Filhas da rua

Um conto-reportagem sobre madrugada e saltos-altos nas esquinas da vida

Por Felipe Vaitsman 

A rua ensina, é uma mãe. Pela madrugada, as mais asquerosas histórias caem no breu da cidade. Gente que morreu por dez reais, por trapaça, por ciúme, por vingança, por pensar diferente, por ser diferente. Por estar na rua.

Outro dia mesmo, mataram uma travesti na cidade. Thays, 27 anos. Deu no jornal. Na rodoviária, ela armou barraco com uma mulher que furou a fila do guichê para comprar a última passagem. Se descontrolou, gritou e tentou agredir a trapaceira. Saiu escorraçada. Sem bilhete, voltou à pensão em que estava. Para morrer. O namorado a assassinou com um tiro no peito, dentro do quarto. Ninguém sabe dizer ao certo qual foi o motivo.

Vivian mora nessa pensão, e conhecia a vítima. Viu a mesma arma apontada para o rosto, mas ficou calada e viveu para contar a história. Ela trabalha na esquina da Rua Benjamin Constant com a Avenida Nações Unidas. Tem 19 anos. Toma hormônios há quatro meses e se orgulha dos peitinhos já crescidos.

— Tem bofe que acha que eu sou mulher. É porque eu sou bicha-paty.

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Foto: Amanda Lima

De vestido rosa-choque, curtinho, e com uma enorme bolsa laranja, ela bate o tamanco no chão e gagueja quando fica nervosa. Engole com os olhos, carros e mais carros que passam lentamente por ali. Ela acena, mexe, pede carona. A transa é cinquenta, a chupeta é trinta. Mas o movimento está fraco.

A colega, Fernanda, na rua há muito mais tempo, sabe bem que lua cheia e céu limpo iluminam o submundo mais do que se deveria. Que homem quer ser visto abrindo a porta do carro para uma travesti? Pois ela pouco se importa. Ri, joga o cabelo para trás e roda em torno do poste com movimentos de pole dance. Já entrou em carro com cinco bofes. E já foi ameaçada por mais de dez. Botou todos para correr, menos um, que não escapou a tempo e foi achincalhado em plena calçada. Hoje, Fernanda se arrisca bem menos. Trocou as esquinas pelo celular. Fica em casa o dia todo, esperando algum cliente acioná-la. Quando está na rua, é porque o telefone não tocou.

Pois Vivian e Fernanda dividiam o ponto naquela terça-feira. Se conheceram ali mesmo, sob a enorme lua cheia. Os carros passam vagarosamente e trazem olhares tímidos, assustados, curiosos. Elas só pausam a conversa para mexer com os homens:

— Me leva pra casa! — grita Fernanda, para dois que passavam de carro pela segunda ou terceira vez.

— A-adoro um negão… Quan… quantos já não me juntaram nessa pa… nessa parede aqui e puxaram meu cabelo com força? — comenta Vivian.

— Ah, não! Negão não dá, amiga! Dói demais. Só cheirando muito pó pra aguentar.

— Ma… mas eu gosto é de sentir dor mesmo, bi. Gosto quando eles me batem. E… e eu bato neles tam… também.

— Bate quando faz a ativa, bicha?

— Ba-to! Tem homem que quer apanhar! Eles só não assumem…

— E você gosta de fazer a ativa, é?

— Adoro! Principalmente quando o cara parece be… bem machão, mas é to… todo recatado. E, olha… o “meu” é bem maior que o de muitos por aí.

— Porque você não é homem, então, louca? Gosta de ser ativa!

— Eu, não, bi. Eu sou bicha-paty…

Mas Vivian sabe deixar a delicadeza de lado. Carrega sempre uma faca. Cansou de ter suas bolsas roubadas pelos vagabundos que zanzam na noite. Agora já reconhece o perigo de longe. Da última vez, lutou com o ratoneiro e conseguiu salvar as coisas. Em pouco tempo, aprende-se muito. Fernanda parou de estudar muito cedo, mas costuma dizer que se formou, já deu aulas e agora é diretora na rua. Ela já não paga pelo ponto.

