Se ao menos essa dor trouxesse o menino de volta

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Foto: Calixto-Nego Júnior

Se ao menos essa dor servisse para bater nas paredes da justiça e abrisse portas. Se ela falasse e não só despenteasse nossos cabelos, mas botasse fogo no país até que ela não existisse mais.

Se ao menos essa dor fosse mais potente que a bala do fuzil. Ela salta fora da garganta como um grito, cai pela janela, faz barulho e morre ali. Se ao menos esse grito descesse o morro, trouxesse o menino de volta.

A dor é um pedaço de pão duro que a gente engole à força e não consegue cuspir de volta. Se essa dor ao menos sujasse os carros, invadisse o espaço do outro, atingisse esse ser que passa indiferente. Que, no escuro, não sofre e diz que não tem o direito de sofrer.

Se essa dor fosse só o punho machucado de tanto socar a parede de pedra. Mas essa dor é visível, é penalizante. Dói com lágrimas, sangra.

“Quando eu corri para falar com ele, ele apontou a arma para mim. Eu falei ‘pode me matar, você já acabou com a minha vida’.”

Se ao menos essa dor trouxesse o menino de volta.

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A ordem é samba

É samba que eles querem? Eu tenho. Mas só vai ter samba porque a ordem é samba e nada mais. Há quem diga que samba está no meu sangue, na minha alma, na minha genética. Somente samba faz de uma mulher negra uma negra. Não ouse dançar flamengo ou balé, porque a ordem é uma só: samba.

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Deixa que digam, mas fica avisado que eu não sei sambar, não. Será que sou negra? Deixa, deixa, eles acreditam que sou melhor na cama, uma máquina de sexo, mas pra madame eu não sirvo, não. Deixaaaaaaaaaaaa!

Pega esse tambor, esse rebolado, entra nas universidades e questiona a ciência. Mostra que não existe raça biológica, que a tão sagrada ciência serviu para escravizar nosso povo. Vai lá, compõe a mesa de congressos e samba mesmo. Vão avisar que aquele não é seu lugar e vão pedir para que volte à África.

Não deixa, não deixa o nosso desejo virar poeira. Um oceano de luta que não pode secar. Eu tenho tanto pra te falar, nem sei por onde começar, mas dessa vez não vou guardar. O seu lugar não é limpando privadas ou servindo madames desembocadas. A gente não sonha sozinha nesse mundo, mas parece que até esse sonho decidiram acorrentar.

É por isso que há tantas mulheres guerreiras, que trazem o samba da lucidez e não abaixam a cabeça. Nosso destino não é insensato, ele é tudo o que podemos desejar. Por favor, não me olhe assim, quando a solidão apertar, olhe pro lado, estaremos todas lá. Olhe mais um pouco, há muitos abraços a te esperar.

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Minha doce Angela Davis

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Tenho um doce anjo negro que me visita todas as noites. Esse doce anjo já me contou sobre quando lutou contra o mundo com apenas treze anos. Tenho uma garota que batalhou por mim e eu nem sabia. Ela não é nenhuma estrela, mas trouxe muita luz para seu povo.

Por mais que digam que anjos não tem sexo, meu doce anjo negro é uma mulher solitária. Colocaram meu anjo na cadeia. Ela esteve em perigo. Essa pequena garota falou ao coração do mundo mesmo não sendo uma cantora pop. O FBI queria pregá-la numa cruz, meu pequeno doce anjo negro.

Ela tem a força de uma pantera e sua garra levou sua palavra longe. Sua voz tem a sonoridade de um trompete de jazz, um bálsamo revolucionário.

Minha doce angela Davis é a professora do povo. Meu doce anjo negro faz hoje 71 anos e toda noite me visita e sussurra em meus ouvidos: “não se prenda, nossa luta é por liberdade”. Minha doce Angela, minha doce Davis.

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Cidades proibidas para mulheres

Se anjos existem, eles se esqueceram das mulheres de Bauru e de todos os cantos do Brasil. Ou talvez escolheram proteger somente as que não saem de casa e não correm perigo. Vai ver o seguro de vida é mais caro para mulheres tidas por “vadia”, como eu. Para prostitutas e mulheres transexuais nem deve passar pela cabeça desses anjos que elas merecem proteção. Por muito tempo pedi a proteção de qualquer entidade divina, mas como o socorro veio em forma de cantadas agressivas, passei a andar durante a noite, quando volto da faculdade, com as chaves entre os dedos.

