Um rolê pra se divertir, dar uma tumultuada, dar uns beijos, conhecer novos amigos e tirar várias fotos

Minhas canelas ardiam de tão rápido que andava. Caminhar até o centro da cidade sozinha, numa sexta à noite não é tão aconselhável. A cada prostituta que eu encontrava nas esquinas, a cada provocação dita pelos carros que passavam, a cada cantada na rua, me entreguei. Eu não sabia mais a quem temer. Responda, do que você sente tanto medo?

Responde, Aline, a quem você teme? Se a cidade não é sua, ela é de quem? Da travesti que anda com uma faca na bolsa porque toda noite sabe que talvez não volte pra casa, não é. Dos dois homens negros que me ultrapassaram, de chinelo no pé, muito menos. Dos cinco adolescentes que saltaram do ônibus, também não. É claro que não! Era a eles, esses meninos do ônibus, que gostaria de encontrar. Desde dezembro de 2013 isso havia ficado muito claro: a cidade e o shopping não pertencem aos adolescentes que só querem se divertir, dar uma tumultuada, dar uns beijos, conhecer novos amigos e tirar várias fotos.

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Foto: Wilian Olivato

Ao longo de 2014 o debate sobre os rolezinhos e a presença de adolescentes vindos das periferias nas regiões centrais das cidades pipocaram e o movimento tomou proporções ainda maiores. Foi nesse período que conheci os adolescentes de Bauru que enfrentaram dura repressão policial e até hoje estão ocupando praças e ruas da cidade.

Atualmente, em várias regiões do país os “rolezeiros” estão passando por um processo de criminalização e a Justiça tem proibido que transitem pelos shoppings sem seus responsáveis legais. Esse é o caso de Franca que em liminar publicada nesta terça-feira (3) no Diário de Justiça Eletrônico (DJE), a juíza Julieta Maria Passeri de Souza, determinou que adolescentes com idade até 18 anos só poderão entrar nas dependências do centro de compras da cidade acompanhados pelos pais ou responsáveis. Na última semana dois estabelecimentos de Cuiabá também passaram a proibir a entrada de menores desacompanhados dos responsáveis.

A situação de Franca é a mesma de Bauru, os “rolezinhos” não são novidade, há muitos anos os adolescentes se reuniam nesses espaços de lazer. Entretanto, o que há de diferente é que cada vez mais as barrerias sociais invisíveis que afastavam a periferia desses centros comerciais tem sido rompida e a reação é a criminalização.

Foi o que pude presenciar em janeiro de 2014 quando me aproximava do Boulevard Shopping Nações de Bauru. Pelo caminho muitos adolescentes surgiam na minha frente. Eu estava indo na direção oposta ao “rolezinho”, que atravessava a avenida correndo. Viro a esquina e a cavalaria da Polícia Militar me recepciona. A mim não, o objetivo deles não era recepcionar ninguém ali, mas expulsar. Bombas de efeito moral pra dispersar os adolescentes que tomavam a rua, cavalaria pra fazê-los andar mais rápido e revista policial num grupo de dez meninos, pra dar um susto.

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Foto: Wilian Olivato

“Eles podem nos revistar o quanto for, não vão encontrar nada. Não temos nada de drogas, não somos bandidos, mas afinal, quem é você?”, perguntou o menor C.A., de 17 anos. Jefferson Guilherme, já tem 19 anos, podemos chamá-lo pelo nome, e quer que todos saibam que o que está acontecendo é uma injustiça. “Anota ai, vai sair no jornal mesmo? Estamos sendo injustiçados. Eu trabalho a semana inteira e não posso curtir o final de semana com os meus amigos de boa?”. Márcio Aparecido, 18 anos, explica: “eles estão pegando no pé dos menores que estão bebendo, mas isso não é motivo pra revistar a gente, né?”. E sentencia: “aqui ninguém está vendendo bebidas para eles, o problema não é nosso”. Jefferson lembra “estamos fazendo o nosso rolezinho há anos, nunca incomodamos ninguém, porque agora decidiram partir pra cima?”.