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Foto: Amanda Lima

Para se prostituir na Avenida Nações Unidas, a maioria das travestis deve pagar uma espécie de aluguel para alguma cafetina. São cem reais por dia – dois programas. Cada cem metros de avenida é de uma dona. São entre quatro e seis esquinas. Algumas dessas cafetinas ainda abrigam as meninas em apartamentos, quartinhos ou pequenas pensões como aquela em que Vivian mora e onde mataram Thays. É uma luta para pagar tudo em dia. No mundo delas, as ameaças vêm de todos os lados.

Rillary tem 22 anos e carrega nos braços algumas marcas da vida. Foi atacada com uma faca de cozinha na Parada da Diversidade de Sertãozinho por outra travesti. E, na rua, sabe dos riscos que corre. Mesmo assim não abre mão de levar o celular para o trabalho: gosta de ouvir música enquanto espera pelos clientes. Se roubarem, foi só mais um aparelho, de tantos. Bianca, de 35, faz ponto na esquina do Teatro Municipal. No último sábado, alguns infelizes passaram de carro e arremessaram ovos nela e em outras colegas que, com sorte, não foram atingidas. Mas as marcas da ignorância e do preconceito estão na parede de um dos símbolos da cultura em Bauru até hoje.

Bianca é serena. Loira, alta e siliconada, olha fundo nos olhos de cada um que passa salivando por ela. Muito simpática, não desmancha o sorriso nem quando alguém para o carro só para ofendê-la. É o mesmo homem que vai voltar no fim da madrugada, para fazer um programa. Hoje ela se dá o direito de escolher: só transa com quem mostra firmeza. Naquela noite, por volta das três da manhã, foi vista saindo de uma BMW – cliente graúdo. Mas voltar ao ponto é sempre se expor à estupidez: “eu gosto é de boceta”, gritava um homem embriagado, de dentro do carro. Não é preciso responder. Ela prefere acenar ao outro que passa se declarando.

— Bianca, meu sonho de consumo!

A esses, carinhosos, toda a reciprocidade. Inocência, jamais. O homem antes de gozar é um. Depois, é outro. E aquele que ganha um programa de graça nunca mais vai querer pagar. Por isso, Rillary não dificulta a negociação. “Dinheiro na mão, calcinha no chão. Dinheiro, não viu, calcinha subiu”, é o que sempre diz, com seu sorriso tímido.

Cada uma vai atrás do seu.

Foto: Amanda Melo

Foto: Amanda Lima

Na Nações Unidas, do cruzamento com a Avenida Duque de Caxias até a rodoviária, Vivian, Fernanda, Rillary e Bianca, além de dezenas de outras travestis, vivem a face mais visceral da noite. Tal como os mendigos do centro da cidade, os traficantes do Parque Vitória Régia e malandros vacilantes, que andam por aí fumando bitucas de cigarro, pedindo goles de cerveja e cometendo pequenos delitos para pagar suas drogas. São todos vítimas. Estar na rua não é opção.

Rillary queria mesmo é ser DJ. Sonha tocar em festas abarrotadas, virando a madrugada nas melhores baladas de São Paulo. Bianca fez Magistério e está concluindo um curso para ser auxiliar de cabeleireiro. Ainda assim, as duas continuam nas esquinas noite após noite. É muito difícil deixar essa vida. Não é todo dia que se vê uma travesti num balcão de farmácia, na recepção de um hotel ou na gerência de um banco. Por preconceito e hipocrisia da sociedade, foram fadadas a ser putas.

São becos, bocas, drogas, furtos, dívidas, facas, balas, mortes. Já seria um prejuízo muito grande se Thays fosse a única vítima da violência contra transgêneros. Mas e Camila, assassinada com uma facada na altura do pescoço? E Safira, morta com cinco tiros? O que dizer sobre Evelyn, espancada e largada no meio do mato pelo agressor? Não tardará a aparecer uma travesti estraçalhada na linha do trem. E a sujeira do asfalto vai encobrir explicações. “Foi por vingança”, “roubou o cliente”, “usava drogas”, “era puta” vão ser as respostas doentias ecoando pela avenida. O fato é que há vários rastros de sangue no chão que não serão apagados.

Na noite de movimento fraco e babados fortes entre Vivian e Fernanda, a bicha-paty pergunta à colega mais experiente, diretora na rua:

— Do… do que vo… do que você tem medo?

— De nada — diz, se entregando com o olhar.

