos acordos silenciosos que são feitos na ausência das palavras e reafirmados de maneira subjetiva por meio da tensão, do olhar repressor, do toque violento, da conivência da sociedade e impunidade dos agressores. É no não dito que reside a importância de campanhas virtuais propagadas pelas hashtags #primeiroassédio, #nãopoetizeomachismo e #meuamigosecreto.

Pela primeira vez mulheres passaram a relatar a violência que sofrem de modo explicito. A quantidade de relatos indica como precisamos conversar sobre violência de gênero, e mais, como é necessário que se crie espaços de acolhimento para essas mulheres para que digam cada vez mais sobre o que vivem.

O silêncio pode ser benéfico, afinal, todos nós precisamos de tempo para refletirmos sobre o que vivemos. Olhar para si e poder pensar em erros e possíveis mudanças pode ser transformador. Entretanto, quando o silêncio é uma imposição ele passa a ser uma violência. Trata-se aí, portanto, de um não dito que é dito: mulheres merecem a violência que sofrem.

Quando passam por situações de assédio e abuso psicológico, físico, material e moral e não falam sobre essas questões, é dito que todas essas situações são aceitas e por isso não merecem ser debatidas. Narrar essas histórias por meio da escrita escancara um complexo de relações dessas mulheres com outros sujeitos e dessas mulheres consigo mesmas. O que as hashtags fazem é trazer à tona o não dito. Sendo assim, na superfície se transforma: vira o dito.

Quando conseguimos nomear essas violências damos o primeiro passo para a mudança dessas realidades. Ao apontar amigos secretos, na verdade, busca-se indicar como a violência também mora no afeto. O amigo pode ser qualquer pessoa do sexo masculino que essas mulheres se relacionaram ao longo da vida. Diferente do que muitos veículos jornalísticos apontam, falar de um mau comportamento de um amigo, nesse caso, não se resume a indiretas nas redes sociais.

Por isso a sugestão simples de que deve-se trocar de amigos não é satisfatória. Ela novamente responsabiliza a vítima por tudo o que viveu e ignora que nossa existência está sempre condicionada ao outro. O que fica bem claro é que essas mulheres viveram situações turbulentas com quem menos esperavam. Ou seja, o que parece que é não é, e o que não parece que é é, e quem se supunha estar num lugar, na verdade, está no lugar oposto: do agressor.

Porém, é importante destacar que a linguagem nunca representará o real. Dizer que homens não são apenas machistas não muda o fato de que a própria linguagem nunca se livrará de ter presa a ela a realidade. Essa relação irresolvida entre texto e realidade não pode justificar que o não dito permaneça como está. Nossas ações não devem se restringir às narrativas, mas devem ser iniciadas de algum modo, que seja por “textões” e hashtags.

 

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Os homens é que precisam do Feminismo

Ao saírmos do armário do feminismo e comunicarmos para as pessoas próximas que não vamos mais tolerar certos tipos de piadas, é como se a terceira guerra mundial começasse em nossa vida. Lembro que a primeira vez que me assumi publicamente como feminista foi em 2011, num post no Facebook. De lá para cá, muita coisa mudou na minha vida e nos meus relacionamentos.

Assumir-se feminista é entender que todos os homens, inclusive os que você mais ama, são machistas. Colocar-se numa postura crítica é um processo doloroso de ambas as partes, nem todos os relacionamentos sobrevivem. Num momento cheguei a acreditar que perderia meus melhores amigos e que a situação com o meu pai ficaria insustentável. Entretanto, eles entenderam algo que poucas pessoas assimilaram: o Feminismo não precisa dos homens, são os homens que precisam do Feminismo.

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Foto: Diogo Zacarias

Explicar o Feminismo aos homens foi uma tarefa árdua. Em 2011, minhas referências feministas na internet eram só a Lola, com o blog “Escreva Lola”, e a Nádia Lapa, com o polêmico “Cem homens”. Não existiam coletivos feministas na minha universidade e as mulheres não eram lá muito minhas amigas.

Foi uma fase bastante difícil. Frequentemente, eu terminava as noites brigando com os caras nos fins de festas ou chorando nas mesas de bar porque não conseguiam entender que piadas e comportamentos machistas, com qualquer mulher que fosse, me ofenderiam. Hoje, compreendo que não precisava ter me desgastado tanto, mas uma coisa ficou clara: eu não necessito do aval deles. A estratégia que assumi foi a de mostrar como eram eles que precisavam do Feminismo, e deu certo.

