A ordem é samba

É samba que eles querem? Eu tenho. Mas só vai ter samba porque a ordem é samba e nada mais. Há quem diga que samba está no meu sangue, na minha alma, na minha genética. Somente samba faz de uma mulher negra uma negra. Não ouse dançar flamengo ou balé, porque a ordem é uma só: samba.

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Deixa que digam, mas fica avisado que eu não sei sambar, não. Será que sou negra? Deixa, deixa, eles acreditam que sou melhor na cama, uma máquina de sexo, mas pra madame eu não sirvo, não. Deixaaaaaaaaaaaa!

Pega esse tambor, esse rebolado, entra nas universidades e questiona a ciência. Mostra que não existe raça biológica, que a tão sagrada ciência serviu para escravizar nosso povo. Vai lá, compõe a mesa de congressos e samba mesmo. Vão avisar que aquele não é seu lugar e vão pedir para que volte à África.

Não deixa, não deixa o nosso desejo virar poeira. Um oceano de luta que não pode secar. Eu tenho tanto pra te falar, nem sei por onde começar, mas dessa vez não vou guardar. O seu lugar não é limpando privadas ou servindo madames desembocadas. A gente não sonha sozinha nesse mundo, mas parece que até esse sonho decidiram acorrentar.

É por isso que há tantas mulheres guerreiras, que trazem o samba da lucidez e não abaixam a cabeça. Nosso destino não é insensato, ele é tudo o que podemos desejar. Por favor, não me olhe assim, quando a solidão apertar, olhe pro lado, estaremos todas lá. Olhe mais um pouco, há muitos abraços a te esperar.

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5 em 50: Egito e Índia pelo olhar de duas brasileiras

O mundo é seu, o mundo é meu e também é da Giovanna Falchetto e da Fernanda Bichuette. As duas contaram um pouco do intercâmbio que fizeram pela AIESEC no evento “5 em 50” na Unesp de Bauru. Além de realizarem um sonho, as universitárias puderam trabalhar como voluntárias em projetos de impacto social nos países em que visitaram. A Giovanna foi para o Egito e a Fernanda para a Índia.

As mulheres cada vez mais têm rompido barreiras e conquistado um espaço maior no mundo, entretanto, nem todo lugar é seguro para elas. As brasileiras são tratadas de maneira extremamente sexualizada, mas quando falamos de Egito e Índia a situação é mais complicada. Segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Thompson-Reuters, o Egito é considerado o pior país para mulheres do mundo árabe. O estudo mostrou que o assédio sexual, mutilações dos genitais e tráfico de mulheres são recorrentes e torna o país um lugar inseguro. Giovanna conta que a mulher brasileira ainda é vista de maneira estereotipada, mas afirma que a sua maior dificuldade foi por ser mulher e não brasileira. “A situação da mulher no Egito é horrorosa, o Feminismo sangra lá de tanto que as mulheres são submissas”, aponta a estudante.

A situação não é diferente na Índia, um país onde um grupo de mulheres é condenado a uma vida de humilhações e de violência desde o nascimento. Há uma divisão social bastante rígida definida pelas castas. Quem nasce na camada mais baixa é chamado de ‘dalit’ ou ‘intocável’, mas o nome não significa privilégio algum. Os ‘intocáveis’ não têm direitos e são vítimas de todo tipo de agressão, especialmente as mulheres. Algumas chegam a ser atacadas com ácido e estão expostas a agressões, assédios e estupros a todo o momento. Fernanda não passou por situações como essa, pelo contrário, foi muito bem tratada. “Entrei em muita festa de graça pelo simples fato de ser brasileira”, conta.

Romper essas barreiras por serem mulheres mostra como a viagem de Giovanna e Fernanda foi especial. Pedimos para as duas listarem cinco coisas que a impressionaram e adoramos o resultado. Vejam a lista:

5 coisas incríveis sobre o Egito por Giovanna Falchetto

  1. A Intensidade das pessoas. Os árabes são muito intensos no modo de se relacionar. Falam muito rápido e gesticulam muito. Fazem amizade rápido e acolhem um estrangeiro de forma surpreendente, fazem de tudo pra você se sentir em casa e bem.
  1. A praia de Dahab. O lugar mais bonito em que já fui na vida.

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  1. Monte Sinai. Apesar de não ter religião definida, tenho muita fé e ter estado nesse lugar significou muito pra mim.
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  1. A troca de valores e cultura que tive por estar trabalhando com mais de 70 pessoas de países diferentes.
  1. A energia do lugar. Acredito muito em energias que se trocam e se completam e no Egito senti isso de forma inexplicável.

