Uma tigresa com lábios de Ana e pele cor de mel

A Ana Carolina é o doce tiro silencioso. É beleza e uma certeza inabalável que o mundo é dela. Já o Adriano Bueno é o amigo talentoso que consegue retratar personalidades fortes por meio da fotografia. Os dois se reuniram num parque de diversões itinerante que passava por Bauru (SP), cidade em que moram para realizar esse ensaio fotográfico inspirador.

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Foto: Adriano Bueno

Ana encarnou um personagem  hipster com elementos góticos. “Tentei ser um pouco blasé com uma mistura de quem quer estar morta, mas que ainda assim se diverte num parque de diversões”,  brinca com o meme. Sendo uma mulher negra, a atitude blasé, de ignorar certas coisas que acontecem no mundo, nos traz a impressão de que Ana é forte. Por isso vemos nela a figura da mulher negra em sua completude: doce, guerreira, alegre, resistente, uma tigresa.

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Foto: Adriano Bueno

O figurino foi montado pelos dois amigos. A saia eles encontraram num brechó, já o top é do acervo pessoal do Adriano e a maquiagem da própria Ana.

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Foto: Adriano Bueno

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Foto: Adriano Bueno

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Foto: Adriano Bueno

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Foto: Adriano Bueno

 

 

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Um rolê pra se divertir, dar uma tumultuada, dar uns beijos, conhecer novos amigos e tirar várias fotos

Minhas canelas ardiam de tão rápido que andava. Caminhar até o centro da cidade sozinha, numa sexta à noite não é tão aconselhável. A cada prostituta que eu encontrava nas esquinas, a cada provocação dita pelos carros que passavam, a cada cantada na rua, me entreguei. Eu não sabia mais a quem temer. Responda, do que você sente tanto medo?

Responde, Aline, a quem você teme? Se a cidade não é sua, ela é de quem? Da travesti que anda com uma faca na bolsa porque toda noite sabe que talvez não volte pra casa, não é. Dos dois homens negros que me ultrapassaram, de chinelo no pé, muito menos. Dos cinco adolescentes que saltaram do ônibus, também não. É claro que não! Era a eles, esses meninos do ônibus, que gostaria de encontrar. Desde dezembro de 2013 isso havia ficado muito claro: a cidade e o shopping não pertencem aos adolescentes que só querem se divertir, dar uma tumultuada, dar uns beijos, conhecer novos amigos e tirar várias fotos.

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Foto: Wilian Olivato

Ao longo de 2014 o debate sobre os rolezinhos e a presença de adolescentes vindos das periferias nas regiões centrais das cidades pipocaram e o movimento tomou proporções ainda maiores. Foi nesse período que conheci os adolescentes de Bauru que enfrentaram dura repressão policial e até hoje estão ocupando praças e ruas da cidade.

Atualmente, em várias regiões do país os “rolezeiros” estão passando por um processo de criminalização e a Justiça tem proibido que transitem pelos shoppings sem seus responsáveis legais. Esse é o caso de Franca que em liminar publicada nesta terça-feira (3) no Diário de Justiça Eletrônico (DJE), a juíza Julieta Maria Passeri de Souza, determinou que adolescentes com idade até 18 anos só poderão entrar nas dependências do centro de compras da cidade acompanhados pelos pais ou responsáveis. Na última semana dois estabelecimentos de Cuiabá também passaram a proibir a entrada de menores desacompanhados dos responsáveis.

A situação de Franca é a mesma de Bauru, os “rolezinhos” não são novidade, há muitos anos os adolescentes se reuniam nesses espaços de lazer. Entretanto, o que há de diferente é que cada vez mais as barrerias sociais invisíveis que afastavam a periferia desses centros comerciais tem sido rompida e a reação é a criminalização.