Foto: Aline Ramos

Quando saí da casa dos meus pais há quatro anos, o maior medo deles era que eu abandonasse a religião que professávamos. Eles tinham razão, tão logo me afastei de casa e comecei a vida em outra cidade, parei de ir à igreja. Viver sozinha em outro lugar fez com que eu tivesse minhas recaídas religiosas e barganhasse a minha fé pela proteção contra qualquer tipo de assédio. Se aquele carro que estivesse me seguindo numa das avenidas principais da cidade parasse de me seguir, eu iria para a igreja no sábado seguinte. Mas fui à igreja e ouvi que as mulheres segundo o coração de Deus são submissas aos homens e relembrei o porquê havia abandonado minha religião. Não voltei mais, e sabendo que não podia contar com a ajuda de homens, anjos e Deus, passei a apertar o passo.

Minhas canelas ardem quando ando por Bauru, tanto pelo calor, como pelo medo. Não há lugar nessa cidade que me faça andar em paz. Não conto para os meus pais que a preocupação deles deveria ser outra, e não a religiosa, mas fico feliz que ainda orem por mim e peçam que os anjos me protejam. Quem sabe são vencidos pelo cansaço. Mas enquanto isso não acontece, tenho que ouvir às dez horas da manhã, do pedreiro da construção da casa ao lado, que meu perfume é bom e que tenho cara de boqueteira. Às vezes, quando vou ao supermercado, eu ouço que sou deliciosa e que me chupariam inteira.

Olha, vou ser franca, se ficassem simplesmente com essas promessas horríveis, eu ficaria tranquila. Acontece que às vezes sou seguida por carros e motos. Certa vez fui parada duas vezes na mesma semana, enquanto voltava da faculdade durante a noite, pelo mesmo rapaz de moto que insistia em saber para onde eu me dirigia. Passei dois meses com pavor de sair de casa e acreditando que alguém estava me seguindo. Porém, isso voltou a se repetir, e eu que achava que o sol forte de Bauru seria capaz de me proteger, fui seguida por dois carros em trinta minutos de caminhada. Além dos anjos terem me abandonado, parece que enviarem demônios para me assustar. E conseguiram.

Eu queria ligar para os meus pais e pedir ajuda, mas tudo o que passei a fazer foi parar de sorrir e falar mais grosso. Pelo telefone, digo a eles que tenho comido mais salada e menos carne. Nem o céu mais bonito do centro oeste paulista é capaz de atenuar o medo que a cidade nos faz sentir. Segundo a Coordenadoria de Análise e Planejamento (CAP) da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), os casos de estupro em Bauru aumentaram 9,6% em 2014. Por mais que esses dados tenham seu lado positivo, já que muitas mulheres têm respondido ao estímulo de denunciarem os abusos em que são vítimas, a sensação de insegurança aumenta e interfere no nosso dia a dia.

Uma notícia recente entristeceu a todas nós, mulheres, nesta semana. Em agosto do ano passado, um caso de estupro coletivo chocou Bauru. Uma garota de 17 anos foi abusada por 10 rapazes, num terreno baldio, durante a festa de comemoração do aniversário da cidade. E mesmo diante de tamanha crueldadade, a justiça local decidiu pelo arquivamento do processo.

No dia 7 de fevereiro, Bauru será palco da III Marcha das Vadias. Desta vez, o tema será “A culpa não é da vítima”, afinal, se os anjos se esqueceram de nós, marcharemos até que tenhamos direito à cidade.

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Todo preto não é igual

Confie em mim, todo negro não é igual não. Até deve ser legal ter uma família gigante, mas aquele negão do outro lado da piscina não é meu pai não. Meu pai é um homem branco e magricelo. Ah vá, não faz essa cara de surpresa que já está ficando feio. A gente pode voltar pro jogo de polo aquático? Vamos focar no sol que dança, na piscina, na criança com o joelho ralado logo ali e no gol que vou fazer agora enquanto você se pergunta se a garotinha de nove anos é minha irmã.

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Foto: Aline Ramos

Ela é bem esperta mesmo, sabe jogar futebol melhor que seu filho que acha que joga no Manchester, mas não sabe dar um passo sem que você aprove. Eu adoraria que essa garotinha com o sorriso tão largo e de uma força tão convicta fosse minha irmã mais nova. Mas não é não. Ela é filha daquele senhor simpático brincando com a outra filha pequena no colo.