5 coisas incríveis sobre a Índia por Fernanda Bichuette

  1. A comida. Eu engordei 7kgs lá na Índia. A comida é EXTREMAMENTE apimentada. Eu já sabia que ia me deparar com isso, mas achei que dava pra engolir. Como para conseguir comer eu tinha que beber mais de 1l de água eu acabei comendo muito fast food.
  1. As pessoas. Esse é um idoso Sikh, religião mais fofa da Índia. Eles simbolizavam simpatia e receptividade pra mim. Sempre muito dispostos a me ajudar. E não era diferente com as outras pessoas de lá. Nunca me senti tão bem recebida em um lugar! Quando eu saia, era mais de dez pessoas pedindo para tirar foto pelo simples fato de eu ser de outro país.
  1. Fronteira Índia-Paquistão. Estive em uma cidade em que haviam jogado uma bomba na semana anterior a minha visita. Fiquei sabendo depois que fui embora. E que bom! Consegui aproveitar muito e foi um dos eventos mais incríveis. Índia de um lado do portão, Paquistão do outro. Cada um com seu grito de “guerra”, mas de forma pacífica. Foi lindo de ver. Chamaram as mulheres indianas para dançar e eu fui também. Com certeza, meu “aha moment” da viagem toda!
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  1. Templo de Lotus. 8 religiões em um Templo só. Isso demonstra muito a tolerância e diversidade religiosa que me encantou por lá. Todos se respeitam muito. Dentro desse templo, senti uma paz indescritível. Lá dentro tem um altar sem imagem alguma e alguns bancos. Estar lá foi uma das minhas melhores experiências no país e considero esse Templo o mais incrível lugar de Nova Deli.
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  1. Cerimônia religiosa na beira do Rio Ganges. No meu primeiro final de semana fui viajar e acampar na beira do Rio Ganges. Ao fim do dia, participei de uma cerimônia religiosa em sua margem. Foi naquele momento que senti, de vez, que estava na Índia. Mais de 300 pessoas cantando em uma só voz e demonstrando sua fé. Foi demais!

Gostou das histórias? Giovanna e Fernanda participam com outros jovens da AIESEC Bauru, a instituição que organizou as viagens que realizaram. Para conhecer mais da instituição acesse o site ou entre em contato pela página no Facebook.

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Os homens é que precisam do Feminismo

Ao saírmos do armário do feminismo e comunicarmos para as pessoas próximas que não vamos mais tolerar certos tipos de piadas, é como se a terceira guerra mundial começasse em nossa vida. Lembro que a primeira vez que me assumi publicamente como feminista foi em 2011, num post no Facebook. De lá para cá, muita coisa mudou na minha vida e nos meus relacionamentos.

Assumir-se feminista é entender que todos os homens, inclusive os que você mais ama, são machistas. Colocar-se numa postura crítica é um processo doloroso de ambas as partes, nem todos os relacionamentos sobrevivem. Num momento cheguei a acreditar que perderia meus melhores amigos e que a situação com o meu pai ficaria insustentável. Entretanto, eles entenderam algo que poucas pessoas assimilaram: o Feminismo não precisa dos homens, são os homens que precisam do Feminismo.

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Foto: Diogo Zacarias

Explicar o Feminismo aos homens foi uma tarefa árdua. Em 2011, minhas referências feministas na internet eram só a Lola, com o blog “Escreva Lola”, e a Nádia Lapa, com o polêmico “Cem homens”. Não existiam coletivos feministas na minha universidade e as mulheres não eram lá muito minhas amigas.

Foi uma fase bastante difícil. Frequentemente, eu terminava as noites brigando com os caras nos fins de festas ou chorando nas mesas de bar porque não conseguiam entender que piadas e comportamentos machistas, com qualquer mulher que fosse, me ofenderiam. Hoje, compreendo que não precisava ter me desgastado tanto, mas uma coisa ficou clara: eu não necessito do aval deles. A estratégia que assumi foi a de mostrar como eram eles que precisavam do Feminismo, e deu certo.

Certa vez, o meu melhor amigo me surpreendeu ao dizer que ensino coisas a ele mesmo quando estou conversando sobre banalidades da minha vida. E agradeceu dizendo que hoje ele é um homem melhor porque compreendeu o Feminismo e é capaz de tratar todas as pessoas de maneira igual e respeitosa. Atualmente, alguns pedem para que eu os alerte quando emitirem alguma opinião machista ou racista. Lembrando que ter esta postura não é obrigação de nenhuma feminista.

Entendam de uma vez por todas: o machismo não é um problema nosso, mas dos homens. São eles que oprimem e continuam reforçando para si padrões de um regime masculino no campo estético, comportamental e social. O diálogo, a reflexão e a mudança de postura são necessários entre todas as pessoas.

E não, o Feminismo não precisa dos homens. Passar bem.

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Qual é o lugar da mulher negra na web?

Perante um mercado de mídias digitais emergentes, temas como feminismo, movimento negro e outras causas sociais têm ganhado notoriedade dentro da sociedade. Com o intuito de debater a presença feminina na internet, o Sesc Bauru, em parceria com o Blogando, realizou o evento “Conectando Possibilidades – O espaço da mulher na web” nesta quinta (12). O bate-papo foi guiado por Clara Averbuck e Mari E. Messias, do blog “Lugar de Mulher”.

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O baixo custo de produção é um facilitador para que recursos digitais como blogs, redes sociais e aplicativos para smartphones propiciem importantes discussões sobre temas políticos e sociais. Com mais de 46 mil likes em sua página no Facebook, o blog “Lugar de Mulher” serve como exemplo para esta realidade e é referência para feministas por apresentar textos didáticos que explicam questões que são tabus para a sociedade.

Apesar da internet não ser o principal meio de comunicação de massa, seu apelo popular é cada vez mais evidente. A força política é demonstrada nos momentos em que veículos tradicionais como a televisão e os impressos são pautados pelas redes sociais. Recentemente, o programa matinal “Encontro com Fátima”, da TV Globo, entrevistou as administradoras da página do Facebook “Faça amor, não faça chapinha”, importante projeto que aborda o processo de transição capilar para meninas de cabelos crespos e cacheados.