Certa vez, o meu melhor amigo me surpreendeu ao dizer que ensino coisas a ele mesmo quando estou conversando sobre banalidades da minha vida. E agradeceu dizendo que hoje ele é um homem melhor porque compreendeu o Feminismo e é capaz de tratar todas as pessoas de maneira igual e respeitosa. Atualmente, alguns pedem para que eu os alerte quando emitirem alguma opinião machista ou racista. Lembrando que ter esta postura não é obrigação de nenhuma feminista.

Entendam de uma vez por todas: o machismo não é um problema nosso, mas dos homens. São eles que oprimem e continuam reforçando para si padrões de um regime masculino no campo estético, comportamental e social. O diálogo, a reflexão e a mudança de postura são necessários entre todas as pessoas.

E não, o Feminismo não precisa dos homens. Passar bem.

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Cidades proibidas para mulheres

Se anjos existem, eles se esqueceram das mulheres de Bauru e de todos os cantos do Brasil. Ou talvez escolheram proteger somente as que não saem de casa e não correm perigo. Vai ver o seguro de vida é mais caro para mulheres tidas por “vadia”, como eu. Para prostitutas e mulheres transexuais nem deve passar pela cabeça desses anjos que elas merecem proteção. Por muito tempo pedi a proteção de qualquer entidade divina, mas como o socorro veio em forma de cantadas agressivas, passei a andar durante a noite, quando volto da faculdade, com as chaves entre os dedos.

Foto: Aline Ramos

Quando saí da casa dos meus pais há quatro anos, o maior medo deles era que eu abandonasse a religião que professávamos. Eles tinham razão, tão logo me afastei de casa e comecei a vida em outra cidade, parei de ir à igreja. Viver sozinha em outro lugar fez com que eu tivesse minhas recaídas religiosas e barganhasse a minha fé pela proteção contra qualquer tipo de assédio. Se aquele carro que estivesse me seguindo numa das avenidas principais da cidade parasse de me seguir, eu iria para a igreja no sábado seguinte. Mas fui à igreja e ouvi que as mulheres segundo o coração de Deus são submissas aos homens e relembrei o porquê havia abandonado minha religião. Não voltei mais, e sabendo que não podia contar com a ajuda de homens, anjos e Deus, passei a apertar o passo.

Minhas canelas ardem quando ando por Bauru, tanto pelo calor, como pelo medo. Não há lugar nessa cidade que me faça andar em paz. Não conto para os meus pais que a preocupação deles deveria ser outra, e não a religiosa, mas fico feliz que ainda orem por mim e peçam que os anjos me protejam. Quem sabe são vencidos pelo cansaço. Mas enquanto isso não acontece, tenho que ouvir às dez horas da manhã, do pedreiro da construção da casa ao lado, que meu perfume é bom e que tenho cara de boqueteira. Às vezes, quando vou ao supermercado, eu ouço que sou deliciosa e que me chupariam inteira.

Olha, vou ser franca, se ficassem simplesmente com essas promessas horríveis, eu ficaria tranquila. Acontece que às vezes sou seguida por carros e motos. Certa vez fui parada duas vezes na mesma semana, enquanto voltava da faculdade durante a noite, pelo mesmo rapaz de moto que insistia em saber para onde eu me dirigia. Passei dois meses com pavor de sair de casa e acreditando que alguém estava me seguindo. Porém, isso voltou a se repetir, e eu que achava que o sol forte de Bauru seria capaz de me proteger, fui seguida por dois carros em trinta minutos de caminhada. Além dos anjos terem me abandonado, parece que enviarem demônios para me assustar. E conseguiram.

Eu queria ligar para os meus pais e pedir ajuda, mas tudo o que passei a fazer foi parar de sorrir e falar mais grosso. Pelo telefone, digo a eles que tenho comido mais salada e menos carne. Nem o céu mais bonito do centro oeste paulista é capaz de atenuar o medo que a cidade nos faz sentir. Segundo a Coordenadoria de Análise e Planejamento (CAP) da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), os casos de estupro em Bauru aumentaram 9,6% em 2014. Por mais que esses dados tenham seu lado positivo, já que muitas mulheres têm respondido ao estímulo de denunciarem os abusos em que são vítimas, a sensação de insegurança aumenta e interfere no nosso dia a dia.