Sabe o que eu queria de verdade, que você parasse de perguntar quem é meu parente e quem não é. Mas você não vai parar né? Parece tão estranho ter negros na piscina de um clube que não seja limpando para você nadar? É tão estranho que eu não esteja na cozinha fritando batata frita pra você curtir o domingo com o filhão? Olha, amigo, eu não sei qual é a tua, mas esse papo tá chato demais. Eu só queria dar um mergulho, me refrescar, mas você tem que me aporrinhar.

Tá vendo só, ao menos eu faço gols em você. Aqueles dois garotos adolescentes disseram que vão entrar no time também. Não, não, você não está abrindo a boca para dizer isso novamente, está? Eles não são meus irmãos. Olha, pra mim já deu, vou ali chupar um sorvete, porque você parece não merecer o verão.

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Neste Natal os cabelos de Larissa resistem

Pentear o cabelo dói, ainda mais quando se tem seis anos e sua mãe não entende como dói na cabeça e na alma aqueles puxões. Larissa é uma das tantas garotinhas que estão sendo violentadas por causa de seu cabelo. Só que dessa vez a Larissa está sofrendo um pouco mais. Todo dia, desembaraçar seu cabelo era uma sessão de tortura seguida de broncas da mãe impaciente. A greve foi declarada, Larissa não permite mais que toque em seus cabelos e a saída que sua vó encontrou foi a de cortá-lo, contra a vontade da menina.

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Foto: Curls, kinks and coils

Essa é uma das tantas violências que Larissa sofrerá ao longo de sua vida devido ao seu cabelo. Sem entender direito porque tudo deve ser tão difícil para ela, a menina pede para que alise seu cabelo com a chapinha. Conheci a sua avó num bico de fim de ano que fiz numa loja de shopping. Enquanto eu embalava presentes, uma senhora de cinquenta anos, branca e loira se aproximou de mim e disse admirar meu cabelo. Já estava preparada para aquele papo chato de que eu pareço alguém da família e que sou uma “negra bonita”. Aquela coisa toda que somos obrigadas a passar quando colocamos os pés fora de casa, porém, dessa vez foi diferente.

Com a voz trêmula contou a história da neta e me pediu ajuda, afinal “como você faz para seu cabelo ficar assim”, perguntou. Atenta, aquela senhora ouviu sobre como pentes são cruéis e mãos são amáveis. Expliquei como deveria cuidar da neta passo por passo. Que cachinhos a gente desembraça no banho com bastante creme de hidratação e com as mãos. Não há muitos mistérios, mas isso eu tive que aprender sozinha depois de muitos anos sofrendo como Larissa.

Com as pequenas mãos, saiu da loja com presentes e a satisfação de ter descoberto como ajudar a neta.  A Lari vai passar o Natal com o cabelo curtinho, mas a sua vovó ciente da representatividade para meninas como ela, prometeu dar bonecas negras e cuidar com muito amor e carinho dos cachinhos da neta. Larissa com apenas seis anos resiste por cabelos livres, lindos, leves e loucos. Sua relação de confiança com as suas origens foram resgatadas.

Neste Natal dê amor e asas para que crianças negras também possam ser o que são. Evite piadas e faça mais elogios, você vai receber de volta o sorriso mais sincero.

Nossos blacks ainda nos levarão longe.

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Tem dias que eu só quero que você se foda

Eu fico esperando o cansaço passar olhando o ventilador rodar, enquanto a cortina do meu quarto vai e volta numa suavidade e leveza que eu jamais vou alcançar. Se ao menos esse ventilador conseguisse amenizar o calor, mas nem isso, o vento fica entalado, mas o choro não.

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Foto: Scarlett Binti Jua

Você que anda dizendo que eu vejo racismo e machismo demais por ai, eu quero que se foda. Esses dias eu fiquei com um cara e o amigo dele fez chacota de mim na rodinha de amigos. “É né, pegou a neguinha, isso que é amor de pneu”. Não basta ser preta, tem que ter pneu. Eu passei aquela semana inteira me achando feia e tendo que ouvir de quem mais deveria me apoiar que eu me importo demais com o racismo.

Esse cansaço tem me acompanhado e parece que nunca vai ter fim. Até quem diz estar do meu lado faz de tudo para que eu me canse. Porque vocês não me escutam de uma vez por todas e parem de tentar me convencer de que tal coisa não é racismo? Quando qualquer pessoa vem debater racismo e machismo comigo, está debatendo a minha história e quem eu sou. Às vezes eu fico realmente desesperada porque parece que ninguém vai me entender, só as minas pretas. Tem dias que eu perco a linha e uma simples discussão na mesa do bar me faz correr até o banheiro pra chorar. Eu sei de onde eu falo e porque falo, eu estudo o que eu sou e por isso falo. Apenas respeitem.