A interferência da web em nosso cotidiano e nas formas de nos relacionarmos coloca em xeque termos como “ativismo de sofá”, referência a uma forma de atuação política preguiçosa e que não possui efeitos na vida real. A bauruense Ana Karolina Lombardi criou o blog “Caraminholas de Karola” em 2011 como uma espécie de diário virtual, mas adotou um tom  político ao seu trabalho após o processo de transição capilar em que assumiu seus fios naturais. “Se não existirem esses lugares, nós mesmas temos que estar preparadas para abrir os espaços necessários e nos fazer ouvir”, reflete Ana Karolina.

 

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Karol Lombardi do “Caraminholas de Karola”. Foto: Arquivo pessoal

O ano de 2013 foi marcado por diversos acontecimentos no cenário digital. Em relatório divulgado pela empresa comScore em maio de 2014, o alto engajamento dos brasileiros se mostrou uma realidade, com grande utilização de dispositivos móveis e aplicativos. Além disso, observou-se o fortalecimento das redes sociais e o aumento da rentabilidade da publicidade na internet gerada por novas funcionalidades como vídeos de curta duração e transmissões via streaming.

O coletivo “Blogueiras Negras” aproveitou a onda e em 2014 realizou uma sequência de vídeos em oposição ao seriado “Sexo e as Negas”, transmitido pela TV Globo. Acusada de racismo, a produção apresentou a mulher preta de maneira sexualizada, principal estigma que recai sobre ela desde o período da escravidão no Brasil. A websérie “As nêga real” trouxe diversas negras para debater e problematizar a atração. A mobilização gerada pelo coletivo ganhou tanta força na rede que não se cogita mais uma segunda temporada para o programa global.

Em dezembro de 2014, a comScore registrou 65,5 milhões de espectadores únicos de vídeos online no Brasil, número que representa 86,5% do total de internautas no país. Neste cenário, vlogs sobre cabelos e estética negra ganharam força. A alagoana Rayza Nicácio possui um canal no Youtube em que mais de 250 mil meninas acompanham suas dicas para cabelos cacheados. O trabalho da estudante de Comunicação é voltado para que mais mulheres possam assumir seus fios naturais. Também referência neste nicho, Joyce Carter tem mais de 30 mil assinantes que seguem seus vídeos com dicas capilares, de maquiagem e de moda.
Letícia Abreu, de 21 anos, criou o blog “Letícia fez um blog” para abordar assuntos variados como música, moda e a sua atuação no movimento Hip Hop da cidade de  Bauru (SP). Assim como o “Caraminholas de Karola”, o espaço passou a tratar de assuntos políticos como feminismo negro após a transição capilar da autora. Letícia acredita que fazer ativismo na internet é algo fundamental. “Hoje em dia, tudo gira em torno da internet, as pessoas estão cada vez mais conectadas”, aponta a baurense, que também entende ser muito importante valorizar a mulher negra, pois não existem muitos blogs sobre a temática.

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Letícia Abreu do “Letícia fez um blog”. Foto: Arquivo pessoal

Para Ana Karolina Lombardi, não bastam apenas espaços para abordar estética. A blogueira entende ser necessário estabelecer debates sobre machismo e racismo. “Quando se trata do feminismo negro e periférico, do aborto e da saúde pública na periferia, e de assuntos que englobam unicamente a mulher negra que vive em comunidades, a pesquisa se torna desgastante, pois não há tantos blogs que falem sobre isso”, critica a estudante de Letras.

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Depressão não é fraqueza, Boninho

Tamires é uma mulher amável, mãe e simpática. Dentro da casa do Big Brother Brasil 15, não tinha inimigos, todo mundo gostava dela. Mas as coisas passaram a desandar quando Tamires passou a demonstrar que possui distúrbios alimentares.

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Era frequente Tamires ficar nervosa, comer compulsivamente e depois passar mal. A crise de choro era certa, a participante se sentia culpada e frustrada por não conseguir superar sozinha o distúrbio. O ritual passou a ser frequente e Tamires ficou com a fama de chorona.

Poucos brothers entenderam a gravidade dos problemas que Tamires enfrentava. Alguns tiravam sarro na frente da moça. Luan se tornou uma espécie de fiscal da boca alheia, sabia quantas vezes Tamires havia repetido as refeições e contava isso para os amigos. Na realidade, Luan é o grande fiscal das mulheres na atual edição do programa. Além de controlar a boca de Tamires, sabia quantas vezes Amanda olhou para Fernando. A única coisa que o brother não sabe fazer é controlar a própria língua.

O desespero de Tamires aumentou após a festa na madrugada de sexta-feira (6). Bêbado, Rafael investiu na participante. Insistiu no beijo, Tamires ponderou, fugiu, mas acabou beijando o rapaz que até dias anteriores estava num relacionamento com Talita, que saiu na última terça-feira (3).

O dia seguinte não foi só de ressaca, mas de culpa. Rafael, que não lembrava de nada do que aconteceu, ficou sabendo por outro participante que flertou com Tamires. Na conversa para confirmar o que rolou na noite anterior, o rapaz deu a entender que a culpa era de Tamires, que foi até o quarto onde ele estava deitado.

Tamires reclamou do que o brother disse a ela, e com o passar do tempo começou a ficar preocupada com o que pensariam do ocorrido. Ciente de que a culpa é sempre atribuída à mulher quando um homem trai sua parceira, Tamires ficou abalada. As crises de choro passaram a ocorrer com maior frequência, até que na madrugada do domingo (8) ameaçou se matar com uma faca caso não conseguisse sair do programa.  Após testar se a porta da casa estava realmente fechada, a jovem desabafou: “Não aguento mais, estou desesperada”.

