As crianças do Projeto Formiguinha querem que você veja “Além do Olhar”

O Projeto Formiguinha, de Bauru (SP), encontrou uma forma bastante criativa para levantar fundos para a reforma de sua cozinha. Até o próximo final de semana, os educadores da ação social irão vender calendários com fotos das crianças atendidas na comunidade local.

A ideia de produzir as imagens partiu de Bárbara Mello, fotógrafa e voluntária do projeto. Em parceria com os demais educadores, ela visitou as famílias das crianças para conhecer suas realidades e fazer os registros que deram origem ao ensaio batizado de “Além do Olhar”.

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A iniciativa conseguiu capturar mais do que belas fotos. Por meio das imagens, é possível compreender a identidade de cada criança e ainda observar os resultados das atividades pedagógicas elaboradas pelos educadores do projeto. Realizado em 2014, o ensaio registra ações que incentivam e valorizam elementos como raça, classe, gênero e cidadania.

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Isis Rangel, educadora do Formiguinha há dois anos, observa que a ação mudou radicalmente o comportamento dos pequenos. “As crianças passaram a cuidar mais do projeto e dos colegas. Muitas perceberam que a comunidade pertence a elas e por isso precisam preservá-la”, destaca a voluntária.

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A prévia do ensaio “Além do Olhar” foi exposta no “Pousada Cultural”, evento realizado pelo projeto para impactar e valorizar a cultura da comunidade local. A apresentação da iniciativa foi um sucesso e fez com que as fotografias fossem transformadas em um calendário, que está sendo vendido para arrecadar fundos para a reforma da cozinha do Formiguinha.

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Todo mundo quer saber de onde vem, para onde vai, como é que entra e como é que sai. As crianças do Projeto Formiguinha também querem estas informações. Mas, antes de tudo, elas também querem lembrar a todos para onde vão e porque são o que se são, figurando em cada mês do ano com uma fotografia.

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O calendário custa R$20 e pode ser adquirido na barraquinha do Formiguinha em frente à Biblioteca da Unesp de Bauru (das 13h às 14h e das 18h às 19h) ou a partir de pedidos por meio da página do projeto no Facebook.

O projeto

O Projeto Formiguinha é uma ação sem fins lucrativos tem como principal objetivo evitar que as crianças e os jovens caiam na marginalidade que a rua oferece, realizando atividades educativas, recreativas, esportivas e culturais.

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Filhas da rua

Um conto-reportagem sobre madrugada e saltos-altos nas esquinas da vida

Por Felipe Vaitsman 

A rua ensina, é uma mãe. Pela madrugada, as mais asquerosas histórias caem no breu da cidade. Gente que morreu por dez reais, por trapaça, por ciúme, por vingança, por pensar diferente, por ser diferente. Por estar na rua.

Outro dia mesmo, mataram uma travesti na cidade. Thays, 27 anos. Deu no jornal. Na rodoviária, ela armou barraco com uma mulher que furou a fila do guichê para comprar a última passagem. Se descontrolou, gritou e tentou agredir a trapaceira. Saiu escorraçada. Sem bilhete, voltou à pensão em que estava. Para morrer. O namorado a assassinou com um tiro no peito, dentro do quarto. Ninguém sabe dizer ao certo qual foi o motivo.

Vivian mora nessa pensão, e conhecia a vítima. Viu a mesma arma apontada para o rosto, mas ficou calada e viveu para contar a história. Ela trabalha na esquina da Rua Benjamin Constant com a Avenida Nações Unidas. Tem 19 anos. Toma hormônios há quatro meses e se orgulha dos peitinhos já crescidos.

— Tem bofe que acha que eu sou mulher. É porque eu sou bicha-paty.

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Foto: Amanda Lima

De vestido rosa-choque, curtinho, e com uma enorme bolsa laranja, ela bate o tamanco no chão e gagueja quando fica nervosa. Engole com os olhos, carros e mais carros que passam lentamente por ali. Ela acena, mexe, pede carona. A transa é cinquenta, a chupeta é trinta. Mas o movimento está fraco.

A colega, Fernanda, na rua há muito mais tempo, sabe bem que lua cheia e céu limpo iluminam o submundo mais do que se deveria. Que homem quer ser visto abrindo a porta do carro para uma travesti? Pois ela pouco se importa. Ri, joga o cabelo para trás e roda em torno do poste com movimentos de pole dance. Já entrou em carro com cinco bofes. E já foi ameaçada por mais de dez. Botou todos para correr, menos um, que não escapou a tempo e foi achincalhado em plena calçada. Hoje, Fernanda se arrisca bem menos. Trocou as esquinas pelo celular. Fica em casa o dia todo, esperando algum cliente acioná-la. Quando está na rua, é porque o telefone não tocou.