Foi o que pude presenciar em janeiro de 2014 quando me aproximava do Boulevard Shopping Nações de Bauru. Pelo caminho muitos adolescentes surgiam na minha frente. Eu estava indo na direção oposta ao “rolezinho”, que atravessava a avenida correndo. Viro a esquina e a cavalaria da Polícia Militar me recepciona. A mim não, o objetivo deles não era recepcionar ninguém ali, mas expulsar. Bombas de efeito moral pra dispersar os adolescentes que tomavam a rua, cavalaria pra fazê-los andar mais rápido e revista policial num grupo de dez meninos, pra dar um susto.

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Foto: Wilian Olivato

“Eles podem nos revistar o quanto for, não vão encontrar nada. Não temos nada de drogas, não somos bandidos, mas afinal, quem é você?”, perguntou o menor C.A., de 17 anos. Jefferson Guilherme, já tem 19 anos, podemos chamá-lo pelo nome, e quer que todos saibam que o que está acontecendo é uma injustiça. “Anota ai, vai sair no jornal mesmo? Estamos sendo injustiçados. Eu trabalho a semana inteira e não posso curtir o final de semana com os meus amigos de boa?”. Márcio Aparecido, 18 anos, explica: “eles estão pegando no pé dos menores que estão bebendo, mas isso não é motivo pra revistar a gente, né?”. E sentencia: “aqui ninguém está vendendo bebidas para eles, o problema não é nosso”. Jefferson lembra “estamos fazendo o nosso rolezinho há anos, nunca incomodamos ninguém, porque agora decidiram partir pra cima?”.

A explicação pro Jefferson e para todos os adolescentes que se perguntavam o que estava acontecendo, saiu na imprensa bauruense durante a semana: “Rolezinho tem mutirão contra álcool”; “Bauru diz ‘não’ à truculência nos shoppings”. O plano foi bolado pela SEBES (Secretaria de Bem Estar Social) que em reunião com lideranças da cidade, concluiu que seria preciso intervir. Após a onda de rolezinhos em shoppings na cidade de São Paulo, todo o país passou a temer o que muitos têm chamado de “movimento”. Em Bauru, os Shoppings anunciaram que agiriam com cautela e a SEBES, preocupada, desejava punir todo maior de idade que induzisse menores a beber. Além do mutirão contra o abuso alcoólico entre menores, em parceria com o Ponto de Cultura “Acesso Popular”, um palco foi providenciado para a Praça Rui Barbosa. Desde às 19h diversos artistas locais ligados ao Hip Hop subiram no palquinho. A polêmica surgida na capital chegou ao interior e expôs uma ferida aberta há anos.

Com a falta de opções de lazer e entretenimento, com o aumento econômico da classe C, o interior já presenciava diversos rolezinhos no estado de São Paulo. Não é de hoje que adolescentes se reúnem em praças, parques, proximidades de shoppings para beber. Em Bauru, há dez anos é possível presenciar o fenômeno. Tudo começou no Bauru Shopping, localizado na área nobre da cidade. Os adolescentes se dividiam pela noite entre o supermercado Wallmart, Shopping e Habib’s. Em nenhum dos locais podiam ficar. Os vizinhos reclamavam, a Polícia Militar chegava de cavalaria e os expulsava. Quando o Boulevard Shopping Nações foi inaugurado em novembro de 2012, o rolezinho mudou para lá e se alongava até a Praça Rui Barbosa.

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Foto: Wilian Olivato

Enquanto caminhava do Shopping até a praça, atrás de mim, três adolescentes perguntavam “O que você quer novinha?”. Percebi que não haveria como fugir das investidas do grupo, então negociei. Uma foto, alguns goles de pinga e em troca eu falaria meu nome e o que fazia com uma câmera fotográfica em mãos. Negociação consumada, cachaça entornada, Orlando Neto, de 23 anos, analisava a situação. “Eles querem que a gente vá para a Praça, não querem que a gente fique nas proximidades do Shopping, acreditam que lá não seja o nosso lugar”. Outro grupo passa, um deles pede uma foto, uma voz entre eles brada “Pra que você vai tirar foto nossa? Pra chamar de marginal depois? Eu não deixo”. Enquanto este cobria o rosto, o restante buscava a melhor pose.