— Eu te… eu tenho medo de… tenho medo de morrer.

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Transtornar o olhar: Unesp Bauru recebe evento em celebração ao mês da visibilidade trans

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Na próxima quinta-feira (29/01), o Brasil celebra o Dia da Visibilidade Trans. Ciente da importância da data e da necessidade de dar voz a esta causa, a Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Bauru promove encontro para discutir assuntos relevantes e urgentes em nossa sociedade.

Com o título “Transtornar o olhar: mês da visibilidade trans”, o evento irá abordar temas como o processo transexualizador e suas relações com família, mercado de trabalho, mídia e transfobia. Os debates acontecem nesta quarta-feira (28/01), às 19h, no Auditório da FEB (Faculdade de Engenharia de Bauru). A entrada é gratuita e não há necessidade de inscrição antecipada. Para dúvidas e outras informações, está à disposição o endereço transtornar@gmail.com.

O encontro foi organizado por Larissa Pelúcio e Patricia Porchat, professoras dos departamentos de Ciências Humanas e Psicologia, respectivamente. As discussões serão guiadas pelas ativistas e estudantes universitárias Amara Moira e Leila Dumaresq, ambas do Coletivo Trans Tornar. Amara é doutoranda no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e assina o blog “E se eu fosse puta”. Leila é filósofa graduada também pela Unicamp e escreve no “Transliteração”.

Larissa Pelúcio aposta no evento como forma de aproximar a universidade de uma pauta extremamente importante. “O encontro é uma maneira de tirar o exotismo do nosso olhar, que muitas vezes acredita que a experiência trans não nos toca e que não estamos ligados diretamente à questão”, afirma. A professora entende que os relatos de duas mulheres trans serão fundamentais para a compreensão da causa e para despertar a necessidade de incluir pessoas de diferentes gêneros ao meio universitário com sensibilidade e sem paternalismo.

“Transtornar o olhar” é promovido pela Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC); Faculdade de Ciências (FC); Grupo de Pesquisa “Transgressões: Corpos, Sexualidades e Mídias Contemporâneas”; Projeto de Extensão “Escutando a Diversidade”; e Conselho Regional de Psicologia – CRP São Paulo.

Transfobia mata

O Brasil é o país onde mais ocorrem assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo, segundo relatório da ONG Internacional Transgender Europe. Entre janeiro de 2008 e abril de 2013, foram 486 mortes, número quatro vezes maior do que o registrado pelo México, segundo país com mais óbitos desta natureza. Os dados incluem apenas os casos reportados e a quantidade de homicídios pode ser ainda maior.

O Dia da Visibilidade Trans tem como objetivo ressaltar a importância do respeito ao movimento e alertar à sociedade que a transfobia mata.

 

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Minha doce Angela Davis

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Tenho um doce anjo negro que me visita todas as noites. Esse doce anjo já me contou sobre quando lutou contra o mundo com apenas treze anos. Tenho uma garota que batalhou por mim e eu nem sabia. Ela não é nenhuma estrela, mas trouxe muita luz para seu povo.

Por mais que digam que anjos não tem sexo, meu doce anjo negro é uma mulher solitária. Colocaram meu anjo na cadeia. Ela esteve em perigo. Essa pequena garota falou ao coração do mundo mesmo não sendo uma cantora pop. O FBI queria pregá-la numa cruz, meu pequeno doce anjo negro.

Ela tem a força de uma pantera e sua garra levou sua palavra longe. Sua voz tem a sonoridade de um trompete de jazz, um bálsamo revolucionário.

Minha doce angela Davis é a professora do povo. Meu doce anjo negro faz hoje 71 anos e toda noite me visita e sussurra em meus ouvidos: “não se prenda, nossa luta é por liberdade”. Minha doce Angela, minha doce Davis.

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Cidades proibidas para mulheres

Se anjos existem, eles se esqueceram das mulheres de Bauru e de todos os cantos do Brasil. Ou talvez escolheram proteger somente as que não saem de casa e não correm perigo. Vai ver o seguro de vida é mais caro para mulheres tidas por “vadia”, como eu. Para prostitutas e mulheres transexuais nem deve passar pela cabeça desses anjos que elas merecem proteção. Por muito tempo pedi a proteção de qualquer entidade divina, mas como o socorro veio em forma de cantadas agressivas, passei a andar durante a noite, quando volto da faculdade, com as chaves entre os dedos.

