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O não dito da hashtag #meuamigosecreto

Existem certos acordos silenciosos que são feitos na ausência das palavras e reafirmados de maneira subjetiva por meio da tensão, do olhar repressor, do toque violento, da conivência da sociedade e impunidade dos agressores. É no não dito que reside a importância de campanhas virtuais propagadas pelas hashtags #primeiroassédio, #nãopoetizeomachismo e #meuamigosecreto.

Pela primeira vez mulheres passaram a relatar a violência que sofrem de modo explicito. A quantidade de relatos indica como precisamos conversar sobre violência de gênero, e mais, como é necessário que se crie espaços de acolhimento para essas mulheres para que digam cada vez mais sobre o que vivem.

O silêncio pode ser benéfico, afinal, todos nós precisamos de tempo para refletirmos sobre o que vivemos. Olhar para si e poder pensar em erros e possíveis mudanças pode ser transformador. Entretanto, quando o silêncio é uma imposição ele passa a ser uma violência. Trata-se aí, portanto, de um não dito que é dito: mulheres merecem a violência que sofrem.

Quando passam por situações de assédio e abuso psicológico, físico, material e moral e não falam sobre essas questões, é dito que todas essas situações são aceitas e por isso não merecem ser debatidas. Narrar essas histórias por meio da escrita escancara um complexo de relações dessas mulheres com outros sujeitos e dessas mulheres consigo mesmas. O que as hashtags fazem é trazer à tona o não dito. Sendo assim, na superfície se transforma: vira o dito.

Quando conseguimos nomear essas violências damos o primeiro passo para a mudança dessas realidades. Ao apontar amigos secretos, na verdade, busca-se indicar como a violência também mora no afeto. O amigo pode ser qualquer pessoa do sexo masculino que essas mulheres se relacionaram ao longo da vida. Diferente do que muitos veículos jornalísticos apontam, falar de um mau comportamento de um amigo, nesse caso, não se resume a indiretas nas redes sociais.

Por isso a sugestão simples de que deve-se trocar de amigos não é satisfatória. Ela novamente responsabiliza a vítima por tudo o que viveu e ignora que nossa existência está sempre condicionada ao outro. O que fica bem claro é que essas mulheres viveram situações turbulentas com quem menos esperavam. Ou seja, o que parece que é não é, e o que não parece que é é, e quem se supunha estar num lugar, na verdade, está no lugar oposto: do agressor.

Porém, é importante destacar que a linguagem nunca representará o real. Dizer que homens não são apenas machistas não muda o fato de que a própria linguagem nunca se livrará de ter presa a ela a realidade. Essa relação irresolvida entre texto e realidade não pode justificar que o não dito permaneça como está. Nossas ações não devem se restringir às narrativas, mas devem ser iniciadas de algum modo, que seja por “textões” e hashtags.

 

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Em novo clipe, Rihanna apresenta o sonho de uma América sem racismo

Rihanna está novamente nos holofotes. Nesta segunda-feira (6), a cantora surpreendeu o público ao lançar o clipe de “American Oxygen”, canção apresentada no Festival March Madness, em Indianápolis (EUA), no último final de semana. Se a música fala de uma sociedade ideal e sem preconceitos, a diva aproveita o vídeo para escancarar uma América racista e segregacionista.

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Foto: Reprodução

Com o clipe, Rihanna entra para o time de artistas negros que utilizaram seus trabalhos em favor da luta contra o racismo. No vídeo, a letra da música que enfatiza o sonho americano é confrontada pelas imagens. Esqueça os EUA festivo e alegre que cantoras pop como Britney Spears e Kate Perry apresentam com orgulho. Rihanna vai por outro caminho e expõe a violência policial e o preconceito de cor que ainda se mostram fortes no país, apesar dos avanços. A imagem do atentado terrorista às torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001 e de outros protestos sociais também aparecem para questionar os ideais de vida presentes naquele país.