O desespero ficou mais forte, Tamires disse que perdeu totalmente suas forças, arrumou a mala e se dirigiu ao confessionário ainda na tarde de domingo (8). Algum tempo após sua desistência, a voz de Boninho avisou que sair do Big Brother Brasil é fácil, e acrescentou que “quem sai é desistente, é perdedor. Quem foi eliminado lutou até o final. […] Quem quiser sair é super simples. É só colocar a malinha lá no confessionário e pum, morreu pra gente. […] Quem quiser sair, nenhum problema. Se a gente quiser colocar outra pessoa na casa também é fácil. A gente tem um bilhão de pessoas que querem entrar. Pensem nisso”.

Diferentemente do que afirma o diretor do programa, Tamires não é fraca. É uma mulher que enfrenta uma sociedade machista que impõe constantemente às mulheres um padrão de beleza cruel. Tamires não é fraca, resiste ao controle extremo de sua sexualidade e ao desafio constante de ser mulher. Não há problema nenhum em pedir para sair e cuidar de sua saúde.

Infelizmente, na nossa cultura machista acredita-se que apenas homens são fortes, não se quebram, não se abatem e não choram. Uma das coisas mais comuns que se ouve na psiquiatria, que homens costumam dizer, é que os problemas psiquiátricos, principalmente a depressão, são sinais de fraqueza.

A atitude da produção do reality show não é nenhuma surpresa, mas no Dia Internacional da Mulher, o Big Brother Brasil mostrou porque a data não é de festa. Tamires, vem cá, do lado de fora tem um montão de mulheres prontas para te abraçar.

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Apresentação de Beyoncé no Grammy homenageia jovens negros assassinados

A edição deste ano do Grammy Awards foi palco de uma homenagem especial ao filme “Selma – Uma Luta Pela Igualdade”. Beyoncé, Common e John Legend foram os artistas responsáveis por este momento, certamente o mais bonito da tradicional premiação musical realizada na noite do último domingo (8), em Los Angeles, nos Estados Unidos.

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A apresentação do trio teve início com rainha Bey, que interpretou “Take My Hand, Precious Lord”. Em seguida, Common e Legend subiram ao palco para cantar “Glory”, premiada na categoria de “Melhor Canção Original” no Globo de Ouro 2015.

A performance de Beyoncé foi embalada por um dos destaques da trilha sonora de “Selma”, filme indicado a duas categorias do Oscar 2015 e que conta a história de Martin Luther King, pastor protestante e ativista social pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. A canção “Take My Hand, Precious Lord” (“Pegue minha mão, precioso Senhor”, em tradução livre) foi composta por Thomas A. Dorsey (1899-1993) e é considerada um hino pelos cristãos norte-americanos. Em sua belíssima apresentação, Bey contou que ouviu a música pela primeira vez na voz de sua mãe, que a levava à igreja quando criança.

O tributo ao filme se torna ainda mais especial se considerado o contexto em que foi realizado. Em 2014, o jovem Mike Brown foi assassinado covardemente a tiros por um policial em Ferguson, no estado Missouri (EUA). O crime desencadeou uma série de manifestações em resposta a brutal violência do Estado contra a população negra e acirrou a tensão racial no País.

Enquanto Ferguson ainda chora pelo sangue derramado, Beyoncé subiu ao palco do Grammy acompanhada de homens pretos para cantar a dor de toda a comunidade negra do mundo. Sua performance representou uma espécie de prece pelos mortos de seu povo, sua canção serviu para relembrar que os seus irmãos e irmãs de cor seguirão de punhos erguidos e lutando.

Em seu site oficial, a deusa divulgou um vídeo com os bastidores de sua performance no Grammy e aproveitou para destacar a importância e os significados de sua apresentação.

“Meus avós marcharam com Martin Luther King e meu pai fazia parte da primeira geração de homens negros que frequentavam uma escola só de brancos. Meu pai cresceu com um monte de traumas por causa dessas experiências. Eu sinto que agora posso cantar por sua dor, eu posso cantar pela dor dos meus avós e eu posso cantar pelas famílias que perderam seus filhos”, contou.

Ao final de sua apresentação, Bey ainda agradece: “Obrigado, rapazes”. E nós somos gratas a ela por dar voz a nossa dor. A música é uma arma poderosa, e os músicos negros norte-americanos nunca deixaram de cantar e clamar pela salvação de seu povo e pelo fim de todas as injustiças. A mensagem de Fela Kuti repercute.

Veja a performance no Grammy e o vídeo especial sobre a apresentação. 

 

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Uma tigresa com lábios de Ana e pele cor de mel

A Ana Carolina é o doce tiro silencioso. É beleza e uma certeza inabalável que o mundo é dela. Já o Adriano Bueno é o amigo talentoso que consegue retratar personalidades fortes por meio da fotografia. Os dois se reuniram num parque de diversões itinerante que passava por Bauru (SP), cidade em que moram para realizar esse ensaio fotográfico inspirador.

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Foto: Adriano Bueno

Ana encarnou um personagem  hipster com elementos góticos. “Tentei ser um pouco blasé com uma mistura de quem quer estar morta, mas que ainda assim se diverte num parque de diversões”,  brinca com o meme. Sendo uma mulher negra, a atitude blasé, de ignorar certas coisas que acontecem no mundo, nos traz a impressão de que Ana é forte. Por isso vemos nela a figura da mulher negra em sua completude: doce, guerreira, alegre, resistente, uma tigresa.