Orlandinho não me deixava esquecer dele. “Ei, mas você vai me passar seu Whatsapp?”. Dançarino desde os 15 anos, explica que a música pra ele é algo que vai além de todas as questões técnicas. “A música boa é aquela que toca o coração”. A relação é clara, emoção e dança, Orlandinho só dança se sente a música. Explica que isso se aplica a qualquer estilo musical. Apesar de saber dançar axé, pagode, o grupo que formou há poucas semanas, “Bonde do Prazer”, é de funk. Formado por ele, duas meninas e o MC Gui, que além de puxar a música, vai se aventurar na dança, o Bonde do Prazer já tem duas apresentações agendadas. E Orlandinho está animado para o ano. “Já fiz minha matrícula na faculdade de Direito, quero poder ajudar os irmãos que são presos injustamente”. Enquanto contava seus planos pro ano, entre shows, faculdade e trabalho, Orlandinho me puxa pelo braço e diz “vem cá, não vamos passar no mesmo lado da rua que esses ‘gambés’”. No nosso português chato, “gambé” é PM (Policial Militar).

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Foto: Wilian Olivato

Já na praça, encontro vários meninos e meninas que corriam da cavalaria alguns minutos antes. A tempestade havia passado e os policias no entorno da praça não adentravam no ambiente. Estavam nos quatro cantos, um verdadeiro cerco montado. Mas a presença das viaturas não inibiu a ninguém. A dança, o xaveco, as fotos, o rolezinho não parou. Em cima de uma mureta estava parte da “família” Castellamare. Quem disse que o rolezinho não é um ambiente familiar? Alguns grupos de amigos passam a se considerar uma família, mudam o sobrenome no Facebook, andam juntos e se apoiam. Isso não é exclusividade de Bauru e muito menos do rolezinho. No dia, metade da família Castellamare estava por lá, eram cinquenta. Ao todo são cem adolescentes e jovens. “Ei, cola na nossa festa? Os Castellamares estão organizando, vai ser open.”. A festa que promete tocar de tudo vai ser na Vila Industrial, Bauru, e só compra convite quem foi previamente convidado, ou integrantes da família.

Quando me dei conta, diversos garotos queriam me convidar para suas festas, mostrar que sabiam dançar ou rimar. “Ei, agora eu quero dar entrevista pra ela”, disputava João Araújo de 21 anos. João chamou atenção porque estava vestido com uma camiseta do rapper Thigor MC. E qual não é a surpresa que João é primo do rapper e possui o mesmo talento? “Aline, escolhe uma palavra, qualquer uma, que eu faço uma rima pra você”. Escolhi diamante e ouvi que eu era um. No final, João ganhou uma foto. “Só eu e ela molecada, rapa daqui”.

Rolezinho não tem estilo musical, tudo cabe. Uma roda agitava um “paGod”, uma espécie de pagode evangélico, com instrumentos e cantores de talento. Aos poucos diversos adolescentes se aproximavam, e entre improvisações, e músicas já conhecidas, aquele momento era dedicado a Deus. A iniciativa foi de jovens da Igreja Quadrangular, Comunidade Vineyard e o grupo de dança Wise Madness. Entre orações e palavras de apoio, os jovens se abraçavam. João, Orlandinho, Guilherme, Jefferson, e tantos outros também se aproximaram e demonstraram que tinham talento. Não eram da comunidade evangélica, mas conviviam bem e não fechavam os ouvidos a mensagem que era passada. Um dos meninos presentes era Leandrin Castellamare, que mais tarde viria se converter para a igreja e substituir o Castellamare por “Renúncia” no Facebook. Atualmente os convites são para grupos de oração, mas o ex rolezeiro continua curtindo a vida.

Aos poucos, a praça foi esvaziando, assim como as garrafas de cachaça e vodka. O horário do último ônibus para os bairros mais distantes se aproximava. Meu celular apitou, era o Leandrin me avisando que mais tarde queria as fotos. Afinal, rolezinho que vale a pena rende novos contatos no Whatsapp e muitas fotos com a “molecadadinha”.