O atalho para construir uma sociedade sem racismo e mais igualitária tem sido doloroso na terra do Tio Sam. Em que pese os avanços como a eleição de Barack Obama para presidência, a morte do jovem Michael Brown revela que ainda há um caminho longo. O brutal assassinato do garoto negro de 18 anos pelos tiros da arma de um policial branco em Fergunson acirrou as tensões raciais e relembrou casos antigos de violência policial contra os afro-americanos.

Em fevereiro de 2012, o jovem negro Trayvon Martin, de 17 anos, foi alvejado por um segurança em um condomínio na Flórida. O assassino foi absolvido e gerou a revolta da população afro-americana. A morte do motorista negro Rodney King, em 1992, também faz parte desse quadro segregacionista. Na ocasião, King foi espancado até a morte por um grupo de policiais.

Diante deste cenário, Rihanna apresenta em seu clipe uma visão da sociedade estadunidense  ainda pouco explorada pela cultura pop. O vídeo traz imagens de ícones da luta pelos direitos civis nos EUA como os Panteras Negras e Martin Luther King e mostra que o tradicional sonho americano para negros e imigrantes sempre foi diferente do que é apresentado para o mundo.

“Nós suamos por alguns centavos e trocados, transformamos isto em um império.”

Os EUA também carregam o racismo como uma maldita herança dos tempos escravidão. Assim como no Brasil, a abolição não exterminou o preconceito. O surgimento de organizações criminosas como a Klu Klux Klan, apresentada no clipe de Rihanna, e a criação de leis baseadas no conceito de “raças separadas, mas iguais” (revogadas apenas em 1945) serviram para aprofundar a segregação.

O sonho americano para esse grupo social foi construído por pessoas como Rosa Parks e Martin Luther King, que derrubaram os muros existentes entre brancos e negros. Luther King ficou conhecido pela frase “eu tenho um sonho”, que reverbera até hoje na voz de Rihanna: “nós somos a nova América”.

Por enquanto, o clipe está disponível oficialmente neste link para quem já tiver a conta no Tidal. Se você não tem acesso, achamos o clipe disponível aqui. Corra para ver antes que saia do ar.

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Nega explica porque o meme “nego” é racista

Vem cá, meu nego, é preciso entender que a língua é viva, acompanha um povo ao longo dos tempos e expressa uma maneira de organizar o mundo em nomes e estruturas linguísticas. O meme “nego” apareceu e demonstrou como uma única expressão pode adquirir inúmeros significados e ser racista, inclusive.

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A língua muda e se reinventa com as pessoas, mas essa transformação não exclui sua construção histórica e nem sua variação de acordo com o espaço em que está inserida. Ou seja, “nego” pode ser carinhoso na Bahia, mas racismo em Santa Catarina, razão pela qual precisamos ficar atentos para entender o quão problemática é essa brincadeira.

“Nego”, “nega”, “neguinho” e “neguinha” são expressões que podem ser usadas para demonstrar afeto ou para ofender. No primeiro texto publicado aqui no “Que nega é essa?”, relatei a primeira vez em que senti o racismo de modo violento e escancarado. Na ocasião, andava por Blumenau (SC) e ouvi de um homem desconhecido na rua a palavra “neguinha” dita com todo o asco possível. Na mesma semana, minha mãe encerrou nossa conversa pelo telefone com “se cuida, neguinha”. Minha mãe não foi racista, mas aquele homem, sim.

A diferença nos usos dessas expressões ficam evidenciadas por meio do conjunto de frases a seguir, que apontam o teor pejorativo e racista, pois carregam um contexto que explicita as ofensas. Veja:

“Aquilo ali é uma neguinha!”

“Sua nega feia!”

“Ô nego dos infernos, tire essas tralhas daqui”.

“Quem roubou a casa foi um neguinho”.

Já no grupo de orações abaixo, podemos observar a demonstração de carinho, como a minha mãe buscou transmitir ao me chamar de neguinha. Observem como o contexto gera essa diferença:

“Ô nega, estou com saudade!”

“Ô, meu nego! Obrigado!”