Pois Vivian e Fernanda dividiam o ponto naquela terça-feira. Se conheceram ali mesmo, sob a enorme lua cheia. Os carros passam vagarosamente e trazem olhares tímidos, assustados, curiosos. Elas só pausam a conversa para mexer com os homens:

— Me leva pra casa! — grita Fernanda, para dois que passavam de carro pela segunda ou terceira vez.

— A-adoro um negão… Quan… quantos já não me juntaram nessa pa… nessa parede aqui e puxaram meu cabelo com força? — comenta Vivian.

— Ah, não! Negão não dá, amiga! Dói demais. Só cheirando muito pó pra aguentar.

— Ma… mas eu gosto é de sentir dor mesmo, bi. Gosto quando eles me batem. E… e eu bato neles tam… também.

— Bate quando faz a ativa, bicha?

— Ba-to! Tem homem que quer apanhar! Eles só não assumem…

— E você gosta de fazer a ativa, é?

— Adoro! Principalmente quando o cara parece be… bem machão, mas é to… todo recatado. E, olha… o “meu” é bem maior que o de muitos por aí.

— Porque você não é homem, então, louca? Gosta de ser ativa!

— Eu, não, bi. Eu sou bicha-paty…

Mas Vivian sabe deixar a delicadeza de lado. Carrega sempre uma faca. Cansou de ter suas bolsas roubadas pelos vagabundos que zanzam na noite. Agora já reconhece o perigo de longe. Da última vez, lutou com o ratoneiro e conseguiu salvar as coisas. Em pouco tempo, aprende-se muito. Fernanda parou de estudar muito cedo, mas costuma dizer que se formou, já deu aulas e agora é diretora na rua. Ela já não paga pelo ponto.

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Foto: Amanda Lima

Para se prostituir na Avenida Nações Unidas, a maioria das travestis deve pagar uma espécie de aluguel para alguma cafetina. São cem reais por dia – dois programas. Cada cem metros de avenida é de uma dona. São entre quatro e seis esquinas. Algumas dessas cafetinas ainda abrigam as meninas em apartamentos, quartinhos ou pequenas pensões como aquela em que Vivian mora e onde mataram Thays. É uma luta para pagar tudo em dia. No mundo delas, as ameaças vêm de todos os lados.

Rillary tem 22 anos e carrega nos braços algumas marcas da vida. Foi atacada com uma faca de cozinha na Parada da Diversidade de Sertãozinho por outra travesti. E, na rua, sabe dos riscos que corre. Mesmo assim não abre mão de levar o celular para o trabalho: gosta de ouvir música enquanto espera pelos clientes. Se roubarem, foi só mais um aparelho, de tantos. Bianca, de 35, faz ponto na esquina do Teatro Municipal. No último sábado, alguns infelizes passaram de carro e arremessaram ovos nela e em outras colegas que, com sorte, não foram atingidas. Mas as marcas da ignorância e do preconceito estão na parede de um dos símbolos da cultura em Bauru até hoje.

Bianca é serena. Loira, alta e siliconada, olha fundo nos olhos de cada um que passa salivando por ela. Muito simpática, não desmancha o sorriso nem quando alguém para o carro só para ofendê-la. É o mesmo homem que vai voltar no fim da madrugada, para fazer um programa. Hoje ela se dá o direito de escolher: só transa com quem mostra firmeza. Naquela noite, por volta das três da manhã, foi vista saindo de uma BMW – cliente graúdo. Mas voltar ao ponto é sempre se expor à estupidez: “eu gosto é de boceta”, gritava um homem embriagado, de dentro do carro. Não é preciso responder. Ela prefere acenar ao outro que passa se declarando.

— Bianca, meu sonho de consumo!

A esses, carinhosos, toda a reciprocidade. Inocência, jamais. O homem antes de gozar é um. Depois, é outro. E aquele que ganha um programa de graça nunca mais vai querer pagar. Por isso, Rillary não dificulta a negociação. “Dinheiro na mão, calcinha no chão. Dinheiro, não viu, calcinha subiu”, é o que sempre diz, com seu sorriso tímido.

