Cidades proibidas para mulheres

Se anjos existem, eles se esqueceram das mulheres de Bauru e de todos os cantos do Brasil. Ou talvez escolheram proteger somente as que não saem de casa e não correm perigo. Vai ver o seguro de vida é mais caro para mulheres tidas por “vadia”, como eu. Para prostitutas e mulheres transexuais nem deve passar pela cabeça desses anjos que elas merecem proteção. Por muito tempo pedi a proteção de qualquer entidade divina, mas como o socorro veio em forma de cantadas agressivas, passei a andar durante a noite, quando volto da faculdade, com as chaves entre os dedos.

Foto: Aline Ramos

Quando saí da casa dos meus pais há quatro anos, o maior medo deles era que eu abandonasse a religião que professávamos. Eles tinham razão, tão logo me afastei de casa e comecei a vida em outra cidade, parei de ir à igreja. Viver sozinha em outro lugar fez com que eu tivesse minhas recaídas religiosas e barganhasse a minha fé pela proteção contra qualquer tipo de assédio. Se aquele carro que estivesse me seguindo numa das avenidas principais da cidade parasse de me seguir, eu iria para a igreja no sábado seguinte. Mas fui à igreja e ouvi que as mulheres segundo o coração de Deus são submissas aos homens e relembrei o porquê havia abandonado minha religião. Não voltei mais, e sabendo que não podia contar com a ajuda de homens, anjos e Deus, passei a apertar o passo.

Minhas canelas ardem quando ando por Bauru, tanto pelo calor, como pelo medo. Não há lugar nessa cidade que me faça andar em paz. Não conto para os meus pais que a preocupação deles deveria ser outra, e não a religiosa, mas fico feliz que ainda orem por mim e peçam que os anjos me protejam. Quem sabe são vencidos pelo cansaço. Mas enquanto isso não acontece, tenho que ouvir às dez horas da manhã, do pedreiro da construção da casa ao lado, que meu perfume é bom e que tenho cara de boqueteira. Às vezes, quando vou ao supermercado, eu ouço que sou deliciosa e que me chupariam inteira.

Olha, vou ser franca, se ficassem simplesmente com essas promessas horríveis, eu ficaria tranquila. Acontece que às vezes sou seguida por carros e motos. Certa vez fui parada duas vezes na mesma semana, enquanto voltava da faculdade durante a noite, pelo mesmo rapaz de moto que insistia em saber para onde eu me dirigia. Passei dois meses com pavor de sair de casa e acreditando que alguém estava me seguindo. Porém, isso voltou a se repetir, e eu que achava que o sol forte de Bauru seria capaz de me proteger, fui seguida por dois carros em trinta minutos de caminhada. Além dos anjos terem me abandonado, parece que enviarem demônios para me assustar. E conseguiram.

Eu queria ligar para os meus pais e pedir ajuda, mas tudo o que passei a fazer foi parar de sorrir e falar mais grosso. Pelo telefone, digo a eles que tenho comido mais salada e menos carne. Nem o céu mais bonito do centro oeste paulista é capaz de atenuar o medo que a cidade nos faz sentir. Segundo a Coordenadoria de Análise e Planejamento (CAP) da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), os casos de estupro em Bauru aumentaram 9,6% em 2014. Por mais que esses dados tenham seu lado positivo, já que muitas mulheres têm respondido ao estímulo de denunciarem os abusos em que são vítimas, a sensação de insegurança aumenta e interfere no nosso dia a dia.

Uma notícia recente entristeceu a todas nós, mulheres, nesta semana. Em agosto do ano passado, um caso de estupro coletivo chocou Bauru. Uma garota de 17 anos foi abusada por 10 rapazes, num terreno baldio, durante a festa de comemoração do aniversário da cidade. E mesmo diante de tamanha crueldadade, a justiça local decidiu pelo arquivamento do processo.

No dia 7 de fevereiro, Bauru será palco da III Marcha das Vadias. Desta vez, o tema será “A culpa não é da vítima”, afinal, se os anjos se esqueceram de nós, marcharemos até que tenhamos direito à cidade.

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Aline Ramos, 26 anos é idealizadora do blog “Que nega é essa?, dedicado a discussões sobre feminismo, movimento negro e cultura. É assessora de comunicação do Programa Jovem Monitor/a Cultural pela Ação Educativa. Em 2015, foi indicada pela Revista Cláudia como uma das 30 mulheres com menos de 30 para ficar de olho, incluída na lista de mulheres inspiradoras do Think Olga no mesmo ano e considerada uma das mulheres negras mais influentes da web pelo Blogueiras Negras.

Um comentário em “Cidades proibidas para mulheres

  1. Queria poder dizer que o texto é bom. Mas não consigo devido ao medo pelo qual essa irmã passou em Bauru. Ao lê-lo, me senti na obrigação de comentar. Tenho 35 anos, e aos 17 engravidei. Foi minha primeira “relação sexual” e “única”. Digo única, pois a segunda só ocorreu 2 anos depois.
    Dezessete anos se passaram, e descobri que, minha única gestação foi fruto de um estupro.
    Detalhes desse momento, que deveria ser lindo, só vieram a tona agora. Haviam coisas em meus pensamentos que estavam bloqueados, e quando os descobri, desabei de tanto chorar.
    Compreendo que, devido nossa sociedade, nossa religião, sempre nos colocam tão inferiores aos homens, tão submissas a eles, que por esses motivos. acreditei, que eu, simplesmente eu, era a culpada, de ter engravidado nessas situações.
    Ao relatar a minha mãe, que nem ao menos havia me despido, tão pouco vi o pênis desse homem, que biologicamente é o pai da minha filha, E que ao término da relação, escuto-o dizer: – Pode levantar as calças. Eu já gozei.

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