“Obrigado, neguinha! Obrigado mesmo!”

“Meu neguinho tá sozinho em casa!”

Por mais que o meme “nego” tenha surgido sem compromisso social e busque gerar o riso com a sua tradução literal, o conjunto entre palavras e imagem geram desconforto porque remontam a um racismo histórico. A língua varia com o contexto, mas não podemos esquecer que ela nasce a partir de uma disputa ideológica e não se desvencilha de suas origens. Além disso, também pode ser usada como ferramenta de poder. Precisamos relembrar como a palavra “nego” era usada no século 19 para compreendermos porque o atual meme é racista.

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Com a intensa e numerosa chegada de negros ao país no século 19, o Brasil era considerado um dos maiores importadores de escravos da época. As cargas humanas chegavam de Angola, Moçambique e muitos outros países da África. E foi tratando o negro como um animal de carga que o brasileiro começou a usar do preconceito linguístico para humilhar aquele ser humano.

Quando os escravos eram castigados, as palavras “nego” ou “nega” eram usados. Ou seja, o seu significado era acompanhado da ideia do negro como ser inferior, não humano, um animal fétido, utilizado para trabalhar sem remuneração e passível de castigos e humilhações praticados por pessoas brancas.

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O racismo viajou no tempo em uma palavra que agora habita novos contextos e registros de expressão e informação. Por esta linha de pensamento, o mesmo termo “nego” utilizado para inferiorizar outro seres humanos no século 19 toma vários significados hoje, no século 21, por causa do cenário atual em que não há mais escravidão oficial segundo a Constituição.

A perversidade do meme em questão dificulta a conclusão sobre a presença ou não do racismo na brincadeira. Isso ocorre pela utilização de uma expressão que adquiriu muitos significados, que excluiu a questão racial em alguns contextos, e que se relaciona ao negro novamente. Ou seja, o que poderia ser considerado um avanço por meio da língua tem se tornado um retrocesso, pois o negro aparece como a figura principal do meme e traz à tona o caráter racial, e, por consequência, racista.

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Há ainda alguns memes que vão além no preconceito e trazem em seu texto expressões e situações cotidianas atuais acompanhadas de imagens do período de escravidão ou da forte opressão racial nos EUA, relembrando organizações como a Klu Klux Klan.

Diante de tudo isso, fica a pergunta: para quem a escravidão e o assassinato de negros é piada? Para nós, neguinhas e neguinhos, é que não é.

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Os homens é que precisam do Feminismo

Ao saírmos do armário do feminismo e comunicarmos para as pessoas próximas que não vamos mais tolerar certos tipos de piadas, é como se a terceira guerra mundial começasse em nossa vida. Lembro que a primeira vez que me assumi publicamente como feminista foi em 2011, num post no Facebook. De lá para cá, muita coisa mudou na minha vida e nos meus relacionamentos.

Assumir-se feminista é entender que todos os homens, inclusive os que você mais ama, são machistas. Colocar-se numa postura crítica é um processo doloroso de ambas as partes, nem todos os relacionamentos sobrevivem. Num momento cheguei a acreditar que perderia meus melhores amigos e que a situação com o meu pai ficaria insustentável. Entretanto, eles entenderam algo que poucas pessoas assimilaram: o Feminismo não precisa dos homens, são os homens que precisam do Feminismo.

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Foto: Diogo Zacarias

Explicar o Feminismo aos homens foi uma tarefa árdua. Em 2011, minhas referências feministas na internet eram só a Lola, com o blog “Escreva Lola”, e a Nádia Lapa, com o polêmico “Cem homens”. Não existiam coletivos feministas na minha universidade e as mulheres não eram lá muito minhas amigas.

Foi uma fase bastante difícil. Frequentemente, eu terminava as noites brigando com os caras nos fins de festas ou chorando nas mesas de bar porque não conseguiam entender que piadas e comportamentos machistas, com qualquer mulher que fosse, me ofenderiam. Hoje, compreendo que não precisava ter me desgastado tanto, mas uma coisa ficou clara: eu não necessito do aval deles. A estratégia que assumi foi a de mostrar como eram eles que precisavam do Feminismo, e deu certo.