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Foto: Adriano Bueno

O figurino foi montado pelos dois amigos. A saia eles encontraram num brechó, já o top é do acervo pessoal do Adriano e a maquiagem da própria Ana.

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Foto: Adriano Bueno

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Foto: Adriano Bueno

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Foto: Adriano Bueno

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Foto: Adriano Bueno

 

 

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Um rolê pra se divertir, dar uma tumultuada, dar uns beijos, conhecer novos amigos e tirar várias fotos

Minhas canelas ardiam de tão rápido que andava. Caminhar até o centro da cidade sozinha, numa sexta à noite não é tão aconselhável. A cada prostituta que eu encontrava nas esquinas, a cada provocação dita pelos carros que passavam, a cada cantada na rua, me entreguei. Eu não sabia mais a quem temer. Responda, do que você sente tanto medo?

Responde, Aline, a quem você teme? Se a cidade não é sua, ela é de quem? Da travesti que anda com uma faca na bolsa porque toda noite sabe que talvez não volte pra casa, não é. Dos dois homens negros que me ultrapassaram, de chinelo no pé, muito menos. Dos cinco adolescentes que saltaram do ônibus, também não. É claro que não! Era a eles, esses meninos do ônibus, que gostaria de encontrar. Desde dezembro de 2013 isso havia ficado muito claro: a cidade e o shopping não pertencem aos adolescentes que só querem se divertir, dar uma tumultuada, dar uns beijos, conhecer novos amigos e tirar várias fotos.

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Foto: Wilian Olivato

Ao longo de 2014 o debate sobre os rolezinhos e a presença de adolescentes vindos das periferias nas regiões centrais das cidades pipocaram e o movimento tomou proporções ainda maiores. Foi nesse período que conheci os adolescentes de Bauru que enfrentaram dura repressão policial e até hoje estão ocupando praças e ruas da cidade.

Atualmente, em várias regiões do país os “rolezeiros” estão passando por um processo de criminalização e a Justiça tem proibido que transitem pelos shoppings sem seus responsáveis legais. Esse é o caso de Franca que em liminar publicada nesta terça-feira (3) no Diário de Justiça Eletrônico (DJE), a juíza Julieta Maria Passeri de Souza, determinou que adolescentes com idade até 18 anos só poderão entrar nas dependências do centro de compras da cidade acompanhados pelos pais ou responsáveis. Na última semana dois estabelecimentos de Cuiabá também passaram a proibir a entrada de menores desacompanhados dos responsáveis.

A situação de Franca é a mesma de Bauru, os “rolezinhos” não são novidade, há muitos anos os adolescentes se reuniam nesses espaços de lazer. Entretanto, o que há de diferente é que cada vez mais as barrerias sociais invisíveis que afastavam a periferia desses centros comerciais tem sido rompida e a reação é a criminalização.

Foi o que pude presenciar em janeiro de 2014 quando me aproximava do Boulevard Shopping Nações de Bauru. Pelo caminho muitos adolescentes surgiam na minha frente. Eu estava indo na direção oposta ao “rolezinho”, que atravessava a avenida correndo. Viro a esquina e a cavalaria da Polícia Militar me recepciona. A mim não, o objetivo deles não era recepcionar ninguém ali, mas expulsar. Bombas de efeito moral pra dispersar os adolescentes que tomavam a rua, cavalaria pra fazê-los andar mais rápido e revista policial num grupo de dez meninos, pra dar um susto.

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Foto: Wilian Olivato

“Eles podem nos revistar o quanto for, não vão encontrar nada. Não temos nada de drogas, não somos bandidos, mas afinal, quem é você?”, perguntou o menor C.A., de 17 anos. Jefferson Guilherme, já tem 19 anos, podemos chamá-lo pelo nome, e quer que todos saibam que o que está acontecendo é uma injustiça. “Anota ai, vai sair no jornal mesmo? Estamos sendo injustiçados. Eu trabalho a semana inteira e não posso curtir o final de semana com os meus amigos de boa?”. Márcio Aparecido, 18 anos, explica: “eles estão pegando no pé dos menores que estão bebendo, mas isso não é motivo pra revistar a gente, né?”. E sentencia: “aqui ninguém está vendendo bebidas para eles, o problema não é nosso”. Jefferson lembra “estamos fazendo o nosso rolezinho há anos, nunca incomodamos ninguém, porque agora decidiram partir pra cima?”.

A explicação pro Jefferson e para todos os adolescentes que se perguntavam o que estava acontecendo, saiu na imprensa bauruense durante a semana: “Rolezinho tem mutirão contra álcool”; “Bauru diz ‘não’ à truculência nos shoppings”. O plano foi bolado pela SEBES (Secretaria de Bem Estar Social) que em reunião com lideranças da cidade, concluiu que seria preciso intervir. Após a onda de rolezinhos em shoppings na cidade de São Paulo, todo o país passou a temer o que muitos têm chamado de “movimento”. Em Bauru, os Shoppings anunciaram que agiriam com cautela e a SEBES, preocupada, desejava punir todo maior de idade que induzisse menores a beber. Além do mutirão contra o abuso alcoólico entre menores, em parceria com o Ponto de Cultura “Acesso Popular”, um palco foi providenciado para a Praça Rui Barbosa. Desde às 19h diversos artistas locais ligados ao Hip Hop subiram no palquinho. A polêmica surgida na capital chegou ao interior e expôs uma ferida aberta há anos.