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

 

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Transtornar o olhar: mês da visibilidade trans

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Com o título “Transtornar o olhar: mês da visibilidade trans”, o evento que ocorrerá no dia 28 de janeiro, próxima quarta-feira, pretende discutir temas como o processo transexualizador, família, mercado de trabalho, mídia e transfobia.

O debate será guiado pelas ativistas e estudantes universitárias Amara Moira e Leila Dumaresq, do Coletivo Trans Tornar. Amara é Doutoranda no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e escreve no blog “E se eu fosse puta”. Leila é Filósofa graduada pela Unicamp e escreve no blog “Transliteração”.

“Transtornar o olhar” terá início às 19h, e será realizado no Auditório da  Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB).  Não são necessárias inscrições antecipadas, e dúvidas podem ser encaminhadas para o endereço transtornar@gmail.com.

O evento é promovido pela Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC); Faculdade de Ciências (FC); Grupo de Pesquisa “Transgressões: Corpos, Sexualidades e Mídias Contemporâneas”; Projeto de Extensão “Escutando a Diversidade”; Conselho Regional de Psicologia – CRP São Paulo, e pelo Departamento de Ciências Humanas da FAAC.

Leia mais: http://bit.ly/1LcVzcL

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As crianças do Projeto Formiguinha querem que você veja “Além do Olhar”

O Projeto Formiguinha, de Bauru (SP), encontrou uma forma bastante criativa para levantar fundos para a reforma de sua cozinha. Até o próximo final de semana, os educadores da ação social irão vender calendários com fotos das crianças atendidas na comunidade local.

A ideia de produzir as imagens partiu de Bárbara Mello, fotógrafa e voluntária do projeto. Em parceria com os demais educadores, ela visitou as famílias das crianças para conhecer suas realidades e fazer os registros que deram origem ao ensaio batizado de “Além do Olhar”.

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A iniciativa conseguiu capturar mais do que belas fotos. Por meio das imagens, é possível compreender a identidade de cada criança e ainda observar os resultados das atividades pedagógicas elaboradas pelos educadores do projeto. Realizado em 2014, o ensaio registra ações que incentivam e valorizam elementos como raça, classe, gênero e cidadania.

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Isis Rangel, educadora do Formiguinha há dois anos, observa que a ação mudou radicalmente o comportamento dos pequenos. “As crianças passaram a cuidar mais do projeto e dos colegas. Muitas perceberam que a comunidade pertence a elas e por isso precisam preservá-la”, destaca a voluntária.

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A prévia do ensaio “Além do Olhar” foi exposta no “Pousada Cultural”, evento realizado pelo projeto para impactar e valorizar a cultura da comunidade local. A apresentação da iniciativa foi um sucesso e fez com que as fotografias fossem transformadas em um calendário, que está sendo vendido para arrecadar fundos para a reforma da cozinha do Formiguinha.

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Todo mundo quer saber de onde vem, para onde vai, como é que entra e como é que sai. As crianças do Projeto Formiguinha também querem estas informações. Mas, antes de tudo, elas também querem lembrar a todos para onde vão e porque são o que se são, figurando em cada mês do ano com uma fotografia.

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O calendário custa R$20 e pode ser adquirido na barraquinha do Formiguinha em frente à Biblioteca da Unesp de Bauru (das 13h às 14h e das 18h às 19h) ou a partir de pedidos por meio da página do projeto no Facebook.

O projeto

O Projeto Formiguinha é uma ação sem fins lucrativos tem como principal objetivo evitar que as crianças e os jovens caiam na marginalidade que a rua oferece, realizando atividades educativas, recreativas, esportivas e culturais.

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Filhas da rua

Um conto-reportagem sobre madrugada e saltos-altos nas esquinas da vida

Por Felipe Vaitsman 

A rua ensina, é uma mãe. Pela madrugada, as mais asquerosas histórias caem no breu da cidade. Gente que morreu por dez reais, por trapaça, por ciúme, por vingança, por pensar diferente, por ser diferente. Por estar na rua.