Cada uma vai atrás do seu.

Foto: Amanda Melo

Foto: Amanda Lima

Na Nações Unidas, do cruzamento com a Avenida Duque de Caxias até a rodoviária, Vivian, Fernanda, Rillary e Bianca, além de dezenas de outras travestis, vivem a face mais visceral da noite. Tal como os mendigos do centro da cidade, os traficantes do Parque Vitória Régia e malandros vacilantes, que andam por aí fumando bitucas de cigarro, pedindo goles de cerveja e cometendo pequenos delitos para pagar suas drogas. São todos vítimas. Estar na rua não é opção.

Rillary queria mesmo é ser DJ. Sonha tocar em festas abarrotadas, virando a madrugada nas melhores baladas de São Paulo. Bianca fez Magistério e está concluindo um curso para ser auxiliar de cabeleireiro. Ainda assim, as duas continuam nas esquinas noite após noite. É muito difícil deixar essa vida. Não é todo dia que se vê uma travesti num balcão de farmácia, na recepção de um hotel ou na gerência de um banco. Por preconceito e hipocrisia da sociedade, foram fadadas a ser putas.

São becos, bocas, drogas, furtos, dívidas, facas, balas, mortes. Já seria um prejuízo muito grande se Thays fosse a única vítima da violência contra transgêneros. Mas e Camila, assassinada com uma facada na altura do pescoço? E Safira, morta com cinco tiros? O que dizer sobre Evelyn, espancada e largada no meio do mato pelo agressor? Não tardará a aparecer uma travesti estraçalhada na linha do trem. E a sujeira do asfalto vai encobrir explicações. “Foi por vingança”, “roubou o cliente”, “usava drogas”, “era puta” vão ser as respostas doentias ecoando pela avenida. O fato é que há vários rastros de sangue no chão que não serão apagados.

Na noite de movimento fraco e babados fortes entre Vivian e Fernanda, a bicha-paty pergunta à colega mais experiente, diretora na rua:

— Do… do que vo… do que você tem medo?

— De nada — diz, se entregando com o olhar.

— Eu te… eu tenho medo de… tenho medo de morrer.

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Maria coroada por flores astrais

A cirurgia de Dona Maria para amputar um dos pés está cada vez mais próxima. Ainda assim, ela não vacila e tem a consciência para se ter coragem. Mulher guerreira, inventou a contra-mola que resiste para comprar uma prótese e seus medicamentos.

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Foto: Danielle Fontes

Com a primavera nos dentes, Dona Maria confecciona coroas de flores e as vende num calçadão. Seu dom é enfeitar o carnaval de muitas meninas. Fevereiro se aproxima e a tempestade também. “Eu não posso deixar de trabalhar por isso”, ela grita entre os astros que vêm do infinito. O eco de sua voz ressoa em um bando de estrelas que repetem o berro. Danielle Fontes, que nos mandou a história, é só mais um feixe de luz nesse universo de amor.

Para os carnavais de agora e de sempre, todas as cores e outras mais para Dona Maria. Que ela seja coroada por flores astrais

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Foto: Danielle Fontes

Para quem quiser deixar o carnaval mais bonito e comprar as coroas de flores, Dona Maria fica todos os dias no Calçadão da Mirandela, em Nilópolis (RJ), entre 13h e 18h30. Você pode encontrá-la nos banquinhos ou passeando na lua cheia. E com apenas R$15, a vida ganha beleza e generosidade.

Mais informações com a Danielle.

Foto: Danielle Fontes

Foto: Danielle Fontes

 

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Transtornar o olhar: Unesp Bauru recebe evento em celebração ao mês da visibilidade trans

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Na próxima quinta-feira (29/01), o Brasil celebra o Dia da Visibilidade Trans. Ciente da importância da data e da necessidade de dar voz a esta causa, a Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Bauru promove encontro para discutir assuntos relevantes e urgentes em nossa sociedade.

Com o título “Transtornar o olhar: mês da visibilidade trans”, o evento irá abordar temas como o processo transexualizador e suas relações com família, mercado de trabalho, mídia e transfobia. Os debates acontecem nesta quarta-feira (28/01), às 19h, no Auditório da FEB (Faculdade de Engenharia de Bauru). A entrada é gratuita e não há necessidade de inscrição antecipada. Para dúvidas e outras informações, está à disposição o endereço transtornar@gmail.com.