Foto: Aline Ramos

Quando saí da casa dos meus pais há quatro anos, o maior medo deles era que eu abandonasse a religião que professávamos. Eles tinham razão, tão logo me afastei de casa e comecei a vida em outra cidade, parei de ir à igreja. Viver sozinha em outro lugar fez com que eu tivesse minhas recaídas religiosas e barganhasse a minha fé pela proteção contra qualquer tipo de assédio. Se aquele carro que estivesse me seguindo numa das avenidas principais da cidade parasse de me seguir, eu iria para a igreja no sábado seguinte. Mas fui à igreja e ouvi que as mulheres segundo o coração de Deus são submissas aos homens e relembrei o porquê havia abandonado minha religião. Não voltei mais, e sabendo que não podia contar com a ajuda de homens, anjos e Deus, passei a apertar o passo.

Minhas canelas ardem quando ando por Bauru, tanto pelo calor, como pelo medo. Não há lugar nessa cidade que me faça andar em paz. Não conto para os meus pais que a preocupação deles deveria ser outra, e não a religiosa, mas fico feliz que ainda orem por mim e peçam que os anjos me protejam. Quem sabe são vencidos pelo cansaço. Mas enquanto isso não acontece, tenho que ouvir às dez horas da manhã, do pedreiro da construção da casa ao lado, que meu perfume é bom e que tenho cara de boqueteira. Às vezes, quando vou ao supermercado, eu ouço que sou deliciosa e que me chupariam inteira.

Olha, vou ser franca, se ficassem simplesmente com essas promessas horríveis, eu ficaria tranquila. Acontece que às vezes sou seguida por carros e motos. Certa vez fui parada duas vezes na mesma semana, enquanto voltava da faculdade durante a noite, pelo mesmo rapaz de moto que insistia em saber para onde eu me dirigia. Passei dois meses com pavor de sair de casa e acreditando que alguém estava me seguindo. Porém, isso voltou a se repetir, e eu que achava que o sol forte de Bauru seria capaz de me proteger, fui seguida por dois carros em trinta minutos de caminhada. Além dos anjos terem me abandonado, parece que enviarem demônios para me assustar. E conseguiram.

Eu queria ligar para os meus pais e pedir ajuda, mas tudo o que passei a fazer foi parar de sorrir e falar mais grosso. Pelo telefone, digo a eles que tenho comido mais salada e menos carne. Nem o céu mais bonito do centro oeste paulista é capaz de atenuar o medo que a cidade nos faz sentir. Segundo a Coordenadoria de Análise e Planejamento (CAP) da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), os casos de estupro em Bauru aumentaram 9,6% em 2014. Por mais que esses dados tenham seu lado positivo, já que muitas mulheres têm respondido ao estímulo de denunciarem os abusos em que são vítimas, a sensação de insegurança aumenta e interfere no nosso dia a dia.

Uma notícia recente entristeceu a todas nós, mulheres, nesta semana. Em agosto do ano passado, um caso de estupro coletivo chocou Bauru. Uma garota de 17 anos foi abusada por 10 rapazes, num terreno baldio, durante a festa de comemoração do aniversário da cidade. E mesmo diante de tamanha crueldadade, a justiça local decidiu pelo arquivamento do processo.

No dia 7 de fevereiro, Bauru será palco da III Marcha das Vadias. Desta vez, o tema será “A culpa não é da vítima”, afinal, se os anjos se esqueceram de nós, marcharemos até que tenhamos direito à cidade.

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Tássia Reis: do interior, bem humilde, no seu radinho

Tassia Reis é a brisa suave que envolve nosso corpo no verão e nos rouba um sorriso gostoso na rua. É a fineza e a bravura da mulher negra que não abaixa a cabeça, mesmo que esteja careca. Sua música dança nos nossos ouvidos com a mesma leveza que Tássia leva a vida. Do interior, bem humilde, lá de Jacareí (SP), é a promessa, mais do que presente, feminina do rap. Sua capacidade de mesclar ritmos, inovar é tão forte quanto seu espírito crítico. Dona de um estilo único lançou seu EP recentemente e promete mexer ainda mais com nossos corações e ouvidos.