Certa vez, o meu melhor amigo me surpreendeu ao dizer que ensino coisas a ele mesmo quando estou conversando sobre banalidades da minha vida. E agradeceu dizendo que hoje ele é um homem melhor porque compreendeu o Feminismo e é capaz de tratar todas as pessoas de maneira igual e respeitosa. Atualmente, alguns pedem para que eu os alerte quando emitirem alguma opinião machista ou racista. Lembrando que ter esta postura não é obrigação de nenhuma feminista.

Entendam de uma vez por todas: o machismo não é um problema nosso, mas dos homens. São eles que oprimem e continuam reforçando para si padrões de um regime masculino no campo estético, comportamental e social. O diálogo, a reflexão e a mudança de postura são necessários entre todas as pessoas.

E não, o Feminismo não precisa dos homens. Passar bem.

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Depressão não é fraqueza, Boninho

Tamires é uma mulher amável, mãe e simpática. Dentro da casa do Big Brother Brasil 15, não tinha inimigos, todo mundo gostava dela. Mas as coisas passaram a desandar quando Tamires passou a demonstrar que possui distúrbios alimentares.

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Era frequente Tamires ficar nervosa, comer compulsivamente e depois passar mal. A crise de choro era certa, a participante se sentia culpada e frustrada por não conseguir superar sozinha o distúrbio. O ritual passou a ser frequente e Tamires ficou com a fama de chorona.

Poucos brothers entenderam a gravidade dos problemas que Tamires enfrentava. Alguns tiravam sarro na frente da moça. Luan se tornou uma espécie de fiscal da boca alheia, sabia quantas vezes Tamires havia repetido as refeições e contava isso para os amigos. Na realidade, Luan é o grande fiscal das mulheres na atual edição do programa. Além de controlar a boca de Tamires, sabia quantas vezes Amanda olhou para Fernando. A única coisa que o brother não sabe fazer é controlar a própria língua.

O desespero de Tamires aumentou após a festa na madrugada de sexta-feira (6). Bêbado, Rafael investiu na participante. Insistiu no beijo, Tamires ponderou, fugiu, mas acabou beijando o rapaz que até dias anteriores estava num relacionamento com Talita, que saiu na última terça-feira (3).

O dia seguinte não foi só de ressaca, mas de culpa. Rafael, que não lembrava de nada do que aconteceu, ficou sabendo por outro participante que flertou com Tamires. Na conversa para confirmar o que rolou na noite anterior, o rapaz deu a entender que a culpa era de Tamires, que foi até o quarto onde ele estava deitado.

Tamires reclamou do que o brother disse a ela, e com o passar do tempo começou a ficar preocupada com o que pensariam do ocorrido. Ciente de que a culpa é sempre atribuída à mulher quando um homem trai sua parceira, Tamires ficou abalada. As crises de choro passaram a ocorrer com maior frequência, até que na madrugada do domingo (8) ameaçou se matar com uma faca caso não conseguisse sair do programa.  Após testar se a porta da casa estava realmente fechada, a jovem desabafou: “Não aguento mais, estou desesperada”.

O desespero ficou mais forte, Tamires disse que perdeu totalmente suas forças, arrumou a mala e se dirigiu ao confessionário ainda na tarde de domingo (8). Algum tempo após sua desistência, a voz de Boninho avisou que sair do Big Brother Brasil é fácil, e acrescentou que “quem sai é desistente, é perdedor. Quem foi eliminado lutou até o final. […] Quem quiser sair é super simples. É só colocar a malinha lá no confessionário e pum, morreu pra gente. […] Quem quiser sair, nenhum problema. Se a gente quiser colocar outra pessoa na casa também é fácil. A gente tem um bilhão de pessoas que querem entrar. Pensem nisso”.