O encontro foi organizado por Larissa Pelúcio e Patricia Porchat, professoras dos departamentos de Ciências Humanas e Psicologia, respectivamente. As discussões serão guiadas pelas ativistas e estudantes universitárias Amara Moira e Leila Dumaresq, ambas do Coletivo Trans Tornar. Amara é doutoranda no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e assina o blog “E se eu fosse puta”. Leila é filósofa graduada também pela Unicamp e escreve no “Transliteração”.

Larissa Pelúcio aposta no evento como forma de aproximar a universidade de uma pauta extremamente importante. “O encontro é uma maneira de tirar o exotismo do nosso olhar, que muitas vezes acredita que a experiência trans não nos toca e que não estamos ligados diretamente à questão”, afirma. A professora entende que os relatos de duas mulheres trans serão fundamentais para a compreensão da causa e para despertar a necessidade de incluir pessoas de diferentes gêneros ao meio universitário com sensibilidade e sem paternalismo.

“Transtornar o olhar” é promovido pela Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC); Faculdade de Ciências (FC); Grupo de Pesquisa “Transgressões: Corpos, Sexualidades e Mídias Contemporâneas”; Projeto de Extensão “Escutando a Diversidade”; e Conselho Regional de Psicologia – CRP São Paulo.

Transfobia mata

O Brasil é o país onde mais ocorrem assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo, segundo relatório da ONG Internacional Transgender Europe. Entre janeiro de 2008 e abril de 2013, foram 486 mortes, número quatro vezes maior do que o registrado pelo México, segundo país com mais óbitos desta natureza. Os dados incluem apenas os casos reportados e a quantidade de homicídios pode ser ainda maior.

O Dia da Visibilidade Trans tem como objetivo ressaltar a importância do respeito ao movimento e alertar à sociedade que a transfobia mata.

 

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Minha doce Angela Davis

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Tenho um doce anjo negro que me visita todas as noites. Esse doce anjo já me contou sobre quando lutou contra o mundo com apenas treze anos. Tenho uma garota que batalhou por mim e eu nem sabia. Ela não é nenhuma estrela, mas trouxe muita luz para seu povo.

Por mais que digam que anjos não tem sexo, meu doce anjo negro é uma mulher solitária. Colocaram meu anjo na cadeia. Ela esteve em perigo. Essa pequena garota falou ao coração do mundo mesmo não sendo uma cantora pop. O FBI queria pregá-la numa cruz, meu pequeno doce anjo negro.

Ela tem a força de uma pantera e sua garra levou sua palavra longe. Sua voz tem a sonoridade de um trompete de jazz, um bálsamo revolucionário.

Minha doce angela Davis é a professora do povo. Meu doce anjo negro faz hoje 71 anos e toda noite me visita e sussurra em meus ouvidos: “não se prenda, nossa luta é por liberdade”. Minha doce Angela, minha doce Davis.

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Cursinho pré-vestibular gratuito da Unesp Bauru prorroga prazo para inscrições em processo seletivo

O Cursinho Pré-Vestibular Gratuito “Principia”, da Unesp Bauru, prorrogou o prazo para as inscrições no Processo Seletivo 2015. Para concorrer à vaga, os candidatos devem comparecer à cantina da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB), localizada no campus da universidade, até o dia 30 de janeiro entre 14h e 22h. A participação na seleção é garantida mediante à apresentação da Carteira de Identidade (RG) e ao pagamento de uma taxa no valor de R$20.

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Mariane Gomes, ex aluna do Principia.

O “Principia” é um projeto de inclusão social totalmente gratuito. Vinculado à Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC), da Unesp Bauru, a iniciativa atende aos estudantes de Bauru e região com aulas focadas nos principais vestibulares do País. Para 2015, o cursinho disponibiliza 200 vagas, sendo 100 para o período noturno e 100 para o período vespertino.

Para se inscreverem, os candidatos devem estar cursando o 3º ano ou já terem concluído o Ensino Médio. Do total de vagas, 90% são destinadas a alunos oriundos de escolas públicas ou que estudaram na rede privada com 70% ou mais de bolsa de estudos (para estes casos, é necessário comprovação com documento emitido pela instituição de ensino). Os 10% restantes são oferecidos a estudantes de escolas particulares em geral. Não há limite máximo de idade.