Com a falta de opções de lazer e entretenimento, com o aumento econômico da classe C, o interior já presenciava diversos rolezinhos no estado de São Paulo. Não é de hoje que adolescentes se reúnem em praças, parques, proximidades de shoppings para beber. Em Bauru, há dez anos é possível presenciar o fenômeno. Tudo começou no Bauru Shopping, localizado na área nobre da cidade. Os adolescentes se dividiam pela noite entre o supermercado Wallmart, Shopping e Habib’s. Em nenhum dos locais podiam ficar. Os vizinhos reclamavam, a Polícia Militar chegava de cavalaria e os expulsava. Quando o Boulevard Shopping Nações foi inaugurado em novembro de 2012, o rolezinho mudou para lá e se alongava até a Praça Rui Barbosa.

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Foto: Wilian Olivato

Enquanto caminhava do Shopping até a praça, atrás de mim, três adolescentes perguntavam “O que você quer novinha?”. Percebi que não haveria como fugir das investidas do grupo, então negociei. Uma foto, alguns goles de pinga e em troca eu falaria meu nome e o que fazia com uma câmera fotográfica em mãos. Negociação consumada, cachaça entornada, Orlando Neto, de 23 anos, analisava a situação. “Eles querem que a gente vá para a Praça, não querem que a gente fique nas proximidades do Shopping, acreditam que lá não seja o nosso lugar”. Outro grupo passa, um deles pede uma foto, uma voz entre eles brada “Pra que você vai tirar foto nossa? Pra chamar de marginal depois? Eu não deixo”. Enquanto este cobria o rosto, o restante buscava a melhor pose.

Orlandinho não me deixava esquecer dele. “Ei, mas você vai me passar seu Whatsapp?”. Dançarino desde os 15 anos, explica que a música pra ele é algo que vai além de todas as questões técnicas. “A música boa é aquela que toca o coração”. A relação é clara, emoção e dança, Orlandinho só dança se sente a música. Explica que isso se aplica a qualquer estilo musical. Apesar de saber dançar axé, pagode, o grupo que formou há poucas semanas, “Bonde do Prazer”, é de funk. Formado por ele, duas meninas e o MC Gui, que além de puxar a música, vai se aventurar na dança, o Bonde do Prazer já tem duas apresentações agendadas. E Orlandinho está animado para o ano. “Já fiz minha matrícula na faculdade de Direito, quero poder ajudar os irmãos que são presos injustamente”. Enquanto contava seus planos pro ano, entre shows, faculdade e trabalho, Orlandinho me puxa pelo braço e diz “vem cá, não vamos passar no mesmo lado da rua que esses ‘gambés’”. No nosso português chato, “gambé” é PM (Policial Militar).

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Foto: Wilian Olivato

Já na praça, encontro vários meninos e meninas que corriam da cavalaria alguns minutos antes. A tempestade havia passado e os policias no entorno da praça não adentravam no ambiente. Estavam nos quatro cantos, um verdadeiro cerco montado. Mas a presença das viaturas não inibiu a ninguém. A dança, o xaveco, as fotos, o rolezinho não parou. Em cima de uma mureta estava parte da “família” Castellamare. Quem disse que o rolezinho não é um ambiente familiar? Alguns grupos de amigos passam a se considerar uma família, mudam o sobrenome no Facebook, andam juntos e se apoiam. Isso não é exclusividade de Bauru e muito menos do rolezinho. No dia, metade da família Castellamare estava por lá, eram cinquenta. Ao todo são cem adolescentes e jovens. “Ei, cola na nossa festa? Os Castellamares estão organizando, vai ser open.”. A festa que promete tocar de tudo vai ser na Vila Industrial, Bauru, e só compra convite quem foi previamente convidado, ou integrantes da família.

Quando me dei conta, diversos garotos queriam me convidar para suas festas, mostrar que sabiam dançar ou rimar. “Ei, agora eu quero dar entrevista pra ela”, disputava João Araújo de 21 anos. João chamou atenção porque estava vestido com uma camiseta do rapper Thigor MC. E qual não é a surpresa que João é primo do rapper e possui o mesmo talento? “Aline, escolhe uma palavra, qualquer uma, que eu faço uma rima pra você”. Escolhi diamante e ouvi que eu era um. No final, João ganhou uma foto. “Só eu e ela molecada, rapa daqui”.

Rolezinho não tem estilo musical, tudo cabe. Uma roda agitava um “paGod”, uma espécie de pagode evangélico, com instrumentos e cantores de talento. Aos poucos diversos adolescentes se aproximavam, e entre improvisações, e músicas já conhecidas, aquele momento era dedicado a Deus. A iniciativa foi de jovens da Igreja Quadrangular, Comunidade Vineyard e o grupo de dança Wise Madness. Entre orações e palavras de apoio, os jovens se abraçavam. João, Orlandinho, Guilherme, Jefferson, e tantos outros também se aproximaram e demonstraram que tinham talento. Não eram da comunidade evangélica, mas conviviam bem e não fechavam os ouvidos a mensagem que era passada. Um dos meninos presentes era Leandrin Castellamare, que mais tarde viria se converter para a igreja e substituir o Castellamare por “Renúncia” no Facebook. Atualmente os convites são para grupos de oração, mas o ex rolezeiro continua curtindo a vida.

Aos poucos, a praça foi esvaziando, assim como as garrafas de cachaça e vodka. O horário do último ônibus para os bairros mais distantes se aproximava. Meu celular apitou, era o Leandrin me avisando que mais tarde queria as fotos. Afinal, rolezinho que vale a pena rende novos contatos no Whatsapp e muitas fotos com a “molecadadinha”.