Eu estou cansada demais, as minhas amigas estão cansadas demais, e as minhas amigas pretas estão mais cansadas ainda. Às vezes a gente só quer que você nos ouça, ou então, que se foda.

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Posso te apresentar para um amigo gringo? Não

Vem cá, vamos combinar uma coisa. Eu sou neguinha, preta, pretinha, negra, nega, seu bem, seu mal, tudo o que eu quiser ser, menos mulata exportação. Estamos combinados? Eu sei que você não está falando por mal, então por isso estou vindo aqui explicar com paciência. Você consegue entender que me chamar de mulata e de exportação não é elogio? Eu não gosto de ser comparada com mula e muito menos com um produto sexual a ser exportado.

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“Samba” (1925) – Di Cavalcanti

Tá, tudo bem, você não é uma pessoa ruim, mas isso não te impede de ser racista às vezes né? Quando eu ia a igreja ouvia que pra combater o mau a gente tem que chamar o pecado pelo nome. Eu acho que o mesmo é com o racismo, a gente tem que chamar pelo nome. Chamar uma mulher negra de mulata é racismo, e de mulata exportação é racismo e machismo, um combo pra acabar com a minha noite no samba.

Aquele samba era samba de branco, isso dá pra passar. O que mais incomodava era a cerveja cara e a falta de espaço para sambar. Até que uma moça simpática (e branca) cheia dos amigos gringos achou que seria bacana me apresentar pra todos eles. Ela dizia amar meu jeito de dançar, minha cor e meu cabelo. Ela dizia gostar da minha cultura, da história do meu povo e até ficou surpresa quando me viu arranhando no inglês. Ela gostou tanto de mim que até quis me vender pros seus amigos gringos.

– Você é uma mulata exportação linda. Posso te apresentar para um amigo gringo?

– Não, não pode.

Tive que ouvir que sou grossa e eu só queria sambar e comer um caldinho de feijão.

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Eu sou neguinha?

Foto: Rodrigo Azevedo

Foto: Rodrigo Azevedo

Eu agradecia a Deus por meu pai ser branco e não ter nascido neguinha. Eu gostava de ser morena, afinal, não era tão ruim como ser neguinha. Eu olhava minhas amigas conhecidas como “escurinha” e sentia um alívio por não ser tão feia quanto elas, as verdadeiras neguinhas.

Durante a adolescência namorei um cara que queria me chamar de neguinha, mas eu disse “não sou tuas negas” e pedi para evitar esse carinho. Até que, com 18 anos, após sair de uma depressão braba, cortei os cabelos alisados e assumi os cachos. Um mês depois. Enquanto eu andava perdida por Blumenau. Um senhor passou por mim e disse com todo o nojo possível “neguinhaaa”. Eu procurei ao meu redor, mas era só eu e ele na rua, eu olhei para mim e fiz a mesma pergunta da música cantada pela Vanessa da Mata: “eu sou neguinha?”.

Eu era um enigma, uma interrogação. Fiquei sem reação e com vergonha por talvez ser neguinha. E cada piada na rua, sobre meu cabelo, parecia bobagem, mas não era não. Eu não decifrava, eu não conseguia, mas aquilo ia, e eu ia, e eu ia, e eu ia, e eu ia. Eu me perguntava e resistia. Até que meu primeiro professor negão, logo que me viu exclamou que eu era a Angela Davis brasileira. Procurei no Google quem era essa tal de Angela Davis, porque nas aulas de História ninguém tinha me contado quem era, e então fiquei me perguntando: eu sou neguinha? Eu sou neguinha? Sou neguinha. Eu sou neguinha? Sou neguinha.

Enfim descobri que estava em Madureira, estava na Bahia, no Beaubourg, no Bronx, no Brás. E eu, e eu, e eu, e eu, eu sou só 5% dos jornalistas negros do Brasil, segundo levantamento realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em 2012. Eu sou o percentual de negros entre os jornalistas que são inferiores à metade da presença de pretos e pardos no país. Eu sou a mulher negra invisibilizada na mídia brasileira e que só aparece no Carnaval. Eu sou a minha voz, mas eu também quero saber quais são as negas que tanto esconderem de mim e que eu também sou. Quais são as mulheres que invadem, machucam, maltratam e fundem a cuca? Que nega é essa? Eu sou neguinha.

 

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