Diferentemente do que afirma o diretor do programa, Tamires não é fraca. É uma mulher que enfrenta uma sociedade machista que impõe constantemente às mulheres um padrão de beleza cruel. Tamires não é fraca, resiste ao controle extremo de sua sexualidade e ao desafio constante de ser mulher. Não há problema nenhum em pedir para sair e cuidar de sua saúde.

Infelizmente, na nossa cultura machista acredita-se que apenas homens são fortes, não se quebram, não se abatem e não choram. Uma das coisas mais comuns que se ouve na psiquiatria, que homens costumam dizer, é que os problemas psiquiátricos, principalmente a depressão, são sinais de fraqueza.

A atitude da produção do reality show não é nenhuma surpresa, mas no Dia Internacional da Mulher, o Big Brother Brasil mostrou porque a data não é de festa. Tamires, vem cá, do lado de fora tem um montão de mulheres prontas para te abraçar.

Gostou do texto? Curta o Que nega é essa? no Facebook aqui.

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O incrível mundo de Dove sem racismo

A nova campanha da Dove fez um apelo para que garotas de cabelos cacheados amem a sua aparência. A ação traz um vídeo com o título “Ame seus Cachos” (“Love your curls”, no original) e propõe um resgate da autoestima das meninas com cabelo encaracolado. Não é de hoje que a marca conquista suas fãs estimulando o amor próprio e a valorização da beleza natural.

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A propaganda é excelente, certeira e mexe com o emocional de qualquer mulher de cabelos ondulados. Porém, os diversos depoimentos de garotas que possuem dificuldades em aceitar a própria aparência nos mostram uma das faces mais sombrias do racismo. Apesar de termos meninas brancas e loiras no vídeo, só quem é negra cacheada ou crespa sabe como é difícil assumir o visual natural.

A Dove sai na frente ao lançar uma bela campanha como esta. A aceitação do cabelo natural tem surgido como uma forte onda na internet e mudado a vida de diversas mulheres por meio de blogs, vlogs e páginas no Facebook repletos de dicas, relatos e tutoriais específicos. A marca também soube aproveitar uma demanda antiga e urgente, que era a inclusão e valorização de negras e donas de cabelos não lisos na publicidade de produtos de estética. Porém, a pergunta central não é abordada pela propaganda e é preciso nos atermos a ela: porque essas meninas não gostam de seus cabelos e de sua aparência?

O problema dessas garotas não é delas e muito menos de suas mães, mas de uma uma sociedade que as ensina a não se amarem em diversos momentos e espaços. Tratar de maneira individual a relação conturbada com a aparência é um peso que essas meninas e mulheres não devem carregar. O problema da autoestima baixa não é delas, mas da ditadura da beleza. O problema do racismo não é dos negros, mas dos brancos.

Para fazermos com que essas pequenas se amem é preciso trabalhar com o empoderamento individual, mas também se faz necessário criar um ambiente social que as valorize. Mesmo que o meio familiar seja o mais acolhedor em relação às madeixas das meninas, é inevitável lembrar que no futuro o mercado de trabalho poderá dizer que elas não possuem “boa aparência” com os cabelos naturais e exigirá que os alisem. Cabe ainda destacar que manter o crespo ou os cachos custa caro para algumas mulheres, pois tira delas o pão da mesa. A autoestima bem trabalhada é essencial para seguir a vida com o mínimo de sanidade, mas apenas empoderamento não mudará as estatísticas que apontam a mulher negra como a que menos recebe em seu emprego.

Seria perfeito se a dinâmica da vida funcionasse como no lindo comercial da Dove e a valorização familiar resolvesse os problemas de nossa autoestima. Entretanto, há uma boa dose de racismo na dificuldade das mulheres negras em aceitarem a própria aparência.

Dove, nós amamos nossos cachos, mas precisamos que a sociedade também os ame.