Outro dia mesmo, mataram uma travesti na cidade. Thays, 27 anos. Deu no jornal. Na rodoviária, ela armou barraco com uma mulher que furou a fila do guichê para comprar a última passagem. Se descontrolou, gritou e tentou agredir a trapaceira. Saiu escorraçada. Sem bilhete, voltou à pensão em que estava. Para morrer. O namorado a assassinou com um tiro no peito, dentro do quarto. Ninguém sabe dizer ao certo qual foi o motivo.

Vivian mora nessa pensão, e conhecia a vítima. Viu a mesma arma apontada para o rosto, mas ficou calada e viveu para contar a história. Ela trabalha na esquina da Rua Benjamin Constant com a Avenida Nações Unidas. Tem 19 anos. Toma hormônios há quatro meses e se orgulha dos peitinhos já crescidos.

— Tem bofe que acha que eu sou mulher. É porque eu sou bicha-paty.

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Foto: Amanda Lima

De vestido rosa-choque, curtinho, e com uma enorme bolsa laranja, ela bate o tamanco no chão e gagueja quando fica nervosa. Engole com os olhos, carros e mais carros que passam lentamente por ali. Ela acena, mexe, pede carona. A transa é cinquenta, a chupeta é trinta. Mas o movimento está fraco.

A colega, Fernanda, na rua há muito mais tempo, sabe bem que lua cheia e céu limpo iluminam o submundo mais do que se deveria. Que homem quer ser visto abrindo a porta do carro para uma travesti? Pois ela pouco se importa. Ri, joga o cabelo para trás e roda em torno do poste com movimentos de pole dance. Já entrou em carro com cinco bofes. E já foi ameaçada por mais de dez. Botou todos para correr, menos um, que não escapou a tempo e foi achincalhado em plena calçada. Hoje, Fernanda se arrisca bem menos. Trocou as esquinas pelo celular. Fica em casa o dia todo, esperando algum cliente acioná-la. Quando está na rua, é porque o telefone não tocou.

Pois Vivian e Fernanda dividiam o ponto naquela terça-feira. Se conheceram ali mesmo, sob a enorme lua cheia. Os carros passam vagarosamente e trazem olhares tímidos, assustados, curiosos. Elas só pausam a conversa para mexer com os homens:

— Me leva pra casa! — grita Fernanda, para dois que passavam de carro pela segunda ou terceira vez.

— A-adoro um negão… Quan… quantos já não me juntaram nessa pa… nessa parede aqui e puxaram meu cabelo com força? — comenta Vivian.

— Ah, não! Negão não dá, amiga! Dói demais. Só cheirando muito pó pra aguentar.

— Ma… mas eu gosto é de sentir dor mesmo, bi. Gosto quando eles me batem. E… e eu bato neles tam… também.

— Bate quando faz a ativa, bicha?

— Ba-to! Tem homem que quer apanhar! Eles só não assumem…

— E você gosta de fazer a ativa, é?

— Adoro! Principalmente quando o cara parece be… bem machão, mas é to… todo recatado. E, olha… o “meu” é bem maior que o de muitos por aí.

— Porque você não é homem, então, louca? Gosta de ser ativa!

— Eu, não, bi. Eu sou bicha-paty…

Mas Vivian sabe deixar a delicadeza de lado. Carrega sempre uma faca. Cansou de ter suas bolsas roubadas pelos vagabundos que zanzam na noite. Agora já reconhece o perigo de longe. Da última vez, lutou com o ratoneiro e conseguiu salvar as coisas. Em pouco tempo, aprende-se muito. Fernanda parou de estudar muito cedo, mas costuma dizer que se formou, já deu aulas e agora é diretora na rua. Ela já não paga pelo ponto.

