Se ao menos essa dor trouxesse o menino de volta

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Foto: Calixto-Nego Júnior

Se ao menos essa dor servisse para bater nas paredes da justiça e abrisse portas. Se ela falasse e não só despenteasse nossos cabelos, mas botasse fogo no país até que ela não existisse mais.

Se ao menos essa dor fosse mais potente que a bala do fuzil. Ela salta fora da garganta como um grito, cai pela janela, faz barulho e morre ali. Se ao menos esse grito descesse o morro, trouxesse o menino de volta.

A dor é um pedaço de pão duro que a gente engole à força e não consegue cuspir de volta. Se essa dor ao menos sujasse os carros, invadisse o espaço do outro, atingisse esse ser que passa indiferente. Que, no escuro, não sofre e diz que não tem o direito de sofrer.

Se essa dor fosse só o punho machucado de tanto socar a parede de pedra. Mas essa dor é visível, é penalizante. Dói com lágrimas, sangra.

“Quando eu corri para falar com ele, ele apontou a arma para mim. Eu falei ‘pode me matar, você já acabou com a minha vida’.”

Se ao menos essa dor trouxesse o menino de volta.

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Aline Ramos, 26 anos é idealizadora do blog “Que nega é essa?, dedicado a discussões sobre feminismo, movimento negro e cultura. É assessora de comunicação do Programa Jovem Monitor/a Cultural pela Ação Educativa. Em 2015, foi indicada pela Revista Cláudia como uma das 30 mulheres com menos de 30 para ficar de olho, incluída na lista de mulheres inspiradoras do Think Olga no mesmo ano e considerada uma das mulheres negras mais influentes da web pelo Blogueiras Negras.

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