Batemos um papo com essa mulher destruidora que não sai do nosso radinho. Olha só.

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Foto: Reprodução/Youtube


Em que momento você percebeu que era a carreira da música para você e não a de moda?

Uma coisa foi acompanhando a outra. Quando comecei o meu curso de Tecnologia em Design de Moda, eu também estava escrevendo minhas primeiras músicas, e toda aquela vida nova, de cidade grande me influenciou bastante para escrever. Meus perrengues, saudades do interior, algumas alegrias também. Mas a verdade é que não consegui um Estágio na área, apesar de sempre me sair bem nas entrevistas, alegavam que era em função do meu inglês, que não é lá essas coisas, porém, as garotas da minha sala também não tinham inglês  e estagiavam, algumas em marcas grandes. Porque? Não era porque eu sou pobre, e sim porque, já não bastasse eu ser negra, tinha um afro gigante, e  1.80 de altura, acho que sou preta muito preta, sabe?!

No fim, isso só me ajudou a escolher o caminho da música, que também não é nada fácil.

Conseguir expor meus sentimentos, meus pensamentos, meu ideais, era e é tudo que eu sempre quis, desde quando eu dançava .

Como o curso de moda influencia no seu trabalho?

O curso de moda me ajudou muito no que diz respeito a processo criativo, e inspiração, passei a respeitar mais as ideias que antes eu considerava “bobas”, e apesar de estudar tendências, compreendi que não há nada melhor do que a naturalidade. Tudo que é programado demais, enlatado demais, tem prazo pra vencer . O que é natural gira por anos e anos, é atemporal.

Como cantora independente, quais são as dificuldades?

A dificuldade maior é descobrir ferramentas que funcionem no meu formato de artista, ferramentas sustentáveis, porque a realidade é que não temos estrutura financeira, nem cultural . O mercado musical vem sofrendo mudanças com a democratização que a internet proporciona, e no meu ponto de vista, todo mundo está entendendo como proceder a sua maneira. O que funciona com quem e etc. Acho que tudo se resume em experimentar, arriscar e produzir. É o que estamos fazendo, a nossa maneira “do interior, bem humilde” rs.

Você sentiu e sente alguma dificuldade por ser mulher e querer cantar rap? Acha que a cena do rap ainda é muito machista?

Qualquer coisa que eu queira fazer, eu vou sofrer opressão porque somos todos educados nesse sistema machista, o Hip-Hop não fica de fora . Meus pais sempre me diziam que eu tinha que me destacar porque as oportunidades não estavam do meu lado, por isso tento sempre fazer as coisas com excelência . Acabei me condicionando a provar que sou capaz pra tudo e qualquer coisa .

Você acredita que o Brasil reconhece a contribuição dos negros para a sua cultura?

Não, pelo contrário, ainda se luta pra ensinar a verdadeira história nas escolas, as políticas públicas são recentes, e ainda não conseguimos sentir os reflexos positivos, melhores cargos, melhores posições sociais, demorará anos pra isso acontecer (sendo otimista). A mídia ainda vende um padrão europeu que não tem nada haver a com a gente, quando resolve colocar uma figura negra geralmente é de uma maneira extremamente sexista.

Ao mesmo tempo vejo movimentações que me agradam, pessoas se unindo, discussões sendo abordadas, na internet tenho vista auto-estima,a procura por dados, por conhecimento que antes a gente nem sonhava em acessar. Acho pouco, mas é um começo.

Quais são suas influências, seja na vida ou na música?

Meus pais são pessoas que me permitiram ser o que eu sou, não me podaram, e me apoiaram da maneira que eles podiam. Isso já fez toda a diferença pra mim. Meus amigos, mais especificamente, minhas amigas são muito guerreiras, batalhadoras, gente que faz e acontece. Isso acaba gerando uma corrente de impulsão, bom, eu gosto de pensar assim.

Musicalmente tenho muita influencia da Música Preta Brasileira, apesar de criar num gênero americano, que é o Rap, eu gosto de impor a minha verdade nas canções.

Diria que Djavan, Clara Nunes, Caetano, Erykah Badu, Lauryn Hill e Floetry tem grande influência nas minhas coisas . Mas tem muito mais gente que acaba influenciando .