O cursinho é totalmente apostilado e não tem nenhum custo para o aluno ao longo do ano. As aulas ocorrem de segunda a sexta-feira, das 14 às 18h para o período vespertino e das 19 às 23h para o período noturno. O “Principia” ainda conta com plantões de dúvidas durante a semana e eventuais aulas complementares e de atualidades aos sábados. Outra grande vantagem é a isenção da taxa de inscrição do vestibular Unesp para os alunos que estiverem com frequência regular e dentro do limite de faltas.

Processo Seletivo

O processo seletivo será realizado no dia 01/02 (domingo), às 8h, no campus da Unesp de Bauru. Na avaliação, serão examinadas as disciplinas de Português, Matemática, Biologia, Geografia, Física, História, Química e Atualidades. Ao todo, serão 60 questões em formato múltipla escolha.

No dia da prova, os candidatos devem chegar com 30 minutos de antecedência na cantina da FEB, mesmo local de inscrição. É necessário levar a Carteira de Identidade (RG) e o comprovante de inscrição. O gabarito deverá ser preenchido com caneta de tinta azul ou preta.

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O incrível mundo de Dove sem racismo

A nova campanha da Dove fez um apelo para que garotas de cabelos cacheados amem a sua aparência. A ação traz um vídeo com o título “Ame seus Cachos” (“Love your curls”, no original) e propõe um resgate da autoestima das meninas com cabelo encaracolado. Não é de hoje que a marca conquista suas fãs estimulando o amor próprio e a valorização da beleza natural.

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A propaganda é excelente, certeira e mexe com o emocional de qualquer mulher de cabelos ondulados. Porém, os diversos depoimentos de garotas que possuem dificuldades em aceitar a própria aparência nos mostram uma das faces mais sombrias do racismo. Apesar de termos meninas brancas e loiras no vídeo, só quem é negra cacheada ou crespa sabe como é difícil assumir o visual natural.

A Dove sai na frente ao lançar uma bela campanha como esta. A aceitação do cabelo natural tem surgido como uma forte onda na internet e mudado a vida de diversas mulheres por meio de blogs, vlogs e páginas no Facebook repletos de dicas, relatos e tutoriais específicos. A marca também soube aproveitar uma demanda antiga e urgente, que era a inclusão e valorização de negras e donas de cabelos não lisos na publicidade de produtos de estética. Porém, a pergunta central não é abordada pela propaganda e é preciso nos atermos a ela: porque essas meninas não gostam de seus cabelos e de sua aparência?

O problema dessas garotas não é delas e muito menos de suas mães, mas de uma uma sociedade que as ensina a não se amarem em diversos momentos e espaços. Tratar de maneira individual a relação conturbada com a aparência é um peso que essas meninas e mulheres não devem carregar. O problema da autoestima baixa não é delas, mas da ditadura da beleza. O problema do racismo não é dos negros, mas dos brancos.

Para fazermos com que essas pequenas se amem é preciso trabalhar com o empoderamento individual, mas também se faz necessário criar um ambiente social que as valorize. Mesmo que o meio familiar seja o mais acolhedor em relação às madeixas das meninas, é inevitável lembrar que no futuro o mercado de trabalho poderá dizer que elas não possuem “boa aparência” com os cabelos naturais e exigirá que os alisem. Cabe ainda destacar que manter o crespo ou os cachos custa caro para algumas mulheres, pois tira delas o pão da mesa. A autoestima bem trabalhada é essencial para seguir a vida com o mínimo de sanidade, mas apenas empoderamento não mudará as estatísticas que apontam a mulher negra como a que menos recebe em seu emprego.

Seria perfeito se a dinâmica da vida funcionasse como no lindo comercial da Dove e a valorização familiar resolvesse os problemas de nossa autoestima. Entretanto, há uma boa dose de racismo na dificuldade das mulheres negras em aceitarem a própria aparência.

Dove, nós amamos nossos cachos, mas precisamos que a sociedade também os ame.

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Cidades proibidas para mulheres

Se anjos existem, eles se esqueceram das mulheres de Bauru e de todos os cantos do Brasil. Ou talvez escolheram proteger somente as que não saem de casa e não correm perigo. Vai ver o seguro de vida é mais caro para mulheres tidas por “vadia”, como eu. Para prostitutas e mulheres transexuais nem deve passar pela cabeça desses anjos que elas merecem proteção. Por muito tempo pedi a proteção de qualquer entidade divina, mas como o socorro veio em forma de cantadas agressivas, passei a andar durante a noite, quando volto da faculdade, com as chaves entre os dedos.