A explicação pro Jefferson e para todos os adolescentes que se perguntavam o que estava acontecendo, saiu na imprensa bauruense durante a semana: “Rolezinho tem mutirão contra álcool”; “Bauru diz ‘não’ à truculência nos shoppings”. O plano foi bolado pela SEBES (Secretaria de Bem Estar Social) que em reunião com lideranças da cidade, concluiu que seria preciso intervir. Após a onda de rolezinhos em shoppings na cidade de São Paulo, todo o país passou a temer o que muitos têm chamado de “movimento”. Em Bauru, os Shoppings anunciaram que agiriam com cautela e a SEBES, preocupada, desejava punir todo maior de idade que induzisse menores a beber. Além do mutirão contra o abuso alcoólico entre menores, em parceria com o Ponto de Cultura “Acesso Popular”, um palco foi providenciado para a Praça Rui Barbosa. Desde às 19h diversos artistas locais ligados ao Hip Hop subiram no palquinho. A polêmica surgida na capital chegou ao interior e expôs uma ferida aberta há anos.

Com a falta de opções de lazer e entretenimento, com o aumento econômico da classe C, o interior já presenciava diversos rolezinhos no estado de São Paulo. Não é de hoje que adolescentes se reúnem em praças, parques, proximidades de shoppings para beber. Em Bauru, há dez anos é possível presenciar o fenômeno. Tudo começou no Bauru Shopping, localizado na área nobre da cidade. Os adolescentes se dividiam pela noite entre o supermercado Wallmart, Shopping e Habib’s. Em nenhum dos locais podiam ficar. Os vizinhos reclamavam, a Polícia Militar chegava de cavalaria e os expulsava. Quando o Boulevard Shopping Nações foi inaugurado em novembro de 2012, o rolezinho mudou para lá e se alongava até a Praça Rui Barbosa.

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Foto: Wilian Olivato

Enquanto caminhava do Shopping até a praça, atrás de mim, três adolescentes perguntavam “O que você quer novinha?”. Percebi que não haveria como fugir das investidas do grupo, então negociei. Uma foto, alguns goles de pinga e em troca eu falaria meu nome e o que fazia com uma câmera fotográfica em mãos. Negociação consumada, cachaça entornada, Orlando Neto, de 23 anos, analisava a situação. “Eles querem que a gente vá para a Praça, não querem que a gente fique nas proximidades do Shopping, acreditam que lá não seja o nosso lugar”. Outro grupo passa, um deles pede uma foto, uma voz entre eles brada “Pra que você vai tirar foto nossa? Pra chamar de marginal depois? Eu não deixo”. Enquanto este cobria o rosto, o restante buscava a melhor pose.

Orlandinho não me deixava esquecer dele. “Ei, mas você vai me passar seu Whatsapp?”. Dançarino desde os 15 anos, explica que a música pra ele é algo que vai além de todas as questões técnicas. “A música boa é aquela que toca o coração”. A relação é clara, emoção e dança, Orlandinho só dança se sente a música. Explica que isso se aplica a qualquer estilo musical. Apesar de saber dançar axé, pagode, o grupo que formou há poucas semanas, “Bonde do Prazer”, é de funk. Formado por ele, duas meninas e o MC Gui, que além de puxar a música, vai se aventurar na dança, o Bonde do Prazer já tem duas apresentações agendadas. E Orlandinho está animado para o ano. “Já fiz minha matrícula na faculdade de Direito, quero poder ajudar os irmãos que são presos injustamente”. Enquanto contava seus planos pro ano, entre shows, faculdade e trabalho, Orlandinho me puxa pelo braço e diz “vem cá, não vamos passar no mesmo lado da rua que esses ‘gambés’”. No nosso português chato, “gambé” é PM (Policial Militar).

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Foto: Wilian Olivato

Já na praça, encontro vários meninos e meninas que corriam da cavalaria alguns minutos antes. A tempestade havia passado e os policias no entorno da praça não adentravam no ambiente. Estavam nos quatro cantos, um verdadeiro cerco montado. Mas a presença das viaturas não inibiu a ninguém. A dança, o xaveco, as fotos, o rolezinho não parou. Em cima de uma mureta estava parte da “família” Castellamare. Quem disse que o rolezinho não é um ambiente familiar? Alguns grupos de amigos passam a se considerar uma família, mudam o sobrenome no Facebook, andam juntos e se apoiam. Isso não é exclusividade de Bauru e muito menos do rolezinho. No dia, metade da família Castellamare estava por lá, eram cinquenta. Ao todo são cem adolescentes e jovens. “Ei, cola na nossa festa? Os Castellamares estão organizando, vai ser open.”. A festa que promete tocar de tudo vai ser na Vila Industrial, Bauru, e só compra convite quem foi previamente convidado, ou integrantes da família.