Quais são os próximos planos para o seu projeto? O que podemos esperar da Tássia em 2015?

Pretendo dixxtruir!!! Mais músicas nesse ano, sem esquecer que acabei de lançar o EP. Vai ter clipe, vai ter vídeo, vai ter badalo, vai ter parcerias fortes! Estou muito animada, e inclusive gostaria de agradecer o espaço, e aproveitar e agradecer a todo carinho que tenho recebido, tem sido muito importante pra mim, tem me dado força e mais garra.

Aproveito e deixo minhas redes sociais  pra quem tiver afim de acompanhar e fortalecer :

Facebook.com/tassiareisoficial

Twitter e Instagram – @tassiareis_

Youtube.com/tassiareisoficial

soundcloud.com/t-ssia-reis

 

O Ep Tássia Reis está a venda no Itunes, na Radio Uol, e na Onerpm, disponível no Spotify, Deezer, Rdio, e também Download gratuito na descrição do youtube e soundcloud .

Um super beijo, seguimos na luta .

#AquiéClackBoom

 

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Grife norte-americana usa apenas modelos negras e plus size em suas propagandas

A grife “Rum + Coke” vende roupas como qualquer grife, entretanto, na sua publicidade só tem modelos negras e plus size. Os projetos da estilista e designer Courtney Smith ostentam curvas e apelam para estampas, cores vivas e tecidos exuberantes. Os preços da marca são acessíveis, entre 48$ e 200$. Já os tamanhos vão do pequeno ao 3XL, numeração maior que o Extra GG, ou seja, seus produtos são destinados para pessoas da vida real. O mundo da moda é permeado de muitos rótulos, e o objetivo da “Rum + Coke”, é que sendo plus size ou não, a marca atinja mulheres de maneira agradável com modelos semelhantes a elas.

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Kianna Top Curto, US $ 48, Maya Saia, $ 88. Foto: Rum + Coke

 

Smith tem como inspiração a cidade de Nova York, e busca neste grande centro urbano chique mulheres de todos os tipos e de todos os lugares. Em entrevista ao site Refinery 29 a estilista garante que não estava bêbada quando criou o nome da marca, mas explica que faz roupas para mulheres divertidas como ela. “Todo mundo me chama de Coco e um derivado desse nome é Coke. Eu queria que a marca fosse divertida, então eu adicionei um pouco de rum!”, conta Smith.

Outro princípio fundamental da marca é que existe uma multiplicidade de beleza, entretanto, raramente é vista nas propagandas, e por isso, em suas fotos busca representar as mulheres maiores e negras. “Ninguém questiona por que existem apenas mulheres magras e pequenas como público alvo das outras marcas?”, pergunta a estilista.

Ainda sobre os padrões de beleza a criadora de “Rum + Coke” fala sobre as mensagens negativas que as mulheres estão sujeitas diariamente. “Você não é fina o suficiente, você não é jovem o suficiente, você não é leve o suficiente. Isso tudo basicamente diz às mulheres que são insuficientes”, e acrescenta que deseja que as mulheres entendam que elas são bonitas do modo em que são.

Outro motivo para que R+C faça sucesso entre as mulheres é a demanda que existe no mercado para a moda plus size. Smith fala que o mercado está evoluindo, mas ainda falta muito. “Sinto que muitas marcas ficam aquém de fazer mais peças de qualidade, ou mais peças em tudo, por causa do estigma ligado ao peso”. A estilista acredita que as marcas plus size podem fazer melhor, e não há dúvidas de que “Rum + Coke” tem feito roupas melhores para mulheres que estão acima da etiqueta G.

Veja mais fotos:

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Tina Vestido, US $ 65. Foto: Rum + Coke

 

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Toni vestido, US $ 200. Foto: Rum + Coke

 

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Joan Vestido, $ 115. Foto: Rum + Coke

 

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Coke Vestido, $ 115. Foto: Rum + Coke

 

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Neste Natal os cabelos de Larissa resistem

Pentear o cabelo dói, ainda mais quando se tem seis anos e sua mãe não entende como dói na cabeça e na alma aqueles puxões. Larissa é uma das tantas garotinhas que estão sendo violentadas por causa de seu cabelo. Só que dessa vez a Larissa está sofrendo um pouco mais. Todo dia, desembaraçar seu cabelo era uma sessão de tortura seguida de broncas da mãe impaciente. A greve foi declarada, Larissa não permite mais que toque em seus cabelos e a saída que sua vó encontrou foi a de cortá-lo, contra a vontade da menina.

