“Don’t touch my hair” e desce até o chão

Festa com temática negra promete agitar noite paulistana neste sábado (11)

Toda mulher negra com cabelo afro já ouviu alguma vez na vida se podiam tocar nele. É incrível, a pergunta surge nas mais diversas situações: no bar, no ônibus, na fila da loja, no meio da aula, no trabalho, na balada, na entrevista de emprego.

Sabe quando você está com pressa? Correndo para pegar o ônibus ou para chegar no banco antes das 16h? Pois é, nessas horas sempre surge alguém pedindo para pegar no seu cabelo e fazendo diversas perguntas inconvenientes. Seu cabelo é natural? Você faz esses cachos no dedo? Você lava? Dá para esconder muita coisa ai dentro? O que você fez para ele ficar assim?

Nascemos.

No começo, as perguntas não incomodam tanto, nem sempre percebemos o racismo contido nelas. Acreditamos inocentemente que é curiosidade e estamos fazendo um bem em prol de todas as pessoas negras deixando brancos tocarem em nosso cabelo. Pera lá, não é bem assim.

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Quer saber mesmo a verdade? Enfiaram na nossa goela o cabelo liso e não possuem o mínimo de interesse em buscar informações e respeitar os nossos fios, tranças, dreads e turbantes. A curiosidade passou a ser falta de respeito. Tem gente que sequer pergunta e sai metendo a mão no nosso cabelo como se nosso corpo fosse espaço público. O cansaço e o afrontamento sempre chegam. Quer saber?

Don’t touch my hair.

No próximo sábado, dia 11 de julho, o Porão da Sanfran vai receber uma festa com temática negra organizada por mulheres que estão cansadas do racismo, machismo, lesbofobia, bifobia, homofobia e transfobia. Com o nome “Don’t touch my hair”, prometem colocar todo mundo para mexer a bunda com as músicas que foram sensação em outras épocas e estouraram recentemente no mundo, e claro, tudo de artistas negros.

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A festa tem como objetivo mostrar que racismo e questões envolvendo gênero e sexualidade não estão dissociadas. Jéssica Ipólito, uma das organizadoras, explica como espaços que valorizam a cultura negra também podem ser opressivos para diversas pessoas.

“Em festa hip-hop rola um machismo e outros preconceitos de modo pesado. Festa de ragga, dancehall também são opressivas para mulheres em geral, gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais. As festas black de São Paulo não são diferentes”, critica.

Atrações

O time para agitar a noite é puro afrontamento. Tássia Reis, rapper que vem ganhando destaque na cena paulistana por sua voz suave e potente irá se apresentar ao lado de Xênia França, vocalista da banda Aláfia e que realizará um pocket show de BahiaBase. A discotecagem ficará por conta da DJ Luana Hansen, Jéssica Tauane (Canal das Bee), Eric Dos Palmares e a dupla Jamille e Regiane.

Um concurso de box braids (tranças sintéticas) também será realizado na festa com o objetivo de valorizar a beleza negra. O evento é destinado para todos os públicos, sem qualquer tipo de distinção. Jéssica explica que o nome da festa não busca restrições, mas a transmissão de uma mensagem que possui pouco espaço.

“A maioria de nós sabe o que é ter nosso cabelo visto como exótico, diferente e até mesmo “corajoso” de se ter. As pessoas querem olhar com as mãos sem a permissão, isso é tenso demais. Pode olhar, mas don’t touch, ok?”.

Confirme presença no evento e veja mais informações dessa noite afrobaphônica.

 

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Aline Ramos, 26 anos é idealizadora do blog “Que nega é essa?, dedicado a discussões sobre feminismo, movimento negro e cultura. É assessora de comunicação do Programa Jovem Monitor/a Cultural pela Ação Educativa. Em 2015, foi indicada pela Revista Cláudia como uma das 30 mulheres com menos de 30 para ficar de olho, incluída na lista de mulheres inspiradoras do Think Olga no mesmo ano e considerada uma das mulheres negras mais influentes da web pelo Blogueiras Negras.

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