Minha doce Angela Davis

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Tenho um doce anjo negro que me visita todas as noites. Esse doce anjo já me contou sobre quando lutou contra o mundo com apenas treze anos. Tenho uma garota que batalhou por mim e eu nem sabia. Ela não é nenhuma estrela, mas trouxe muita luz para seu povo.

Por mais que digam que anjos não tem sexo, meu doce anjo negro é uma mulher solitária. Colocaram meu anjo na cadeia. Ela esteve em perigo. Essa pequena garota falou ao coração do mundo mesmo não sendo uma cantora pop. O FBI queria pregá-la numa cruz, meu pequeno doce anjo negro.

Ela tem a força de uma pantera e sua garra levou sua palavra longe. Sua voz tem a sonoridade de um trompete de jazz, um bálsamo revolucionário.

Minha doce angela Davis é a professora do povo. Meu doce anjo negro faz hoje 71 anos e toda noite me visita e sussurra em meus ouvidos: “não se prenda, nossa luta é por liberdade”. Minha doce Angela, minha doce Davis.

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Eu sou neguinha?

Foto: Rodrigo Azevedo

Foto: Rodrigo Azevedo

Eu agradecia a Deus por meu pai ser branco e não ter nascido neguinha. Eu gostava de ser morena, afinal, não era tão ruim como ser neguinha. Eu olhava minhas amigas conhecidas como “escurinha” e sentia um alívio por não ser tão feia quanto elas, as verdadeiras neguinhas.

Durante a adolescência namorei um cara que queria me chamar de neguinha, mas eu disse “não sou tuas negas” e pedi para evitar esse carinho. Até que, com 18 anos, após sair de uma depressão braba, cortei os cabelos alisados e assumi os cachos. Um mês depois. Enquanto eu andava perdida por Blumenau. Um senhor passou por mim e disse com todo o nojo possível “neguinhaaa”. Eu procurei ao meu redor, mas era só eu e ele na rua, eu olhei para mim e fiz a mesma pergunta da música cantada pela Vanessa da Mata: “eu sou neguinha?”.

Eu era um enigma, uma interrogação. Fiquei sem reação e com vergonha por talvez ser neguinha. E cada piada na rua, sobre meu cabelo, parecia bobagem, mas não era não. Eu não decifrava, eu não conseguia, mas aquilo ia, e eu ia, e eu ia, e eu ia, e eu ia. Eu me perguntava e resistia. Até que meu primeiro professor negão, logo que me viu exclamou que eu era a Angela Davis brasileira. Procurei no Google quem era essa tal de Angela Davis, porque nas aulas de História ninguém tinha me contado quem era, e então fiquei me perguntando: eu sou neguinha? Eu sou neguinha? Sou neguinha. Eu sou neguinha? Sou neguinha.

Enfim descobri que estava em Madureira, estava na Bahia, no Beaubourg, no Bronx, no Brás. E eu, e eu, e eu, e eu, eu sou só 5% dos jornalistas negros do Brasil, segundo levantamento realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em 2012. Eu sou o percentual de negros entre os jornalistas que são inferiores à metade da presença de pretos e pardos no país. Eu sou a mulher negra invisibilizada na mídia brasileira e que só aparece no Carnaval. Eu sou a minha voz, mas eu também quero saber quais são as negas que tanto esconderem de mim e que eu também sou. Quais são as mulheres que invadem, machucam, maltratam e fundem a cuca? Que nega é essa? Eu sou neguinha.

 

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