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Foto: Curls, kinks and coils

Essa é uma das tantas violências que Larissa sofrerá ao longo de sua vida devido ao seu cabelo. Sem entender direito porque tudo deve ser tão difícil para ela, a menina pede para que alise seu cabelo com a chapinha. Conheci a sua avó num bico de fim de ano que fiz numa loja de shopping. Enquanto eu embalava presentes, uma senhora de cinquenta anos, branca e loira se aproximou de mim e disse admirar meu cabelo. Já estava preparada para aquele papo chato de que eu pareço alguém da família e que sou uma “negra bonita”. Aquela coisa toda que somos obrigadas a passar quando colocamos os pés fora de casa, porém, dessa vez foi diferente.

Com a voz trêmula contou a história da neta e me pediu ajuda, afinal “como você faz para seu cabelo ficar assim”, perguntou. Atenta, aquela senhora ouviu sobre como pentes são cruéis e mãos são amáveis. Expliquei como deveria cuidar da neta passo por passo. Que cachinhos a gente desembraça no banho com bastante creme de hidratação e com as mãos. Não há muitos mistérios, mas isso eu tive que aprender sozinha depois de muitos anos sofrendo como Larissa.

Com as pequenas mãos, saiu da loja com presentes e a satisfação de ter descoberto como ajudar a neta.  A Lari vai passar o Natal com o cabelo curtinho, mas a sua vovó ciente da representatividade para meninas como ela, prometeu dar bonecas negras e cuidar com muito amor e carinho dos cachinhos da neta. Larissa com apenas seis anos resiste por cabelos livres, lindos, leves e loucos. Sua relação de confiança com as suas origens foram resgatadas.

Neste Natal dê amor e asas para que crianças negras também possam ser o que são. Evite piadas e faça mais elogios, você vai receber de volta o sorriso mais sincero.

Nossos blacks ainda nos levarão longe.

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Projeto de colagens busca retratar a beleza da mulher negra

A Karol Rodriguez é daquelas meninas que o corpo pulsa arte e criatividade. O Ensino Médio ela acabou de concluir, mas já tem se desafiado em outras formas artísticas. Amante do desenho, Karol decidiu se aventurar nas colagens, método de manipulação de fotografias em que se cola umas sobre as outras.

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Para começar, a artista realizou uma série de imagens que busquem valorizar a beleza de mulheres negras focando na individualidade de cada uma. As personagens escolhidas vieram de um grupo em que Karol participa no Facebook, “Arte das Pretas”. Para o processo de criação foram utilizados editores online como o Pixrl e o Editor Express, além do programa Adobe Illustrator.

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Karol conversou com cada menina que desejou retratar e diz que o seu objetivo era o de incentivar a identificação de cada uma como negras. “Acho que o que eu mais queria era mostrar como elas se encaixam dentro delas mesmo, e como se aceitam como pretas, o que não é fácil para todas as minas”, explica.

O projeto ainda está no começo, para janeiro a artista promete fazer mais colagens e dar continuidade nesse trabalho de valorização da beleza negra.

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Festa “Off The Wall” realiza ação contra o preconceito

Existem festas que deveriam colocar no cartaz de divulgação que é open de mordida, beliscão, passada de mão na bunda, elogios que mais parecem xingamentos. Tudo com um forte toque de racismo, machismo e homofobia. Diante aos sucessivos casos de assédio e violência nas festas de Bauru, os organizadores da “Off the Wall” realizaram uma ação especial de divulgação para a próxima edição da festa que está marcada para o dia 16 de janeiro, na Labirinthus International.

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Agnes Sofia Guimarães, estudante de Jornalismo da Unesp, se animou ao saber que a organização do evento possui essa preocupação. Para Agnes, o trauma da violência em que passou numa festa ainda interfere na sua decisão de ir ou não. A estudante conta que ficou com um rapaz que queria força-la a fazer coisas no qual não queria, e por isso, ele a violentou fisicamente e verbalmente. “Ele disse que era muito estranho eu não ser daquelas de ter orgulho da sua sexualidade, afinal eu era negra, um tipo de mulher que se excita com mais facilidade”, relata a estudante.