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“Esquenta!” discute racismo sem olhar para si

Domingo de sol, domingo de “Esquenta!”, samba e racismo. O tema escolhido para a atração de Regina Casé foi o preconceito contra os negros, mas a discussão não saiu do lugar-comum. Os convidados presentes relataram tristes histórias de discriminação que passaram ao longo da vida, mas ninguém lembrou de Douglas da Silva Pereira, o DG. O dançarino fazia parte do elenco fixo do programa até ser assassinado pela Polícia Militar em abril de 2014. Na ocasião, o corpo de DG foi encontrado nos fundos de uma creche do Morro do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana (RJ), com um tiro nas costas e escoriações.

Foto: Alex Carvalho (TV Globo)

 

Apesar da aparente boa intenção de propor o debate de uma questão de extrema relevância e que aflige metade da população brasileira, a edição do programa soou como uma tentativa de limpar a imagem arranhada de Regina Casé. Por diversas vezes, a apresentadora já foi informalmente acusada de ter ataques de estrelismo e de não gostar de pobres devido ao tratamento dado aos fãs. O “Esquenta!” de hoje foi inedito, mas a sua gravação ocorreu em dezembro, algumas semanas depois de Casé se ver no epicentro de uma série de críticas que questionavam o seu comportamento e credibilidade de sua atração dominical.

Maria de Fátima Silva, mãe de DG, fez graves acusações à apresentadora. Durante o “Ser Negra”, evento comemorativo ao Dia da Consciência Negra, Maria afirmou que sua participação no programa em homenagem ao seu filho foi limitada pela produção do “Esquenta!” e por Casé. “Eu só deveria responder o que me perguntassem. Quando eu tentava falar sobre a violência da polícia, era cortada”, disse a mãe do dançarino, que completou, sobre Regina: “uma farsa, uma artista, uma mentirosa”. O caso ganhou grande repercussão na imprensa e, apesar da defesa da apresentadora, dividiu as opiniões do público.

O que vimos neste domingo foi a exibição da história que já sabemos: negros no Brasil sofrem preconceito por sua cor. Parte da audiência acredita que a escolha do tema para um programa de forte apelo popular como o “Esquenta!” é avanço no debate sobre o racismo. Afinal, a Rede Globo enfim assume que o Brasil não é o país da democracia racial e que a discriminação é parte do cotidiano da população. Entretanto, abordar o racismo e não mencionar as mortes de DG, Amarildo e Cláudia, vítimas da violência policial, é, de certa forma, ser conivente com o genocídio da população negra no país, pois o falecimento deles não é exceção, mas regra.

O silêncio sobre a violência policial, as acusações da mãe de DG e a edição de 20 de janeiro de 2013 sobre a situação do Rio de Janeiro após a pacificação realizada pelas UPPs nos mostra que o posicionamento do “Esquenta!”, e da Rede Globo, é ideológico. Ao longo do programa deste domingo, Regina Casé não falou a palavra racismo, mas se referiu a ele somente como “preconceito de cor”. O termo foi utilizado somente pelos convidados ao relatarem as suas experiências. O que vimos foram negros assumindo seus papéis de vítimas, mas impossibilitados de problematizar os porquês das violências que sofrem.

No debate, a análise teórica do tema ficou por conta de um branco, o jornalista e produtor cultural Alê Youssef, como se os próprios convidados fossem incapazes de fazê-la por si só. A única que fugiu à regra foi Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo, que indicou como o racismo está presente em diversas estruturas da sociedade. “Imagine-se como branco num país só de negros, onde tudo o que foi feito de maravilhoso na estética, os arquitetos, os filósofos, os revolucionários e os reis foram todos negros. Até o ser supremo, Deus, era negro. Jesus Cristo também era negro. E você, sendo branco, na única vez que o sistema escolar começa a falar dos seus ancestrais coloca duas páginas no livro de História do Brasil falando que seus ancestrais eram escravos e não te contam nada mais”, provocou Loras.

E em tantas histórias tristes, Regina Casé se solidariza e afirma que entende bem o que é racismo, pois seus pais sempre tiveram muitos amigos negros que frequentavam sua casa. Como se conviver com negros eximisse qualquer pessoa de ser racista. No caso da apresentadora, acreditar nisso fica ainda mais difícil.