Quando me dei conta, diversos garotos queriam me convidar para suas festas, mostrar que sabiam dançar ou rimar. “Ei, agora eu quero dar entrevista pra ela”, disputava João Araújo de 21 anos. João chamou atenção porque estava vestido com uma camiseta do rapper Thigor MC. E qual não é a surpresa que João é primo do rapper e possui o mesmo talento? “Aline, escolhe uma palavra, qualquer uma, que eu faço uma rima pra você”. Escolhi diamante e ouvi que eu era um. No final, João ganhou uma foto. “Só eu e ela molecada, rapa daqui”.

Rolezinho não tem estilo musical, tudo cabe. Uma roda agitava um “paGod”, uma espécie de pagode evangélico, com instrumentos e cantores de talento. Aos poucos diversos adolescentes se aproximavam, e entre improvisações, e músicas já conhecidas, aquele momento era dedicado a Deus. A iniciativa foi de jovens da Igreja Quadrangular, Comunidade Vineyard e o grupo de dança Wise Madness. Entre orações e palavras de apoio, os jovens se abraçavam. João, Orlandinho, Guilherme, Jefferson, e tantos outros também se aproximaram e demonstraram que tinham talento. Não eram da comunidade evangélica, mas conviviam bem e não fechavam os ouvidos a mensagem que era passada. Um dos meninos presentes era Leandrin Castellamare, que mais tarde viria se converter para a igreja e substituir o Castellamare por “Renúncia” no Facebook. Atualmente os convites são para grupos de oração, mas o ex rolezeiro continua curtindo a vida.

Aos poucos, a praça foi esvaziando, assim como as garrafas de cachaça e vodka. O horário do último ônibus para os bairros mais distantes se aproximava. Meu celular apitou, era o Leandrin me avisando que mais tarde queria as fotos. Afinal, rolezinho que vale a pena rende novos contatos no Whatsapp e muitas fotos com a “molecadadinha”.

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

 

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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As crianças do Projeto Formiguinha querem que você veja “Além do Olhar”

O Projeto Formiguinha, de Bauru (SP), encontrou uma forma bastante criativa para levantar fundos para a reforma de sua cozinha. Até o próximo final de semana, os educadores da ação social irão vender calendários com fotos das crianças atendidas na comunidade local.

A ideia de produzir as imagens partiu de Bárbara Mello, fotógrafa e voluntária do projeto. Em parceria com os demais educadores, ela visitou as famílias das crianças para conhecer suas realidades e fazer os registros que deram origem ao ensaio batizado de “Além do Olhar”.

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A iniciativa conseguiu capturar mais do que belas fotos. Por meio das imagens, é possível compreender a identidade de cada criança e ainda observar os resultados das atividades pedagógicas elaboradas pelos educadores do projeto. Realizado em 2014, o ensaio registra ações que incentivam e valorizam elementos como raça, classe, gênero e cidadania.

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Isis Rangel, educadora do Formiguinha há dois anos, observa que a ação mudou radicalmente o comportamento dos pequenos. “As crianças passaram a cuidar mais do projeto e dos colegas. Muitas perceberam que a comunidade pertence a elas e por isso precisam preservá-la”, destaca a voluntária.

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A prévia do ensaio “Além do Olhar” foi exposta no “Pousada Cultural”, evento realizado pelo projeto para impactar e valorizar a cultura da comunidade local. A apresentação da iniciativa foi um sucesso e fez com que as fotografias fossem transformadas em um calendário, que está sendo vendido para arrecadar fundos para a reforma da cozinha do Formiguinha.

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Todo mundo quer saber de onde vem, para onde vai, como é que entra e como é que sai. As crianças do Projeto Formiguinha também querem estas informações. Mas, antes de tudo, elas também querem lembrar a todos para onde vão e porque são o que se são, figurando em cada mês do ano com uma fotografia.

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O calendário custa R$20 e pode ser adquirido na barraquinha do Formiguinha em frente à Biblioteca da Unesp de Bauru (das 13h às 14h e das 18h às 19h) ou a partir de pedidos por meio da página do projeto no Facebook.

O projeto

O Projeto Formiguinha é uma ação sem fins lucrativos tem como principal objetivo evitar que as crianças e os jovens caiam na marginalidade que a rua oferece, realizando atividades educativas, recreativas, esportivas e culturais.