Uma notícia recente entristeceu a todas nós, mulheres, nesta semana. Em agosto do ano passado, um caso de estupro coletivo chocou Bauru. Uma garota de 17 anos foi abusada por 10 rapazes, num terreno baldio, durante a festa de comemoração do aniversário da cidade. E mesmo diante de tamanha crueldadade, a justiça local decidiu pelo arquivamento do processo.

No dia 7 de fevereiro, Bauru será palco da III Marcha das Vadias. Desta vez, o tema será “A culpa não é da vítima”, afinal, se os anjos se esqueceram de nós, marcharemos até que tenhamos direito à cidade.

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Tem dias que eu só quero que você se foda

Eu fico esperando o cansaço passar olhando o ventilador rodar, enquanto a cortina do meu quarto vai e volta numa suavidade e leveza que eu jamais vou alcançar. Se ao menos esse ventilador conseguisse amenizar o calor, mas nem isso, o vento fica entalado, mas o choro não.

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Foto: Scarlett Binti Jua

Você que anda dizendo que eu vejo racismo e machismo demais por ai, eu quero que se foda. Esses dias eu fiquei com um cara e o amigo dele fez chacota de mim na rodinha de amigos. “É né, pegou a neguinha, isso que é amor de pneu”. Não basta ser preta, tem que ter pneu. Eu passei aquela semana inteira me achando feia e tendo que ouvir de quem mais deveria me apoiar que eu me importo demais com o racismo.

Esse cansaço tem me acompanhado e parece que nunca vai ter fim. Até quem diz estar do meu lado faz de tudo para que eu me canse. Porque vocês não me escutam de uma vez por todas e parem de tentar me convencer de que tal coisa não é racismo? Quando qualquer pessoa vem debater racismo e machismo comigo, está debatendo a minha história e quem eu sou. Às vezes eu fico realmente desesperada porque parece que ninguém vai me entender, só as minas pretas. Tem dias que eu perco a linha e uma simples discussão na mesa do bar me faz correr até o banheiro pra chorar. Eu sei de onde eu falo e porque falo, eu estudo o que eu sou e por isso falo. Apenas respeitem.

Eu estou cansada demais, as minhas amigas estão cansadas demais, e as minhas amigas pretas estão mais cansadas ainda. Às vezes a gente só quer que você nos ouça, ou então, que se foda.

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A estagiária gostosa da Rádio Cidade veio para nos dar um recado

A “estagiária gostosa” da Rádio Cidade é uma mulher livre, e essa liberdade lhe dá o direito de consentir com uma piada ofensiva para outras mulheres. A estagiária pode ser você, eu, nossa melhor amiga, nossa prima ou a vizinha que está do outro lado da rua colhendo pitanga. Todo local de trabalho tem uma “estagiária gostosa”, mas raros são os locais que encontramos as estagiárias inteligentes. Essas mulheres podem ser gostosas e inteligentes ao mesmo tempo, mas em seus trabalhos como deveríamos nos referir a elas e como deveriam ser nossas piadas com elas?

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Gostamos de ser chamadas de gostosa na cama, quando enviamos uma foto vestindo aquela calcinha nova e quando queremos ser gostosas. Entretanto, nossa sexualidade deve ficar fora do nosso local de trabalho. Pedimos por isso do mesmo modo que reivindicamos receber o mesmo que um homem na mesma função exercida, ainda mais nos espaços de comunicação.

O que os veículos de comunicação tem feito pelas mulheres que circulam por eles e pelas mulheres que são o seu público alvo? Faço essa pergunta por que, segundo relatório da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) de 2013, as mulheres representam 63% dos profissionais da área. Entretanto, essas mulheres são minorias no cargo de liderança. E para piorar o quadro das mulheres que trabalham como jornalistas, o que não está quantificado, porém, circula nas mesas de bares até hoje, é o do teste do sofá como meio de se alcançar um cargo desejado. Esse discurso ainda é reproduzido por professores nas escolas de jornalismo pelo país.

É necessário que não só a Rádio Cidade reveja o que tem veiculado em suas redes sociais, é cada vez mais necessário que se discuta o ambiente de trabalho para as mulheres nos veículos de comunicação. A “estagiária gostosa”, no futuro, ainda vai receber menos que os seus colegas de trabalho, e isso está longe de ser uma piada, mesmo que os jornalistas da Rádio Cidade insistam nisso.

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