“Esquenta!” discute racismo sem olhar para si

Domingo de sol, domingo de “Esquenta!”, samba e racismo. O tema escolhido para a atração de Regina Casé foi o preconceito contra os negros, mas a discussão não saiu do lugar-comum. Os convidados presentes relataram tristes histórias de discriminação que passaram ao longo da vida, mas ninguém lembrou de Douglas da Silva Pereira, o DG. O dançarino fazia parte do elenco fixo do programa até ser assassinado pela Polícia Militar em abril de 2014. Na ocasião, o corpo de DG foi encontrado nos fundos de uma creche do Morro do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana (RJ), com um tiro nas costas e escoriações.

Foto: Alex Carvalho (TV Globo)

 

Apesar da aparente boa intenção de propor o debate de uma questão de extrema relevância e que aflige metade da população brasileira, a edição do programa soou como uma tentativa de limpar a imagem arranhada de Regina Casé. Por diversas vezes, a apresentadora já foi informalmente acusada de ter ataques de estrelismo e de não gostar de pobres devido ao tratamento dado aos fãs. O “Esquenta!” de hoje foi inedito, mas a sua gravação ocorreu em dezembro, algumas semanas depois de Casé se ver no epicentro de uma série de críticas que questionavam o seu comportamento e credibilidade de sua atração dominical.

Maria de Fátima Silva, mãe de DG, fez graves acusações à apresentadora. Durante o “Ser Negra”, evento comemorativo ao Dia da Consciência Negra, Maria afirmou que sua participação no programa em homenagem ao seu filho foi limitada pela produção do “Esquenta!” e por Casé. “Eu só deveria responder o que me perguntassem. Quando eu tentava falar sobre a violência da polícia, era cortada”, disse a mãe do dançarino, que completou, sobre Regina: “uma farsa, uma artista, uma mentirosa”. O caso ganhou grande repercussão na imprensa e, apesar da defesa da apresentadora, dividiu as opiniões do público.

O que vimos neste domingo foi a exibição da história que já sabemos: negros no Brasil sofrem preconceito por sua cor. Parte da audiência acredita que a escolha do tema para um programa de forte apelo popular como o “Esquenta!” é avanço no debate sobre o racismo. Afinal, a Rede Globo enfim assume que o Brasil não é o país da democracia racial e que a discriminação é parte do cotidiano da população. Entretanto, abordar o racismo e não mencionar as mortes de DG, Amarildo e Cláudia, vítimas da violência policial, é, de certa forma, ser conivente com o genocídio da população negra no país, pois o falecimento deles não é exceção, mas regra.

O silêncio sobre a violência policial, as acusações da mãe de DG e a edição de 20 de janeiro de 2013 sobre a situação do Rio de Janeiro após a pacificação realizada pelas UPPs nos mostra que o posicionamento do “Esquenta!”, e da Rede Globo, é ideológico. Ao longo do programa deste domingo, Regina Casé não falou a palavra racismo, mas se referiu a ele somente como “preconceito de cor”. O termo foi utilizado somente pelos convidados ao relatarem as suas experiências. O que vimos foram negros assumindo seus papéis de vítimas, mas impossibilitados de problematizar os porquês das violências que sofrem.

No debate, a análise teórica do tema ficou por conta de um branco, o jornalista e produtor cultural Alê Youssef, como se os próprios convidados fossem incapazes de fazê-la por si só. A única que fugiu à regra foi Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo, que indicou como o racismo está presente em diversas estruturas da sociedade. “Imagine-se como branco num país só de negros, onde tudo o que foi feito de maravilhoso na estética, os arquitetos, os filósofos, os revolucionários e os reis foram todos negros. Até o ser supremo, Deus, era negro. Jesus Cristo também era negro. E você, sendo branco, na única vez que o sistema escolar começa a falar dos seus ancestrais coloca duas páginas no livro de História do Brasil falando que seus ancestrais eram escravos e não te contam nada mais”, provocou Loras.

E em tantas histórias tristes, Regina Casé se solidariza e afirma que entende bem o que é racismo, pois seus pais sempre tiveram muitos amigos negros que frequentavam sua casa. Como se conviver com negros eximisse qualquer pessoa de ser racista. No caso da apresentadora, acreditar nisso fica ainda mais difícil.

Veja o debate aqui.

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Ferguson é aqui: população vai às ruas no dia de hoje manifestar contra a violência e o racismo policial

Sair de casa é sempre um risco para o jovem negro. O medo de ser a próxima vítima de um assassinato por parte da Polícia Militar faz parte da rotina desses jovens, e das mães que passam a vida buscando justiça. Mas como encontrar justiça se é o Estado que tem matado seus filhos e a cada dia torna o racismo institucionalizado? Nos Estados Unidos a situação para a população negra é semelhante, e por não se conformar com o assassinato de mais um adolescente negro em Ferguson, a cidade foi palco de inúmeras manifestações. Seguindo o exemplo da comunidade negra dos Estados Unidos, um ato será realizado hoje em São Paulo contra a polícia e o Estado racista. Com o título “FERGUSON É AQUI!”, a concentração será às 16h na Praça da República.

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O ato convocado por quarenta e duas entidades e coletivos, até o momento, apresenta o seguinte trecho em nota divulgada em evento no Facebook:

“O número de homicídios no pais é superior ao de guerras; O número de assassinatos promovidos por oficiais do Estado são incompatíveis com qualquer experiência democrática; Corpos aos montes, prisões e torturas; Denúncias permanentes por partes de movimentos sociais, órgãos de pesquisa oficiais e até por parte de organismos internacionais. Mas nada, absolutamente nada tem sido capaz de deter o caráter genocida do Estado e de seus órgãos de repressão”.

Para compreendermos em números, segundo um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre racismo no Brasil em 2013, a expectativa de vida de um homem jovem brasileiro, negro ou pardo, é menor que a metade da de um homem branco da mesma idade. O estudo aponta outros dados importantes para a compreensão da necessidade de um ato como esse. Brasileiros negros e pardos sejam ricos ou pobres, seja homem ou mulher, têm quase oito vezes mais possibilidade de se tornar vítima de homicídio do que as pessoas não-negras. Para cada três vítimas de assassinato no Brasil, duas têm a pele escura.

O estudo completo se encontra AQUI.

E AQUI está o evento do ato no Facebook.

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