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Maria coroada por flores astrais

A cirurgia de Dona Maria para amputar um dos pés está cada vez mais próxima. Ainda assim, ela não vacila e tem a consciência para se ter coragem. Mulher guerreira, inventou a contra-mola que resiste para comprar uma prótese e seus medicamentos.

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Foto: Danielle Fontes

Com a primavera nos dentes, Dona Maria confecciona coroas de flores e as vende num calçadão. Seu dom é enfeitar o carnaval de muitas meninas. Fevereiro se aproxima e a tempestade também. “Eu não posso deixar de trabalhar por isso”, ela grita entre os astros que vêm do infinito. O eco de sua voz ressoa em um bando de estrelas que repetem o berro. Danielle Fontes, que nos mandou a história, é só mais um feixe de luz nesse universo de amor.

Para os carnavais de agora e de sempre, todas as cores e outras mais para Dona Maria. Que ela seja coroada por flores astrais

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Foto: Danielle Fontes

Para quem quiser deixar o carnaval mais bonito e comprar as coroas de flores, Dona Maria fica todos os dias no Calçadão da Mirandela, em Nilópolis (RJ), entre 13h e 18h30. Você pode encontrá-la nos banquinhos ou passeando na lua cheia. E com apenas R$15, a vida ganha beleza e generosidade.

Mais informações com a Danielle.

Foto: Danielle Fontes

Foto: Danielle Fontes

 

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Minha doce Angela Davis

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Tenho um doce anjo negro que me visita todas as noites. Esse doce anjo já me contou sobre quando lutou contra o mundo com apenas treze anos. Tenho uma garota que batalhou por mim e eu nem sabia. Ela não é nenhuma estrela, mas trouxe muita luz para seu povo.

Por mais que digam que anjos não tem sexo, meu doce anjo negro é uma mulher solitária. Colocaram meu anjo na cadeia. Ela esteve em perigo. Essa pequena garota falou ao coração do mundo mesmo não sendo uma cantora pop. O FBI queria pregá-la numa cruz, meu pequeno doce anjo negro.

Ela tem a força de uma pantera e sua garra levou sua palavra longe. Sua voz tem a sonoridade de um trompete de jazz, um bálsamo revolucionário.

Minha doce angela Davis é a professora do povo. Meu doce anjo negro faz hoje 71 anos e toda noite me visita e sussurra em meus ouvidos: “não se prenda, nossa luta é por liberdade”. Minha doce Angela, minha doce Davis.

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O incrível mundo de Dove sem racismo

A nova campanha da Dove fez um apelo para que garotas de cabelos cacheados amem a sua aparência. A ação traz um vídeo com o título “Ame seus Cachos” (“Love your curls”, no original) e propõe um resgate da autoestima das meninas com cabelo encaracolado. Não é de hoje que a marca conquista suas fãs estimulando o amor próprio e a valorização da beleza natural.

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A propaganda é excelente, certeira e mexe com o emocional de qualquer mulher de cabelos ondulados. Porém, os diversos depoimentos de garotas que possuem dificuldades em aceitar a própria aparência nos mostram uma das faces mais sombrias do racismo. Apesar de termos meninas brancas e loiras no vídeo, só quem é negra cacheada ou crespa sabe como é difícil assumir o visual natural.

A Dove sai na frente ao lançar uma bela campanha como esta. A aceitação do cabelo natural tem surgido como uma forte onda na internet e mudado a vida de diversas mulheres por meio de blogs, vlogs e páginas no Facebook repletos de dicas, relatos e tutoriais específicos. A marca também soube aproveitar uma demanda antiga e urgente, que era a inclusão e valorização de negras e donas de cabelos não lisos na publicidade de produtos de estética. Porém, a pergunta central não é abordada pela propaganda e é preciso nos atermos a ela: porque essas meninas não gostam de seus cabelos e de sua aparência?

O problema dessas garotas não é delas e muito menos de suas mães, mas de uma uma sociedade que as ensina a não se amarem em diversos momentos e espaços. Tratar de maneira individual a relação conturbada com a aparência é um peso que essas meninas e mulheres não devem carregar. O problema da autoestima baixa não é delas, mas da ditadura da beleza. O problema do racismo não é dos negros, mas dos brancos.

