Eu sou neguinha?

Foto: Rodrigo Azevedo

Foto: Rodrigo Azevedo

Eu agradecia a Deus por meu pai ser branco e não ter nascido neguinha. Eu gostava de ser morena, afinal, não era tão ruim como ser neguinha. Eu olhava minhas amigas conhecidas como “escurinha” e sentia um alívio por não ser tão feia quanto elas, as verdadeiras neguinhas.

Durante a adolescência namorei um cara que queria me chamar de neguinha, mas eu disse “não sou tuas negas” e pedi para evitar esse carinho. Até que, com 18 anos, após sair de uma depressão braba, cortei os cabelos alisados e assumi os cachos. Um mês depois. Enquanto eu andava perdida por Blumenau. Um senhor passou por mim e disse com todo o nojo possível “neguinhaaa”. Eu procurei ao meu redor, mas era só eu e ele na rua, eu olhei para mim e fiz a mesma pergunta da música cantada pela Vanessa da Mata: “eu sou neguinha?”.

Eu era um enigma, uma interrogação. Fiquei sem reação e com vergonha por talvez ser neguinha. E cada piada na rua, sobre meu cabelo, parecia bobagem, mas não era não. Eu não decifrava, eu não conseguia, mas aquilo ia, e eu ia, e eu ia, e eu ia, e eu ia. Eu me perguntava e resistia. Até que meu primeiro professor negão, logo que me viu exclamou que eu era a Angela Davis brasileira. Procurei no Google quem era essa tal de Angela Davis, porque nas aulas de História ninguém tinha me contado quem era, e então fiquei me perguntando: eu sou neguinha? Eu sou neguinha? Sou neguinha. Eu sou neguinha? Sou neguinha.

Enfim descobri que estava em Madureira, estava na Bahia, no Beaubourg, no Bronx, no Brás. E eu, e eu, e eu, e eu, eu sou só 5% dos jornalistas negros do Brasil, segundo levantamento realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em 2012. Eu sou o percentual de negros entre os jornalistas que são inferiores à metade da presença de pretos e pardos no país. Eu sou a mulher negra invisibilizada na mídia brasileira e que só aparece no Carnaval. Eu sou a minha voz, mas eu também quero saber quais são as negas que tanto esconderem de mim e que eu também sou. Quais são as mulheres que invadem, machucam, maltratam e fundem a cuca? Que nega é essa? Eu sou neguinha.

 

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Aline Ramos, 26 anos é idealizadora do blog “Que nega é essa?, dedicado a discussões sobre feminismo, movimento negro e cultura. É assessora de comunicação do Programa Jovem Monitor/a Cultural pela Ação Educativa. Em 2015, foi indicada pela Revista Cláudia como uma das 30 mulheres com menos de 30 para ficar de olho, incluída na lista de mulheres inspiradoras do Think Olga no mesmo ano e considerada uma das mulheres negras mais influentes da web pelo Blogueiras Negras.

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