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Foto: Amanda Lima

Para se prostituir na Avenida Nações Unidas, a maioria das travestis deve pagar uma espécie de aluguel para alguma cafetina. São cem reais por dia – dois programas. Cada cem metros de avenida é de uma dona. São entre quatro e seis esquinas. Algumas dessas cafetinas ainda abrigam as meninas em apartamentos, quartinhos ou pequenas pensões como aquela em que Vivian mora e onde mataram Thays. É uma luta para pagar tudo em dia. No mundo delas, as ameaças vêm de todos os lados.

Rillary tem 22 anos e carrega nos braços algumas marcas da vida. Foi atacada com uma faca de cozinha na Parada da Diversidade de Sertãozinho por outra travesti. E, na rua, sabe dos riscos que corre. Mesmo assim não abre mão de levar o celular para o trabalho: gosta de ouvir música enquanto espera pelos clientes. Se roubarem, foi só mais um aparelho, de tantos. Bianca, de 35, faz ponto na esquina do Teatro Municipal. No último sábado, alguns infelizes passaram de carro e arremessaram ovos nela e em outras colegas que, com sorte, não foram atingidas. Mas as marcas da ignorância e do preconceito estão na parede de um dos símbolos da cultura em Bauru até hoje.

Bianca é serena. Loira, alta e siliconada, olha fundo nos olhos de cada um que passa salivando por ela. Muito simpática, não desmancha o sorriso nem quando alguém para o carro só para ofendê-la. É o mesmo homem que vai voltar no fim da madrugada, para fazer um programa. Hoje ela se dá o direito de escolher: só transa com quem mostra firmeza. Naquela noite, por volta das três da manhã, foi vista saindo de uma BMW – cliente graúdo. Mas voltar ao ponto é sempre se expor à estupidez: “eu gosto é de boceta”, gritava um homem embriagado, de dentro do carro. Não é preciso responder. Ela prefere acenar ao outro que passa se declarando.

— Bianca, meu sonho de consumo!

A esses, carinhosos, toda a reciprocidade. Inocência, jamais. O homem antes de gozar é um. Depois, é outro. E aquele que ganha um programa de graça nunca mais vai querer pagar. Por isso, Rillary não dificulta a negociação. “Dinheiro na mão, calcinha no chão. Dinheiro, não viu, calcinha subiu”, é o que sempre diz, com seu sorriso tímido.

Cada uma vai atrás do seu.

Foto: Amanda Melo

Foto: Amanda Lima

Na Nações Unidas, do cruzamento com a Avenida Duque de Caxias até a rodoviária, Vivian, Fernanda, Rillary e Bianca, além de dezenas de outras travestis, vivem a face mais visceral da noite. Tal como os mendigos do centro da cidade, os traficantes do Parque Vitória Régia e malandros vacilantes, que andam por aí fumando bitucas de cigarro, pedindo goles de cerveja e cometendo pequenos delitos para pagar suas drogas. São todos vítimas. Estar na rua não é opção.

Rillary queria mesmo é ser DJ. Sonha tocar em festas abarrotadas, virando a madrugada nas melhores baladas de São Paulo. Bianca fez Magistério e está concluindo um curso para ser auxiliar de cabeleireiro. Ainda assim, as duas continuam nas esquinas noite após noite. É muito difícil deixar essa vida. Não é todo dia que se vê uma travesti num balcão de farmácia, na recepção de um hotel ou na gerência de um banco. Por preconceito e hipocrisia da sociedade, foram fadadas a ser putas.

São becos, bocas, drogas, furtos, dívidas, facas, balas, mortes. Já seria um prejuízo muito grande se Thays fosse a única vítima da violência contra transgêneros. Mas e Camila, assassinada com uma facada na altura do pescoço? E Safira, morta com cinco tiros? O que dizer sobre Evelyn, espancada e largada no meio do mato pelo agressor? Não tardará a aparecer uma travesti estraçalhada na linha do trem. E a sujeira do asfalto vai encobrir explicações. “Foi por vingança”, “roubou o cliente”, “usava drogas”, “era puta” vão ser as respostas doentias ecoando pela avenida. O fato é que há vários rastros de sangue no chão que não serão apagados.