Para fazermos com que essas pequenas se amem é preciso trabalhar com o empoderamento individual, mas também se faz necessário criar um ambiente social que as valorize. Mesmo que o meio familiar seja o mais acolhedor em relação às madeixas das meninas, é inevitável lembrar que no futuro o mercado de trabalho poderá dizer que elas não possuem “boa aparência” com os cabelos naturais e exigirá que os alisem. Cabe ainda destacar que manter o crespo ou os cachos custa caro para algumas mulheres, pois tira delas o pão da mesa. A autoestima bem trabalhada é essencial para seguir a vida com o mínimo de sanidade, mas apenas empoderamento não mudará as estatísticas que apontam a mulher negra como a que menos recebe em seu emprego.

Seria perfeito se a dinâmica da vida funcionasse como no lindo comercial da Dove e a valorização familiar resolvesse os problemas de nossa autoestima. Entretanto, há uma boa dose de racismo na dificuldade das mulheres negras em aceitarem a própria aparência.

Dove, nós amamos nossos cachos, mas precisamos que a sociedade também os ame.

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Tássia Reis: do interior, bem humilde, no seu radinho

Tassia Reis é a brisa suave que envolve nosso corpo no verão e nos rouba um sorriso gostoso na rua. É a fineza e a bravura da mulher negra que não abaixa a cabeça, mesmo que esteja careca. Sua música dança nos nossos ouvidos com a mesma leveza que Tássia leva a vida. Do interior, bem humilde, lá de Jacareí (SP), é a promessa, mais do que presente, feminina do rap. Sua capacidade de mesclar ritmos, inovar é tão forte quanto seu espírito crítico. Dona de um estilo único lançou seu EP recentemente e promete mexer ainda mais com nossos corações e ouvidos.

Batemos um papo com essa mulher destruidora que não sai do nosso radinho. Olha só.

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Foto: Reprodução/Youtube


Em que momento você percebeu que era a carreira da música para você e não a de moda?

Uma coisa foi acompanhando a outra. Quando comecei o meu curso de Tecnologia em Design de Moda, eu também estava escrevendo minhas primeiras músicas, e toda aquela vida nova, de cidade grande me influenciou bastante para escrever. Meus perrengues, saudades do interior, algumas alegrias também. Mas a verdade é que não consegui um Estágio na área, apesar de sempre me sair bem nas entrevistas, alegavam que era em função do meu inglês, que não é lá essas coisas, porém, as garotas da minha sala também não tinham inglês  e estagiavam, algumas em marcas grandes. Porque? Não era porque eu sou pobre, e sim porque, já não bastasse eu ser negra, tinha um afro gigante, e  1.80 de altura, acho que sou preta muito preta, sabe?!

No fim, isso só me ajudou a escolher o caminho da música, que também não é nada fácil.

Conseguir expor meus sentimentos, meus pensamentos, meu ideais, era e é tudo que eu sempre quis, desde quando eu dançava .

Como o curso de moda influencia no seu trabalho?

O curso de moda me ajudou muito no que diz respeito a processo criativo, e inspiração, passei a respeitar mais as ideias que antes eu considerava “bobas”, e apesar de estudar tendências, compreendi que não há nada melhor do que a naturalidade. Tudo que é programado demais, enlatado demais, tem prazo pra vencer . O que é natural gira por anos e anos, é atemporal.

Como cantora independente, quais são as dificuldades?

A dificuldade maior é descobrir ferramentas que funcionem no meu formato de artista, ferramentas sustentáveis, porque a realidade é que não temos estrutura financeira, nem cultural . O mercado musical vem sofrendo mudanças com a democratização que a internet proporciona, e no meu ponto de vista, todo mundo está entendendo como proceder a sua maneira. O que funciona com quem e etc. Acho que tudo se resume em experimentar, arriscar e produzir. É o que estamos fazendo, a nossa maneira “do interior, bem humilde” rs.

Você sentiu e sente alguma dificuldade por ser mulher e querer cantar rap? Acha que a cena do rap ainda é muito machista?

Qualquer coisa que eu queira fazer, eu vou sofrer opressão porque somos todos educados nesse sistema machista, o Hip-Hop não fica de fora . Meus pais sempre me diziam que eu tinha que me destacar porque as oportunidades não estavam do meu lado, por isso tento sempre fazer as coisas com excelência . Acabei me condicionando a provar que sou capaz pra tudo e qualquer coisa .