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“NÃO DEIXEM TE DIZER QUE VOCÊ NÃO TEM ESPAÇO. NÓS SOMOS A RESISTÊNCIA!”

Para Renan Estivan, um dos organizadores da “Off the Wall” é importante que pessoas que passaram por violências de todo tipo em festas, como a Agnes, possam se sentir a vontade. “A gente escolheu essa temática de divulgação, contra o preconceito, para deixar claro o que a festa representa”. Renan conta que também já passou por assédio moral numa festa. “Pela primeira vez na minha vida tive que ir embora mais cedo  porque estava com medo”. O jovem relata que um grupo de rapazes fizeram chacota da fantasia que vestia e isso chegou a assusta-lo. O estudante de Design enfatiza que esse não é o espírito da Off The Wall, e deseja que todos possam “se jogar” na festa sem se preocupar com atitudes violentas.

"A ADORÁVEL LIBERDADE DE AMAR!"

“A ADORÁVEL LIBERDADE DE AMAR!”

A AÇÃO

Com fotos que retratam a quebra de preconceitos, a ação também visa divulgar quais bebidas serão servidas no open bar da festa.  Guilherme Delarmelindo, outro organizador do evento, salienta que é o objetivo é que todos entendam que podem ser quem desejam ser. “Numa festa, geralmente o que mais atrai nosso público é a bebida, então escolhemos a divulgação do open bar para comunicar o que defendemos”, explica. Cada bebida fez referência a algum movimento ou discussão social. A ação conta com imagens sobre a fuga dos padrões de beleza, a luta pelos direitos do movimento LGBT, a luta contra o racismo e da igualdade dos gêneros. Arthur Ferreira, que também é organizador do evento explica que as imagens foram concebidas como um protesto. “Nossa causa é o pop, mas não podemos esquecer-nos dos outros recortes que influenciam nossa diversão”, pondera.

Confira mais imagens que participaram da ação:

"SEU DIREITO É DE SE ACABAR NA PINGA DE SABOR E SE ESBALDAR NO RESPEITO"

“SEU DIREITO É DE SE ACABAR NA PINGA DE SABOR E SE ESBALDAR NO RESPEITO”

 

"LUTE PELO ESSENCIAL!!!"

“LUTE PELO ESSENCIAL!!!”

 

"LIBERTE-SE DOS PADRÕES!"

“LIBERTE-SE DOS PADRÕES!”

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Tem dias que eu só quero que você se foda

Eu fico esperando o cansaço passar olhando o ventilador rodar, enquanto a cortina do meu quarto vai e volta numa suavidade e leveza que eu jamais vou alcançar. Se ao menos esse ventilador conseguisse amenizar o calor, mas nem isso, o vento fica entalado, mas o choro não.

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Foto: Scarlett Binti Jua

Você que anda dizendo que eu vejo racismo e machismo demais por ai, eu quero que se foda. Esses dias eu fiquei com um cara e o amigo dele fez chacota de mim na rodinha de amigos. “É né, pegou a neguinha, isso que é amor de pneu”. Não basta ser preta, tem que ter pneu. Eu passei aquela semana inteira me achando feia e tendo que ouvir de quem mais deveria me apoiar que eu me importo demais com o racismo.

Esse cansaço tem me acompanhado e parece que nunca vai ter fim. Até quem diz estar do meu lado faz de tudo para que eu me canse. Porque vocês não me escutam de uma vez por todas e parem de tentar me convencer de que tal coisa não é racismo? Quando qualquer pessoa vem debater racismo e machismo comigo, está debatendo a minha história e quem eu sou. Às vezes eu fico realmente desesperada porque parece que ninguém vai me entender, só as minas pretas. Tem dias que eu perco a linha e uma simples discussão na mesa do bar me faz correr até o banheiro pra chorar. Eu sei de onde eu falo e porque falo, eu estudo o que eu sou e por isso falo. Apenas respeitem.

Eu estou cansada demais, as minhas amigas estão cansadas demais, e as minhas amigas pretas estão mais cansadas ainda. Às vezes a gente só quer que você nos ouça, ou então, que se foda.

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