Na noite de movimento fraco e babados fortes entre Vivian e Fernanda, a bicha-paty pergunta à colega mais experiente, diretora na rua:

— Do… do que vo… do que você tem medo?

— De nada — diz, se entregando com o olhar.

— Eu te… eu tenho medo de… tenho medo de morrer.

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Cidades proibidas para mulheres

Se anjos existem, eles se esqueceram das mulheres de Bauru e de todos os cantos do Brasil. Ou talvez escolheram proteger somente as que não saem de casa e não correm perigo. Vai ver o seguro de vida é mais caro para mulheres tidas por “vadia”, como eu. Para prostitutas e mulheres transexuais nem deve passar pela cabeça desses anjos que elas merecem proteção. Por muito tempo pedi a proteção de qualquer entidade divina, mas como o socorro veio em forma de cantadas agressivas, passei a andar durante a noite, quando volto da faculdade, com as chaves entre os dedos.

Foto: Aline Ramos

Quando saí da casa dos meus pais há quatro anos, o maior medo deles era que eu abandonasse a religião que professávamos. Eles tinham razão, tão logo me afastei de casa e comecei a vida em outra cidade, parei de ir à igreja. Viver sozinha em outro lugar fez com que eu tivesse minhas recaídas religiosas e barganhasse a minha fé pela proteção contra qualquer tipo de assédio. Se aquele carro que estivesse me seguindo numa das avenidas principais da cidade parasse de me seguir, eu iria para a igreja no sábado seguinte. Mas fui à igreja e ouvi que as mulheres segundo o coração de Deus são submissas aos homens e relembrei o porquê havia abandonado minha religião. Não voltei mais, e sabendo que não podia contar com a ajuda de homens, anjos e Deus, passei a apertar o passo.

Minhas canelas ardem quando ando por Bauru, tanto pelo calor, como pelo medo. Não há lugar nessa cidade que me faça andar em paz. Não conto para os meus pais que a preocupação deles deveria ser outra, e não a religiosa, mas fico feliz que ainda orem por mim e peçam que os anjos me protejam. Quem sabe são vencidos pelo cansaço. Mas enquanto isso não acontece, tenho que ouvir às dez horas da manhã, do pedreiro da construção da casa ao lado, que meu perfume é bom e que tenho cara de boqueteira. Às vezes, quando vou ao supermercado, eu ouço que sou deliciosa e que me chupariam inteira.

Olha, vou ser franca, se ficassem simplesmente com essas promessas horríveis, eu ficaria tranquila. Acontece que às vezes sou seguida por carros e motos. Certa vez fui parada duas vezes na mesma semana, enquanto voltava da faculdade durante a noite, pelo mesmo rapaz de moto que insistia em saber para onde eu me dirigia. Passei dois meses com pavor de sair de casa e acreditando que alguém estava me seguindo. Porém, isso voltou a se repetir, e eu que achava que o sol forte de Bauru seria capaz de me proteger, fui seguida por dois carros em trinta minutos de caminhada. Além dos anjos terem me abandonado, parece que enviarem demônios para me assustar. E conseguiram.

Eu queria ligar para os meus pais e pedir ajuda, mas tudo o que passei a fazer foi parar de sorrir e falar mais grosso. Pelo telefone, digo a eles que tenho comido mais salada e menos carne. Nem o céu mais bonito do centro oeste paulista é capaz de atenuar o medo que a cidade nos faz sentir. Segundo a Coordenadoria de Análise e Planejamento (CAP) da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), os casos de estupro em Bauru aumentaram 9,6% em 2014. Por mais que esses dados tenham seu lado positivo, já que muitas mulheres têm respondido ao estímulo de denunciarem os abusos em que são vítimas, a sensação de insegurança aumenta e interfere no nosso dia a dia.