Você acredita que o Brasil reconhece a contribuição dos negros para a sua cultura?

Não, pelo contrário, ainda se luta pra ensinar a verdadeira história nas escolas, as políticas públicas são recentes, e ainda não conseguimos sentir os reflexos positivos, melhores cargos, melhores posições sociais, demorará anos pra isso acontecer (sendo otimista). A mídia ainda vende um padrão europeu que não tem nada haver a com a gente, quando resolve colocar uma figura negra geralmente é de uma maneira extremamente sexista.

Ao mesmo tempo vejo movimentações que me agradam, pessoas se unindo, discussões sendo abordadas, na internet tenho vista auto-estima,a procura por dados, por conhecimento que antes a gente nem sonhava em acessar. Acho pouco, mas é um começo.

Quais são suas influências, seja na vida ou na música?

Meus pais são pessoas que me permitiram ser o que eu sou, não me podaram, e me apoiaram da maneira que eles podiam. Isso já fez toda a diferença pra mim. Meus amigos, mais especificamente, minhas amigas são muito guerreiras, batalhadoras, gente que faz e acontece. Isso acaba gerando uma corrente de impulsão, bom, eu gosto de pensar assim.

Musicalmente tenho muita influencia da Música Preta Brasileira, apesar de criar num gênero americano, que é o Rap, eu gosto de impor a minha verdade nas canções.

Diria que Djavan, Clara Nunes, Caetano, Erykah Badu, Lauryn Hill e Floetry tem grande influência nas minhas coisas . Mas tem muito mais gente que acaba influenciando .

Quais são os próximos planos para o seu projeto? O que podemos esperar da Tássia em 2015?

Pretendo dixxtruir!!! Mais músicas nesse ano, sem esquecer que acabei de lançar o EP. Vai ter clipe, vai ter vídeo, vai ter badalo, vai ter parcerias fortes! Estou muito animada, e inclusive gostaria de agradecer o espaço, e aproveitar e agradecer a todo carinho que tenho recebido, tem sido muito importante pra mim, tem me dado força e mais garra.

Aproveito e deixo minhas redes sociais  pra quem tiver afim de acompanhar e fortalecer :

Facebook.com/tassiareisoficial

Twitter e Instagram – @tassiareis_

Youtube.com/tassiareisoficial

soundcloud.com/t-ssia-reis

 

O Ep Tássia Reis está a venda no Itunes, na Radio Uol, e na Onerpm, disponível no Spotify, Deezer, Rdio, e também Download gratuito na descrição do youtube e soundcloud .

Um super beijo, seguimos na luta .

#AquiéClackBoom

 

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“Esquenta!” discute racismo sem olhar para si

Domingo de sol, domingo de “Esquenta!”, samba e racismo. O tema escolhido para a atração de Regina Casé foi o preconceito contra os negros, mas a discussão não saiu do lugar-comum. Os convidados presentes relataram tristes histórias de discriminação que passaram ao longo da vida, mas ninguém lembrou de Douglas da Silva Pereira, o DG. O dançarino fazia parte do elenco fixo do programa até ser assassinado pela Polícia Militar em abril de 2014. Na ocasião, o corpo de DG foi encontrado nos fundos de uma creche do Morro do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana (RJ), com um tiro nas costas e escoriações.

Foto: Alex Carvalho (TV Globo)

 

Apesar da aparente boa intenção de propor o debate de uma questão de extrema relevância e que aflige metade da população brasileira, a edição do programa soou como uma tentativa de limpar a imagem arranhada de Regina Casé. Por diversas vezes, a apresentadora já foi informalmente acusada de ter ataques de estrelismo e de não gostar de pobres devido ao tratamento dado aos fãs. O “Esquenta!” de hoje foi inedito, mas a sua gravação ocorreu em dezembro, algumas semanas depois de Casé se ver no epicentro de uma série de críticas que questionavam o seu comportamento e credibilidade de sua atração dominical.

Maria de Fátima Silva, mãe de DG, fez graves acusações à apresentadora. Durante o “Ser Negra”, evento comemorativo ao Dia da Consciência Negra, Maria afirmou que sua participação no programa em homenagem ao seu filho foi limitada pela produção do “Esquenta!” e por Casé. “Eu só deveria responder o que me perguntassem. Quando eu tentava falar sobre a violência da polícia, era cortada”, disse a mãe do dançarino, que completou, sobre Regina: “uma farsa, uma artista, uma mentirosa”. O caso ganhou grande repercussão na imprensa e, apesar da defesa da apresentadora, dividiu as opiniões do público.