Foto: Aline Ramos

Quando saí da casa dos meus pais há quatro anos, o maior medo deles era que eu abandonasse a religião que professávamos. Eles tinham razão, tão logo me afastei de casa e comecei a vida em outra cidade, parei de ir à igreja. Viver sozinha em outro lugar fez com que eu tivesse minhas recaídas religiosas e barganhasse a minha fé pela proteção contra qualquer tipo de assédio. Se aquele carro que estivesse me seguindo numa das avenidas principais da cidade parasse de me seguir, eu iria para a igreja no sábado seguinte. Mas fui à igreja e ouvi que as mulheres segundo o coração de Deus são submissas aos homens e relembrei o porquê havia abandonado minha religião. Não voltei mais, e sabendo que não podia contar com a ajuda de homens, anjos e Deus, passei a apertar o passo.

Minhas canelas ardem quando ando por Bauru, tanto pelo calor, como pelo medo. Não há lugar nessa cidade que me faça andar em paz. Não conto para os meus pais que a preocupação deles deveria ser outra, e não a religiosa, mas fico feliz que ainda orem por mim e peçam que os anjos me protejam. Quem sabe são vencidos pelo cansaço. Mas enquanto isso não acontece, tenho que ouvir às dez horas da manhã, do pedreiro da construção da casa ao lado, que meu perfume é bom e que tenho cara de boqueteira. Às vezes, quando vou ao supermercado, eu ouço que sou deliciosa e que me chupariam inteira.

Olha, vou ser franca, se ficassem simplesmente com essas promessas horríveis, eu ficaria tranquila. Acontece que às vezes sou seguida por carros e motos. Certa vez fui parada duas vezes na mesma semana, enquanto voltava da faculdade durante a noite, pelo mesmo rapaz de moto que insistia em saber para onde eu me dirigia. Passei dois meses com pavor de sair de casa e acreditando que alguém estava me seguindo. Porém, isso voltou a se repetir, e eu que achava que o sol forte de Bauru seria capaz de me proteger, fui seguida por dois carros em trinta minutos de caminhada. Além dos anjos terem me abandonado, parece que enviarem demônios para me assustar. E conseguiram.

Eu queria ligar para os meus pais e pedir ajuda, mas tudo o que passei a fazer foi parar de sorrir e falar mais grosso. Pelo telefone, digo a eles que tenho comido mais salada e menos carne. Nem o céu mais bonito do centro oeste paulista é capaz de atenuar o medo que a cidade nos faz sentir. Segundo a Coordenadoria de Análise e Planejamento (CAP) da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), os casos de estupro em Bauru aumentaram 9,6% em 2014. Por mais que esses dados tenham seu lado positivo, já que muitas mulheres têm respondido ao estímulo de denunciarem os abusos em que são vítimas, a sensação de insegurança aumenta e interfere no nosso dia a dia.

Uma notícia recente entristeceu a todas nós, mulheres, nesta semana. Em agosto do ano passado, um caso de estupro coletivo chocou Bauru. Uma garota de 17 anos foi abusada por 10 rapazes, num terreno baldio, durante a festa de comemoração do aniversário da cidade. E mesmo diante de tamanha crueldadade, a justiça local decidiu pelo arquivamento do processo.

No dia 7 de fevereiro, Bauru será palco da III Marcha das Vadias. Desta vez, o tema será “A culpa não é da vítima”, afinal, se os anjos se esqueceram de nós, marcharemos até que tenhamos direito à cidade.

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Tássia Reis: do interior, bem humilde, no seu radinho

Tassia Reis é a brisa suave que envolve nosso corpo no verão e nos rouba um sorriso gostoso na rua. É a fineza e a bravura da mulher negra que não abaixa a cabeça, mesmo que esteja careca. Sua música dança nos nossos ouvidos com a mesma leveza que Tássia leva a vida. Do interior, bem humilde, lá de Jacareí (SP), é a promessa, mais do que presente, feminina do rap. Sua capacidade de mesclar ritmos, inovar é tão forte quanto seu espírito crítico. Dona de um estilo único lançou seu EP recentemente e promete mexer ainda mais com nossos corações e ouvidos.

Batemos um papo com essa mulher destruidora que não sai do nosso radinho. Olha só.

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Foto: Reprodução/Youtube


Em que momento você percebeu que era a carreira da música para você e não a de moda?