Uma notícia recente entristeceu a todas nós, mulheres, nesta semana. Em agosto do ano passado, um caso de estupro coletivo chocou Bauru. Uma garota de 17 anos foi abusada por 10 rapazes, num terreno baldio, durante a festa de comemoração do aniversário da cidade. E mesmo diante de tamanha crueldadade, a justiça local decidiu pelo arquivamento do processo.

No dia 7 de fevereiro, Bauru será palco da III Marcha das Vadias. Desta vez, o tema será “A culpa não é da vítima”, afinal, se os anjos se esqueceram de nós, marcharemos até que tenhamos direito à cidade.

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Festa “Off The Wall” realiza ação contra o preconceito

Existem festas que deveriam colocar no cartaz de divulgação que é open de mordida, beliscão, passada de mão na bunda, elogios que mais parecem xingamentos. Tudo com um forte toque de racismo, machismo e homofobia. Diante aos sucessivos casos de assédio e violência nas festas de Bauru, os organizadores da “Off the Wall” realizaram uma ação especial de divulgação para a próxima edição da festa que está marcada para o dia 16 de janeiro, na Labirinthus International.

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Agnes Sofia Guimarães, estudante de Jornalismo da Unesp, se animou ao saber que a organização do evento possui essa preocupação. Para Agnes, o trauma da violência em que passou numa festa ainda interfere na sua decisão de ir ou não. A estudante conta que ficou com um rapaz que queria força-la a fazer coisas no qual não queria, e por isso, ele a violentou fisicamente e verbalmente. “Ele disse que era muito estranho eu não ser daquelas de ter orgulho da sua sexualidade, afinal eu era negra, um tipo de mulher que se excita com mais facilidade”, relata a estudante.

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“NÃO DEIXEM TE DIZER QUE VOCÊ NÃO TEM ESPAÇO. NÓS SOMOS A RESISTÊNCIA!”

Para Renan Estivan, um dos organizadores da “Off the Wall” é importante que pessoas que passaram por violências de todo tipo em festas, como a Agnes, possam se sentir a vontade. “A gente escolheu essa temática de divulgação, contra o preconceito, para deixar claro o que a festa representa”. Renan conta que também já passou por assédio moral numa festa. “Pela primeira vez na minha vida tive que ir embora mais cedo  porque estava com medo”. O jovem relata que um grupo de rapazes fizeram chacota da fantasia que vestia e isso chegou a assusta-lo. O estudante de Design enfatiza que esse não é o espírito da Off The Wall, e deseja que todos possam “se jogar” na festa sem se preocupar com atitudes violentas.

"A ADORÁVEL LIBERDADE DE AMAR!"

“A ADORÁVEL LIBERDADE DE AMAR!”

A AÇÃO

Com fotos que retratam a quebra de preconceitos, a ação também visa divulgar quais bebidas serão servidas no open bar da festa.  Guilherme Delarmelindo, outro organizador do evento, salienta que é o objetivo é que todos entendam que podem ser quem desejam ser. “Numa festa, geralmente o que mais atrai nosso público é a bebida, então escolhemos a divulgação do open bar para comunicar o que defendemos”, explica. Cada bebida fez referência a algum movimento ou discussão social. A ação conta com imagens sobre a fuga dos padrões de beleza, a luta pelos direitos do movimento LGBT, a luta contra o racismo e da igualdade dos gêneros. Arthur Ferreira, que também é organizador do evento explica que as imagens foram concebidas como um protesto. “Nossa causa é o pop, mas não podemos esquecer-nos dos outros recortes que influenciam nossa diversão”, pondera.

Confira mais imagens que participaram da ação:

"SEU DIREITO É DE SE ACABAR NA PINGA DE SABOR E SE ESBALDAR NO RESPEITO"

“SEU DIREITO É DE SE ACABAR NA PINGA DE SABOR E SE ESBALDAR NO RESPEITO”

 

"LUTE PELO ESSENCIAL!!!"

“LUTE PELO ESSENCIAL!!!”

 

"LIBERTE-SE DOS PADRÕES!"

“LIBERTE-SE DOS PADRÕES!”

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