Se ao menos essa dor trouxesse o menino de volta

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Foto: Calixto-Nego Júnior

Se ao menos essa dor servisse para bater nas paredes da justiça e abrisse portas. Se ela falasse e não só despenteasse nossos cabelos, mas botasse fogo no país até que ela não existisse mais.

Se ao menos essa dor fosse mais potente que a bala do fuzil. Ela salta fora da garganta como um grito, cai pela janela, faz barulho e morre ali. Se ao menos esse grito descesse o morro, trouxesse o menino de volta.

A dor é um pedaço de pão duro que a gente engole à força e não consegue cuspir de volta. Se essa dor ao menos sujasse os carros, invadisse o espaço do outro, atingisse esse ser que passa indiferente. Que, no escuro, não sofre e diz que não tem o direito de sofrer.

Se essa dor fosse só o punho machucado de tanto socar a parede de pedra. Mas essa dor é visível, é penalizante. Dói com lágrimas, sangra.

“Quando eu corri para falar com ele, ele apontou a arma para mim. Eu falei ‘pode me matar, você já acabou com a minha vida’.”

Se ao menos essa dor trouxesse o menino de volta.

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