Neste Natal os cabelos de Larissa resistem

Pentear o cabelo dói, ainda mais quando se tem seis anos e sua mãe não entende como dói na cabeça e na alma aqueles puxões. Larissa é uma das tantas garotinhas que estão sendo violentadas por causa de seu cabelo. Só que dessa vez a Larissa está sofrendo um pouco mais. Todo dia, desembaraçar seu cabelo era uma sessão de tortura seguida de broncas da mãe impaciente. A greve foi declarada, Larissa não permite mais que toque em seus cabelos e a saída que sua vó encontrou foi a de cortá-lo, contra a vontade da menina.

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Foto: Curls, kinks and coils

Essa é uma das tantas violências que Larissa sofrerá ao longo de sua vida devido ao seu cabelo. Sem entender direito porque tudo deve ser tão difícil para ela, a menina pede para que alise seu cabelo com a chapinha. Conheci a sua avó num bico de fim de ano que fiz numa loja de shopping. Enquanto eu embalava presentes, uma senhora de cinquenta anos, branca e loira se aproximou de mim e disse admirar meu cabelo. Já estava preparada para aquele papo chato de que eu pareço alguém da família e que sou uma “negra bonita”. Aquela coisa toda que somos obrigadas a passar quando colocamos os pés fora de casa, porém, dessa vez foi diferente.

Com a voz trêmula contou a história da neta e me pediu ajuda, afinal “como você faz para seu cabelo ficar assim”, perguntou. Atenta, aquela senhora ouviu sobre como pentes são cruéis e mãos são amáveis. Expliquei como deveria cuidar da neta passo por passo. Que cachinhos a gente desembraça no banho com bastante creme de hidratação e com as mãos. Não há muitos mistérios, mas isso eu tive que aprender sozinha depois de muitos anos sofrendo como Larissa.

Com as pequenas mãos, saiu da loja com presentes e a satisfação de ter descoberto como ajudar a neta.  A Lari vai passar o Natal com o cabelo curtinho, mas a sua vovó ciente da representatividade para meninas como ela, prometeu dar bonecas negras e cuidar com muito amor e carinho dos cachinhos da neta. Larissa com apenas seis anos resiste por cabelos livres, lindos, leves e loucos. Sua relação de confiança com as suas origens foram resgatadas.

Neste Natal dê amor e asas para que crianças negras também possam ser o que são. Evite piadas e faça mais elogios, você vai receber de volta o sorriso mais sincero.

Nossos blacks ainda nos levarão longe.

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Aline Ramos, 26 anos é idealizadora do blog “Que nega é essa?, dedicado a discussões sobre feminismo, movimento negro e cultura. É assessora de comunicação do Programa Jovem Monitor/a Cultural pela Ação Educativa. Em 2015, foi indicada pela Revista Cláudia como uma das 30 mulheres com menos de 30 para ficar de olho, incluída na lista de mulheres inspiradoras do Think Olga no mesmo ano e considerada uma das mulheres negras mais influentes da web pelo Blogueiras Negras.

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