Uma coisa foi acompanhando a outra. Quando comecei o meu curso de Tecnologia em Design de Moda, eu também estava escrevendo minhas primeiras músicas, e toda aquela vida nova, de cidade grande me influenciou bastante para escrever. Meus perrengues, saudades do interior, algumas alegrias também. Mas a verdade é que não consegui um Estágio na área, apesar de sempre me sair bem nas entrevistas, alegavam que era em função do meu inglês, que não é lá essas coisas, porém, as garotas da minha sala também não tinham inglês  e estagiavam, algumas em marcas grandes. Porque? Não era porque eu sou pobre, e sim porque, já não bastasse eu ser negra, tinha um afro gigante, e  1.80 de altura, acho que sou preta muito preta, sabe?!

No fim, isso só me ajudou a escolher o caminho da música, que também não é nada fácil.

Conseguir expor meus sentimentos, meus pensamentos, meu ideais, era e é tudo que eu sempre quis, desde quando eu dançava .

Como o curso de moda influencia no seu trabalho?

O curso de moda me ajudou muito no que diz respeito a processo criativo, e inspiração, passei a respeitar mais as ideias que antes eu considerava “bobas”, e apesar de estudar tendências, compreendi que não há nada melhor do que a naturalidade. Tudo que é programado demais, enlatado demais, tem prazo pra vencer . O que é natural gira por anos e anos, é atemporal.

Como cantora independente, quais são as dificuldades?

A dificuldade maior é descobrir ferramentas que funcionem no meu formato de artista, ferramentas sustentáveis, porque a realidade é que não temos estrutura financeira, nem cultural . O mercado musical vem sofrendo mudanças com a democratização que a internet proporciona, e no meu ponto de vista, todo mundo está entendendo como proceder a sua maneira. O que funciona com quem e etc. Acho que tudo se resume em experimentar, arriscar e produzir. É o que estamos fazendo, a nossa maneira “do interior, bem humilde” rs.

Você sentiu e sente alguma dificuldade por ser mulher e querer cantar rap? Acha que a cena do rap ainda é muito machista?

Qualquer coisa que eu queira fazer, eu vou sofrer opressão porque somos todos educados nesse sistema machista, o Hip-Hop não fica de fora . Meus pais sempre me diziam que eu tinha que me destacar porque as oportunidades não estavam do meu lado, por isso tento sempre fazer as coisas com excelência . Acabei me condicionando a provar que sou capaz pra tudo e qualquer coisa .

Você acredita que o Brasil reconhece a contribuição dos negros para a sua cultura?

Não, pelo contrário, ainda se luta pra ensinar a verdadeira história nas escolas, as políticas públicas são recentes, e ainda não conseguimos sentir os reflexos positivos, melhores cargos, melhores posições sociais, demorará anos pra isso acontecer (sendo otimista). A mídia ainda vende um padrão europeu que não tem nada haver a com a gente, quando resolve colocar uma figura negra geralmente é de uma maneira extremamente sexista.

Ao mesmo tempo vejo movimentações que me agradam, pessoas se unindo, discussões sendo abordadas, na internet tenho vista auto-estima,a procura por dados, por conhecimento que antes a gente nem sonhava em acessar. Acho pouco, mas é um começo.

Quais são suas influências, seja na vida ou na música?

Meus pais são pessoas que me permitiram ser o que eu sou, não me podaram, e me apoiaram da maneira que eles podiam. Isso já fez toda a diferença pra mim. Meus amigos, mais especificamente, minhas amigas são muito guerreiras, batalhadoras, gente que faz e acontece. Isso acaba gerando uma corrente de impulsão, bom, eu gosto de pensar assim.

Musicalmente tenho muita influencia da Música Preta Brasileira, apesar de criar num gênero americano, que é o Rap, eu gosto de impor a minha verdade nas canções.

Diria que Djavan, Clara Nunes, Caetano, Erykah Badu, Lauryn Hill e Floetry tem grande influência nas minhas coisas . Mas tem muito mais gente que acaba influenciando .

Quais são os próximos planos para o seu projeto? O que podemos esperar da Tássia em 2015?

Pretendo dixxtruir!!! Mais músicas nesse ano, sem esquecer que acabei de lançar o EP. Vai ter clipe, vai ter vídeo, vai ter badalo, vai ter parcerias fortes! Estou muito animada, e inclusive gostaria de agradecer o espaço, e aproveitar e agradecer a todo carinho que tenho recebido, tem sido muito importante pra mim, tem me dado força e mais garra.