O que vimos neste domingo foi a exibição da história que já sabemos: negros no Brasil sofrem preconceito por sua cor. Parte da audiência acredita que a escolha do tema para um programa de forte apelo popular como o “Esquenta!” é avanço no debate sobre o racismo. Afinal, a Rede Globo enfim assume que o Brasil não é o país da democracia racial e que a discriminação é parte do cotidiano da população. Entretanto, abordar o racismo e não mencionar as mortes de DG, Amarildo e Cláudia, vítimas da violência policial, é, de certa forma, ser conivente com o genocídio da população negra no país, pois o falecimento deles não é exceção, mas regra.

O silêncio sobre a violência policial, as acusações da mãe de DG e a edição de 20 de janeiro de 2013 sobre a situação do Rio de Janeiro após a pacificação realizada pelas UPPs nos mostra que o posicionamento do “Esquenta!”, e da Rede Globo, é ideológico. Ao longo do programa deste domingo, Regina Casé não falou a palavra racismo, mas se referiu a ele somente como “preconceito de cor”. O termo foi utilizado somente pelos convidados ao relatarem as suas experiências. O que vimos foram negros assumindo seus papéis de vítimas, mas impossibilitados de problematizar os porquês das violências que sofrem.

No debate, a análise teórica do tema ficou por conta de um branco, o jornalista e produtor cultural Alê Youssef, como se os próprios convidados fossem incapazes de fazê-la por si só. A única que fugiu à regra foi Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo, que indicou como o racismo está presente em diversas estruturas da sociedade. “Imagine-se como branco num país só de negros, onde tudo o que foi feito de maravilhoso na estética, os arquitetos, os filósofos, os revolucionários e os reis foram todos negros. Até o ser supremo, Deus, era negro. Jesus Cristo também era negro. E você, sendo branco, na única vez que o sistema escolar começa a falar dos seus ancestrais coloca duas páginas no livro de História do Brasil falando que seus ancestrais eram escravos e não te contam nada mais”, provocou Loras.

E em tantas histórias tristes, Regina Casé se solidariza e afirma que entende bem o que é racismo, pois seus pais sempre tiveram muitos amigos negros que frequentavam sua casa. Como se conviver com negros eximisse qualquer pessoa de ser racista. No caso da apresentadora, acreditar nisso fica ainda mais difícil.

Veja o debate aqui.

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Editorial “Tropical Paradise” apresenta a mulher negra brasileira plus size

A renomada fotógrafa Adriana Líbini começou o ano nos presenteando com um Editorial de Moda Plus Size que busca retratar a beleza da mulher negra. Como primeiro trabalho do ano, “Tropical Paradise”, apresenta mulheres repletas de vitalidade, com olhos iluminados e brilhantes. Além dos cílios perfeitamente curvados e maçãs do rosto esculpidas.

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As modelos escolhidas foram Dayana Toledo e Fabiola Romão que se saíram muito bem com looks multicoloridos. A maquiagem em camas é de encher os olhos, com sombras de pó colorido a partir do rosa blush, batons brilhantes coloridos em tonalidades de rosa, laranja ou roxo. O resultado foi um ensaio repleto de leveza, charme e alegria, do jeitinho das mulheres negras, não é mesmo? O ensaio está realmente lindo, nós amamos. Deem uma olhada nas outras fotos.

Para conhecer mais do trabalho da fotógrafa Adriana Líbini, acesse:  http://adrianalibini.com.br/

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Créditos: Fotografia Adriana Líbini, Produção de Moda Carol Santos, Makeup & Hair Tati Souza, Direcionamento de Poses Adriana Líbini e Henrrique Santana, Texto Carol Santos, Revisão Magdiel Líbini, Retouch Vania Santos e Adriana Líbini, Modelos Dayana Toledo e Fabiola Romão, Modelos vestem U’Z Criolos, Xica Vaidosa e Wish Fashion.