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

 

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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Foto: Wilian Olivato

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As crianças do Projeto Formiguinha querem que você veja “Além do Olhar”

O Projeto Formiguinha, de Bauru (SP), encontrou uma forma bastante criativa para levantar fundos para a reforma de sua cozinha. Até o próximo final de semana, os educadores da ação social irão vender calendários com fotos das crianças atendidas na comunidade local.

A ideia de produzir as imagens partiu de Bárbara Mello, fotógrafa e voluntária do projeto. Em parceria com os demais educadores, ela visitou as famílias das crianças para conhecer suas realidades e fazer os registros que deram origem ao ensaio batizado de “Além do Olhar”.

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A iniciativa conseguiu capturar mais do que belas fotos. Por meio das imagens, é possível compreender a identidade de cada criança e ainda observar os resultados das atividades pedagógicas elaboradas pelos educadores do projeto. Realizado em 2014, o ensaio registra ações que incentivam e valorizam elementos como raça, classe, gênero e cidadania.

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Isis Rangel, educadora do Formiguinha há dois anos, observa que a ação mudou radicalmente o comportamento dos pequenos. “As crianças passaram a cuidar mais do projeto e dos colegas. Muitas perceberam que a comunidade pertence a elas e por isso precisam preservá-la”, destaca a voluntária.

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A prévia do ensaio “Além do Olhar” foi exposta no “Pousada Cultural”, evento realizado pelo projeto para impactar e valorizar a cultura da comunidade local. A apresentação da iniciativa foi um sucesso e fez com que as fotografias fossem transformadas em um calendário, que está sendo vendido para arrecadar fundos para a reforma da cozinha do Formiguinha.

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Todo mundo quer saber de onde vem, para onde vai, como é que entra e como é que sai. As crianças do Projeto Formiguinha também querem estas informações. Mas, antes de tudo, elas também querem lembrar a todos para onde vão e porque são o que se são, figurando em cada mês do ano com uma fotografia.

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O calendário custa R$20 e pode ser adquirido na barraquinha do Formiguinha em frente à Biblioteca da Unesp de Bauru (das 13h às 14h e das 18h às 19h) ou a partir de pedidos por meio da página do projeto no Facebook.

O projeto

O Projeto Formiguinha é uma ação sem fins lucrativos tem como principal objetivo evitar que as crianças e os jovens caiam na marginalidade que a rua oferece, realizando atividades educativas, recreativas, esportivas e culturais.

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Filhas da rua

Um conto-reportagem sobre madrugada e saltos-altos nas esquinas da vida

Por Felipe Vaitsman 

A rua ensina, é uma mãe. Pela madrugada, as mais asquerosas histórias caem no breu da cidade. Gente que morreu por dez reais, por trapaça, por ciúme, por vingança, por pensar diferente, por ser diferente. Por estar na rua.

Outro dia mesmo, mataram uma travesti na cidade. Thays, 27 anos. Deu no jornal. Na rodoviária, ela armou barraco com uma mulher que furou a fila do guichê para comprar a última passagem. Se descontrolou, gritou e tentou agredir a trapaceira. Saiu escorraçada. Sem bilhete, voltou à pensão em que estava. Para morrer. O namorado a assassinou com um tiro no peito, dentro do quarto. Ninguém sabe dizer ao certo qual foi o motivo.

Vivian mora nessa pensão, e conhecia a vítima. Viu a mesma arma apontada para o rosto, mas ficou calada e viveu para contar a história. Ela trabalha na esquina da Rua Benjamin Constant com a Avenida Nações Unidas. Tem 19 anos. Toma hormônios há quatro meses e se orgulha dos peitinhos já crescidos.

— Tem bofe que acha que eu sou mulher. É porque eu sou bicha-paty.

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Foto: Amanda Lima

De vestido rosa-choque, curtinho, e com uma enorme bolsa laranja, ela bate o tamanco no chão e gagueja quando fica nervosa. Engole com os olhos, carros e mais carros que passam lentamente por ali. Ela acena, mexe, pede carona. A transa é cinquenta, a chupeta é trinta. Mas o movimento está fraco.

A colega, Fernanda, na rua há muito mais tempo, sabe bem que lua cheia e céu limpo iluminam o submundo mais do que se deveria. Que homem quer ser visto abrindo a porta do carro para uma travesti? Pois ela pouco se importa. Ri, joga o cabelo para trás e roda em torno do poste com movimentos de pole dance. Já entrou em carro com cinco bofes. E já foi ameaçada por mais de dez. Botou todos para correr, menos um, que não escapou a tempo e foi achincalhado em plena calçada. Hoje, Fernanda se arrisca bem menos. Trocou as esquinas pelo celular. Fica em casa o dia todo, esperando algum cliente acioná-la. Quando está na rua, é porque o telefone não tocou.

Pois Vivian e Fernanda dividiam o ponto naquela terça-feira. Se conheceram ali mesmo, sob a enorme lua cheia. Os carros passam vagarosamente e trazem olhares tímidos, assustados, curiosos. Elas só pausam a conversa para mexer com os homens:

— Me leva pra casa! — grita Fernanda, para dois que passavam de carro pela segunda ou terceira vez.

— A-adoro um negão… Quan… quantos já não me juntaram nessa pa… nessa parede aqui e puxaram meu cabelo com força? — comenta Vivian.

— Ah, não! Negão não dá, amiga! Dói demais. Só cheirando muito pó pra aguentar.