Veja o debate aqui.

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Desculpa migos, mas vocês não estão lutando pelos negros

Eu tenho um recado chato para dar. Caros companheiros e companheiras do Movimento Estudantil, vocês pouco lutam pelos negros. Em qualquer assembleia estudantil que formos no Brasil encontraremos brancos de dreads, brancos com turbantes, fazendo discursos inflamados sobre a importância de incluirmos os negros na universidade. Entretanto, o que tem sido feito fora das assembleias?

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Foto: Henrique Antero

O que tenho visto são muitos militantes brancos se apropriando do discurso da inclusão e novamente colocando o negro como objeto, como o outro desconhecido que nada se sabe, e nada será feito para conhecer. Muito se fala sobre a periferia, sobre as comunidades negras, mas pouco se conhece de fato. E dessa forma, os espaços estudantis que deveriam ser combativos, acabam por reproduzir o triste histórico da Academia, em que o negro não é protagonista, mas um mero objeto discursivo e de estudo.

Ao longo da minha trajetória na Unesp me afastei do Movimento Estudantil por não me ver representada e por não ver minhas pautas devidamente respeitadas. Decidi trilhar meu próprio caminho e fazer uma militância individual, porém, que vá além dos muros da universidade. Por muito tempo acreditei ser fraca por não resistir nesse espaço de luta, entretanto, passei a conhecer mais negros e negras que passaram pelo mesmo processo de afastamento e de ressignificação de sua militância.

Há outro fator importante que corrobora para a exclusão do negro dento da universidade pública: o silenciamento. Os poucos negros que chegaram a esses espaços frequentemente são cobrados em dobro e passam sempre por um processo em que sua fala é deslegitimada. Já fui vista como alguém que só queria “causar”, nada muito distante do estereótipo de que mulheres negras não barraqueiras. Além disso, fui chamada por muitos de “estrelinha”, por ser integrante do Diretório Acadêmico da minha universidade e não ter participado de uma ocupação durante  greve estudantil realizada no ano de 2013 na minha universidade.

Pouco se perguntou e pouco se quis entender a minha condição, mas o julgamento e a cobrança estavam prontos. Como eu, muitos outros negros são os primeiros da família a ingressarem numa universidade pública, ou até mesmo os primeiros a cursarem o ensino superior. Para nós, negros e negras, conquistar uma vaga numa universidade pública não é uma conquista individual é também familiar e representativa para a comunidade negra. Para nós, negros e negras, uma passagem por delegacias e o recebimento de um Boletim de Ocorrência (B.O.), por qualquer motivo que seja, pesará o dobro em nossas costas do que o que pesaria para colegas brancos. Nossa presença dentro das universidades públicas é muito rara para colocarmos em risco, por mais que a causa seja lutar pela própria universidade em que estamos ineridos. Entretanto, ser negro é ter cautela, é não dar bandeira, é não dar motivos para que nos julguem pela nossa cor.

Do mesmo modo que fui incompreendida e julgada, diversos colegas negros passaram pelo mesmo e ainda passam. Agora me diz, Movimento Estudantil, como se diz que precisamos trazer o negro para a universidade sendo que os que já chegaram nela não são devidamente respeitados e ouvidos? Desculpa dizer isso, migos, mas vocês não estão lutando por nós.

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A estagiária gostosa da Rádio Cidade veio para nos dar um recado

A “estagiária gostosa” da Rádio Cidade é uma mulher livre, e essa liberdade lhe dá o direito de consentir com uma piada ofensiva para outras mulheres. A estagiária pode ser você, eu, nossa melhor amiga, nossa prima ou a vizinha que está do outro lado da rua colhendo pitanga. Todo local de trabalho tem uma “estagiária gostosa”, mas raros são os locais que encontramos as estagiárias inteligentes. Essas mulheres podem ser gostosas e inteligentes ao mesmo tempo, mas em seus trabalhos como deveríamos nos referir a elas e como deveriam ser nossas piadas com elas?

