O incrível mundo de Dove sem racismo

A nova campanha da Dove fez um apelo para que garotas de cabelos cacheados amem a sua aparência. A ação traz um vídeo com o título “Ame seus Cachos” (“Love your curls”, no original) e propõe um resgate da autoestima das meninas com cabelo encaracolado. Não é de hoje que a marca conquista suas fãs estimulando o amor próprio e a valorização da beleza natural.

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A propaganda é excelente, certeira e mexe com o emocional de qualquer mulher de cabelos ondulados. Porém, os diversos depoimentos de garotas que possuem dificuldades em aceitar a própria aparência nos mostram uma das faces mais sombrias do racismo. Apesar de termos meninas brancas e loiras no vídeo, só quem é negra cacheada ou crespa sabe como é difícil assumir o visual natural.

A Dove sai na frente ao lançar uma bela campanha como esta. A aceitação do cabelo natural tem surgido como uma forte onda na internet e mudado a vida de diversas mulheres por meio de blogs, vlogs e páginas no Facebook repletos de dicas, relatos e tutoriais específicos. A marca também soube aproveitar uma demanda antiga e urgente, que era a inclusão e valorização de negras e donas de cabelos não lisos na publicidade de produtos de estética. Porém, a pergunta central não é abordada pela propaganda e é preciso nos atermos a ela: porque essas meninas não gostam de seus cabelos e de sua aparência?

O problema dessas garotas não é delas e muito menos de suas mães, mas de uma uma sociedade que as ensina a não se amarem em diversos momentos e espaços. Tratar de maneira individual a relação conturbada com a aparência é um peso que essas meninas e mulheres não devem carregar. O problema da autoestima baixa não é delas, mas da ditadura da beleza. O problema do racismo não é dos negros, mas dos brancos.

Para fazermos com que essas pequenas se amem é preciso trabalhar com o empoderamento individual, mas também se faz necessário criar um ambiente social que as valorize. Mesmo que o meio familiar seja o mais acolhedor em relação às madeixas das meninas, é inevitável lembrar que no futuro o mercado de trabalho poderá dizer que elas não possuem “boa aparência” com os cabelos naturais e exigirá que os alisem. Cabe ainda destacar que manter o crespo ou os cachos custa caro para algumas mulheres, pois tira delas o pão da mesa. A autoestima bem trabalhada é essencial para seguir a vida com o mínimo de sanidade, mas apenas empoderamento não mudará as estatísticas que apontam a mulher negra como a que menos recebe em seu emprego.

Seria perfeito se a dinâmica da vida funcionasse como no lindo comercial da Dove e a valorização familiar resolvesse os problemas de nossa autoestima. Entretanto, há uma boa dose de racismo na dificuldade das mulheres negras em aceitarem a própria aparência.

Dove, nós amamos nossos cachos, mas precisamos que a sociedade também os ame.

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Neste Natal os cabelos de Larissa resistem

Pentear o cabelo dói, ainda mais quando se tem seis anos e sua mãe não entende como dói na cabeça e na alma aqueles puxões. Larissa é uma das tantas garotinhas que estão sendo violentadas por causa de seu cabelo. Só que dessa vez a Larissa está sofrendo um pouco mais. Todo dia, desembaraçar seu cabelo era uma sessão de tortura seguida de broncas da mãe impaciente. A greve foi declarada, Larissa não permite mais que toque em seus cabelos e a saída que sua vó encontrou foi a de cortá-lo, contra a vontade da menina.

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Foto: Curls, kinks and coils

Essa é uma das tantas violências que Larissa sofrerá ao longo de sua vida devido ao seu cabelo. Sem entender direito porque tudo deve ser tão difícil para ela, a menina pede para que alise seu cabelo com a chapinha. Conheci a sua avó num bico de fim de ano que fiz numa loja de shopping. Enquanto eu embalava presentes, uma senhora de cinquenta anos, branca e loira se aproximou de mim e disse admirar meu cabelo. Já estava preparada para aquele papo chato de que eu pareço alguém da família e que sou uma “negra bonita”. Aquela coisa toda que somos obrigadas a passar quando colocamos os pés fora de casa, porém, dessa vez foi diferente.

Com a voz trêmula contou a história da neta e me pediu ajuda, afinal “como você faz para seu cabelo ficar assim”, perguntou. Atenta, aquela senhora ouviu sobre como pentes são cruéis e mãos são amáveis. Expliquei como deveria cuidar da neta passo por passo. Que cachinhos a gente desembraça no banho com bastante creme de hidratação e com as mãos. Não há muitos mistérios, mas isso eu tive que aprender sozinha depois de muitos anos sofrendo como Larissa.

Com as pequenas mãos, saiu da loja com presentes e a satisfação de ter descoberto como ajudar a neta.  A Lari vai passar o Natal com o cabelo curtinho, mas a sua vovó ciente da representatividade para meninas como ela, prometeu dar bonecas negras e cuidar com muito amor e carinho dos cachinhos da neta. Larissa com apenas seis anos resiste por cabelos livres, lindos, leves e loucos. Sua relação de confiança com as suas origens foram resgatadas.

Neste Natal dê amor e asas para que crianças negras também possam ser o que são. Evite piadas e faça mais elogios, você vai receber de volta o sorriso mais sincero.

Nossos blacks ainda nos levarão longe.

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