— Ma… mas eu gosto é de sentir dor mesmo, bi. Gosto quando eles me batem. E… e eu bato neles tam… também.

— Bate quando faz a ativa, bicha?

— Ba-to! Tem homem que quer apanhar! Eles só não assumem…

— E você gosta de fazer a ativa, é?

— Adoro! Principalmente quando o cara parece be… bem machão, mas é to… todo recatado. E, olha… o “meu” é bem maior que o de muitos por aí.

— Porque você não é homem, então, louca? Gosta de ser ativa!

— Eu, não, bi. Eu sou bicha-paty…

Mas Vivian sabe deixar a delicadeza de lado. Carrega sempre uma faca. Cansou de ter suas bolsas roubadas pelos vagabundos que zanzam na noite. Agora já reconhece o perigo de longe. Da última vez, lutou com o ratoneiro e conseguiu salvar as coisas. Em pouco tempo, aprende-se muito. Fernanda parou de estudar muito cedo, mas costuma dizer que se formou, já deu aulas e agora é diretora na rua. Ela já não paga pelo ponto.

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Foto: Amanda Lima

Para se prostituir na Avenida Nações Unidas, a maioria das travestis deve pagar uma espécie de aluguel para alguma cafetina. São cem reais por dia – dois programas. Cada cem metros de avenida é de uma dona. São entre quatro e seis esquinas. Algumas dessas cafetinas ainda abrigam as meninas em apartamentos, quartinhos ou pequenas pensões como aquela em que Vivian mora e onde mataram Thays. É uma luta para pagar tudo em dia. No mundo delas, as ameaças vêm de todos os lados.

Rillary tem 22 anos e carrega nos braços algumas marcas da vida. Foi atacada com uma faca de cozinha na Parada da Diversidade de Sertãozinho por outra travesti. E, na rua, sabe dos riscos que corre. Mesmo assim não abre mão de levar o celular para o trabalho: gosta de ouvir música enquanto espera pelos clientes. Se roubarem, foi só mais um aparelho, de tantos. Bianca, de 35, faz ponto na esquina do Teatro Municipal. No último sábado, alguns infelizes passaram de carro e arremessaram ovos nela e em outras colegas que, com sorte, não foram atingidas. Mas as marcas da ignorância e do preconceito estão na parede de um dos símbolos da cultura em Bauru até hoje.

Bianca é serena. Loira, alta e siliconada, olha fundo nos olhos de cada um que passa salivando por ela. Muito simpática, não desmancha o sorriso nem quando alguém para o carro só para ofendê-la. É o mesmo homem que vai voltar no fim da madrugada, para fazer um programa. Hoje ela se dá o direito de escolher: só transa com quem mostra firmeza. Naquela noite, por volta das três da manhã, foi vista saindo de uma BMW – cliente graúdo. Mas voltar ao ponto é sempre se expor à estupidez: “eu gosto é de boceta”, gritava um homem embriagado, de dentro do carro. Não é preciso responder. Ela prefere acenar ao outro que passa se declarando.

— Bianca, meu sonho de consumo!

A esses, carinhosos, toda a reciprocidade. Inocência, jamais. O homem antes de gozar é um. Depois, é outro. E aquele que ganha um programa de graça nunca mais vai querer pagar. Por isso, Rillary não dificulta a negociação. “Dinheiro na mão, calcinha no chão. Dinheiro, não viu, calcinha subiu”, é o que sempre diz, com seu sorriso tímido.

Cada uma vai atrás do seu.

Foto: Amanda Melo

Foto: Amanda Lima

Na Nações Unidas, do cruzamento com a Avenida Duque de Caxias até a rodoviária, Vivian, Fernanda, Rillary e Bianca, além de dezenas de outras travestis, vivem a face mais visceral da noite. Tal como os mendigos do centro da cidade, os traficantes do Parque Vitória Régia e malandros vacilantes, que andam por aí fumando bitucas de cigarro, pedindo goles de cerveja e cometendo pequenos delitos para pagar suas drogas. São todos vítimas. Estar na rua não é opção.

Rillary queria mesmo é ser DJ. Sonha tocar em festas abarrotadas, virando a madrugada nas melhores baladas de São Paulo. Bianca fez Magistério e está concluindo um curso para ser auxiliar de cabeleireiro. Ainda assim, as duas continuam nas esquinas noite após noite. É muito difícil deixar essa vida. Não é todo dia que se vê uma travesti num balcão de farmácia, na recepção de um hotel ou na gerência de um banco. Por preconceito e hipocrisia da sociedade, foram fadadas a ser putas.

São becos, bocas, drogas, furtos, dívidas, facas, balas, mortes. Já seria um prejuízo muito grande se Thays fosse a única vítima da violência contra transgêneros. Mas e Camila, assassinada com uma facada na altura do pescoço? E Safira, morta com cinco tiros? O que dizer sobre Evelyn, espancada e largada no meio do mato pelo agressor? Não tardará a aparecer uma travesti estraçalhada na linha do trem. E a sujeira do asfalto vai encobrir explicações. “Foi por vingança”, “roubou o cliente”, “usava drogas”, “era puta” vão ser as respostas doentias ecoando pela avenida. O fato é que há vários rastros de sangue no chão que não serão apagados.

Na noite de movimento fraco e babados fortes entre Vivian e Fernanda, a bicha-paty pergunta à colega mais experiente, diretora na rua:

— Do… do que vo… do que você tem medo?

— De nada — diz, se entregando com o olhar.

— Eu te… eu tenho medo de… tenho medo de morrer.

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