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Gostamos de ser chamadas de gostosa na cama, quando enviamos uma foto vestindo aquela calcinha nova e quando queremos ser gostosas. Entretanto, nossa sexualidade deve ficar fora do nosso local de trabalho. Pedimos por isso do mesmo modo que reivindicamos receber o mesmo que um homem na mesma função exercida, ainda mais nos espaços de comunicação.

O que os veículos de comunicação tem feito pelas mulheres que circulam por eles e pelas mulheres que são o seu público alvo? Faço essa pergunta por que, segundo relatório da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) de 2013, as mulheres representam 63% dos profissionais da área. Entretanto, essas mulheres são minorias no cargo de liderança. E para piorar o quadro das mulheres que trabalham como jornalistas, o que não está quantificado, porém, circula nas mesas de bares até hoje, é o do teste do sofá como meio de se alcançar um cargo desejado. Esse discurso ainda é reproduzido por professores nas escolas de jornalismo pelo país.

É necessário que não só a Rádio Cidade reveja o que tem veiculado em suas redes sociais, é cada vez mais necessário que se discuta o ambiente de trabalho para as mulheres nos veículos de comunicação. A “estagiária gostosa”, no futuro, ainda vai receber menos que os seus colegas de trabalho, e isso está longe de ser uma piada, mesmo que os jornalistas da Rádio Cidade insistam nisso.

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Lá vai a ala das empoderadas

Já tinha passado a ala da velha guarda, das crianças, e então um furacão passou diante dos nossos olhos. Um grupo de mulheres negras sambava sobre saltos, balançava seus corpos e cabelos, distribuía sorrisos e eu fiquei ali paralisada. Um amigo perguntou que ala era aquela, respondi que só poderia ser a ala das empoderadas da VaiVai.

O bairro do Bixiga é um bairro italiano e branco, mas possui uma veia negra que o faz pulsar e ser um dos locais mais encantadores da cidade de São Paulo. O Bixiga é a casa da escola de samba VaiVai e com os ensaios para o Carnaval suas ruas aos domingos se tornam palco de um dos maiores espetáculos negros. Fui parar num desses ensaios e logo me emocionei quando do portão de entrada pude ver uma pequena garota com os cachos soltos que girava para todos os cantos ao lado da avó que sambava com a disposição de uma adolescente.

As escolas de samba são espaços de resistência e propulsoras de uma autoafirmação com o orgulho de ser negro. VaiVai não é só samba, é política e faz parte da vida de diversas mulheres negras, pois é capaz de transformar a leitura dessas próprias mulheres sobre a vida cotidiana. Todo o processo de construção das escolas de sambas incluem mulheres negras que transformam o samba e o carnaval num processo de construção coletiva e busca por suas raízes ancestrais. Sendo assim, a escola de samba também possui um papel educador sobre a história do povo negro que a escola tradicional não é capaz de suprir. Aos poucos fui achando mais famílias, crianças que corriam atrás da rainha da bateria e o brilho nos olhos de todas as senhoras que também desfilavam.

O vínculo familiar com as escolas de samba também é fruto desse processo de resistência e politização que permeiam esses espaços. A família é onde as discriminações, preconceitos e racismo são sinalizados e combatidos, seja na participação do processo criativo de um carnaval ou na militância dentro de movimentos negros. Eu estava em casa e maravilhada com a quantidade de mulheres que passavam pela minha frente ostentando seus cabelos naturais. Encantavam não só pela beleza, mas pelo empoderamento também.

Eu não sou rainha de bateria, mas sai de lá rainha de mim com uma coroa feita de cachos. Minhas pernas e pés doem, mal consigo andar de tanto que sambei. Mas fica o conselho, quer sambar até o amanhecer? Vai no Bixiga pra ver.

Enquanto isso vai decorando o samba enredo de 2015 que foi feito em homenagem à Elis Regina.

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