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Todo preto não é igual

Confie em mim, todo negro não é igual não. Até deve ser legal ter uma família gigante, mas aquele negão do outro lado da piscina não é meu pai não. Meu pai é um homem branco e magricelo. Ah vá, não faz essa cara de surpresa que já está ficando feio. A gente pode voltar pro jogo de polo aquático? Vamos focar no sol que dança, na piscina, na criança com o joelho ralado logo ali e no gol que vou fazer agora enquanto você se pergunta se a garotinha de nove anos é minha irmã.

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Foto: Aline Ramos

Ela é bem esperta mesmo, sabe jogar futebol melhor que seu filho que acha que joga no Manchester, mas não sabe dar um passo sem que você aprove. Eu adoraria que essa garotinha com o sorriso tão largo e de uma força tão convicta fosse minha irmã mais nova. Mas não é não. Ela é filha daquele senhor simpático brincando com a outra filha pequena no colo.

Sabe o que eu queria de verdade, que você parasse de perguntar quem é meu parente e quem não é. Mas você não vai parar né? Parece tão estranho ter negros na piscina de um clube que não seja limpando para você nadar? É tão estranho que eu não esteja na cozinha fritando batata frita pra você curtir o domingo com o filhão? Olha, amigo, eu não sei qual é a tua, mas esse papo tá chato demais. Eu só queria dar um mergulho, me refrescar, mas você tem que me aporrinhar.

Tá vendo só, ao menos eu faço gols em você. Aqueles dois garotos adolescentes disseram que vão entrar no time também. Não, não, você não está abrindo a boca para dizer isso novamente, está? Eles não são meus irmãos. Olha, pra mim já deu, vou ali chupar um sorvete, porque você parece não merecer o verão.

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Grife norte-americana usa apenas modelos negras e plus size em suas propagandas

A grife “Rum + Coke” vende roupas como qualquer grife, entretanto, na sua publicidade só tem modelos negras e plus size. Os projetos da estilista e designer Courtney Smith ostentam curvas e apelam para estampas, cores vivas e tecidos exuberantes. Os preços da marca são acessíveis, entre 48$ e 200$. Já os tamanhos vão do pequeno ao 3XL, numeração maior que o Extra GG, ou seja, seus produtos são destinados para pessoas da vida real. O mundo da moda é permeado de muitos rótulos, e o objetivo da “Rum + Coke”, é que sendo plus size ou não, a marca atinja mulheres de maneira agradável com modelos semelhantes a elas.

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Kianna Top Curto, US $ 48, Maya Saia, $ 88. Foto: Rum + Coke

 

Smith tem como inspiração a cidade de Nova York, e busca neste grande centro urbano chique mulheres de todos os tipos e de todos os lugares. Em entrevista ao site Refinery 29 a estilista garante que não estava bêbada quando criou o nome da marca, mas explica que faz roupas para mulheres divertidas como ela. “Todo mundo me chama de Coco e um derivado desse nome é Coke. Eu queria que a marca fosse divertida, então eu adicionei um pouco de rum!”, conta Smith.

Outro princípio fundamental da marca é que existe uma multiplicidade de beleza, entretanto, raramente é vista nas propagandas, e por isso, em suas fotos busca representar as mulheres maiores e negras. “Ninguém questiona por que existem apenas mulheres magras e pequenas como público alvo das outras marcas?”, pergunta a estilista.

Ainda sobre os padrões de beleza a criadora de “Rum + Coke” fala sobre as mensagens negativas que as mulheres estão sujeitas diariamente. “Você não é fina o suficiente, você não é jovem o suficiente, você não é leve o suficiente. Isso tudo basicamente diz às mulheres que são insuficientes”, e acrescenta que deseja que as mulheres entendam que elas são bonitas do modo em que são.

Outro motivo para que R+C faça sucesso entre as mulheres é a demanda que existe no mercado para a moda plus size. Smith fala que o mercado está evoluindo, mas ainda falta muito. “Sinto que muitas marcas ficam aquém de fazer mais peças de qualidade, ou mais peças em tudo, por causa do estigma ligado ao peso”. A estilista acredita que as marcas plus size podem fazer melhor, e não há dúvidas de que “Rum + Coke” tem feito roupas melhores para mulheres que estão acima da etiqueta G.

Veja mais fotos:

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Tina Vestido, US $ 65. Foto: Rum + Coke

 

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Toni vestido, US $ 200. Foto: Rum + Coke

 

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Joan Vestido, $ 115. Foto: Rum + Coke

 

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Coke Vestido, $ 115. Foto: Rum + Coke

 

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