Aproveito e deixo minhas redes sociais  pra quem tiver afim de acompanhar e fortalecer :

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O Ep Tássia Reis está a venda no Itunes, na Radio Uol, e na Onerpm, disponível no Spotify, Deezer, Rdio, e também Download gratuito na descrição do youtube e soundcloud .

Um super beijo, seguimos na luta .

#AquiéClackBoom

 

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“Esquenta!” discute racismo sem olhar para si

Domingo de sol, domingo de “Esquenta!”, samba e racismo. O tema escolhido para a atração de Regina Casé foi o preconceito contra os negros, mas a discussão não saiu do lugar-comum. Os convidados presentes relataram tristes histórias de discriminação que passaram ao longo da vida, mas ninguém lembrou de Douglas da Silva Pereira, o DG. O dançarino fazia parte do elenco fixo do programa até ser assassinado pela Polícia Militar em abril de 2014. Na ocasião, o corpo de DG foi encontrado nos fundos de uma creche do Morro do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana (RJ), com um tiro nas costas e escoriações.

Foto: Alex Carvalho (TV Globo)

 

Apesar da aparente boa intenção de propor o debate de uma questão de extrema relevância e que aflige metade da população brasileira, a edição do programa soou como uma tentativa de limpar a imagem arranhada de Regina Casé. Por diversas vezes, a apresentadora já foi informalmente acusada de ter ataques de estrelismo e de não gostar de pobres devido ao tratamento dado aos fãs. O “Esquenta!” de hoje foi inedito, mas a sua gravação ocorreu em dezembro, algumas semanas depois de Casé se ver no epicentro de uma série de críticas que questionavam o seu comportamento e credibilidade de sua atração dominical.

Maria de Fátima Silva, mãe de DG, fez graves acusações à apresentadora. Durante o “Ser Negra”, evento comemorativo ao Dia da Consciência Negra, Maria afirmou que sua participação no programa em homenagem ao seu filho foi limitada pela produção do “Esquenta!” e por Casé. “Eu só deveria responder o que me perguntassem. Quando eu tentava falar sobre a violência da polícia, era cortada”, disse a mãe do dançarino, que completou, sobre Regina: “uma farsa, uma artista, uma mentirosa”. O caso ganhou grande repercussão na imprensa e, apesar da defesa da apresentadora, dividiu as opiniões do público.

O que vimos neste domingo foi a exibição da história que já sabemos: negros no Brasil sofrem preconceito por sua cor. Parte da audiência acredita que a escolha do tema para um programa de forte apelo popular como o “Esquenta!” é avanço no debate sobre o racismo. Afinal, a Rede Globo enfim assume que o Brasil não é o país da democracia racial e que a discriminação é parte do cotidiano da população. Entretanto, abordar o racismo e não mencionar as mortes de DG, Amarildo e Cláudia, vítimas da violência policial, é, de certa forma, ser conivente com o genocídio da população negra no país, pois o falecimento deles não é exceção, mas regra.

O silêncio sobre a violência policial, as acusações da mãe de DG e a edição de 20 de janeiro de 2013 sobre a situação do Rio de Janeiro após a pacificação realizada pelas UPPs nos mostra que o posicionamento do “Esquenta!”, e da Rede Globo, é ideológico. Ao longo do programa deste domingo, Regina Casé não falou a palavra racismo, mas se referiu a ele somente como “preconceito de cor”. O termo foi utilizado somente pelos convidados ao relatarem as suas experiências. O que vimos foram negros assumindo seus papéis de vítimas, mas impossibilitados de problematizar os porquês das violências que sofrem.

No debate, a análise teórica do tema ficou por conta de um branco, o jornalista e produtor cultural Alê Youssef, como se os próprios convidados fossem incapazes de fazê-la por si só. A única que fugiu à regra foi Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo, que indicou como o racismo está presente em diversas estruturas da sociedade. “Imagine-se como branco num país só de negros, onde tudo o que foi feito de maravilhoso na estética, os arquitetos, os filósofos, os revolucionários e os reis foram todos negros. Até o ser supremo, Deus, era negro. Jesus Cristo também era negro. E você, sendo branco, na única vez que o sistema escolar começa a falar dos seus ancestrais coloca duas páginas no livro de História do Brasil falando que seus ancestrais eram escravos e não te contam nada mais”, provocou Loras.

E em tantas histórias tristes, Regina Casé se solidariza e afirma que entende bem o que é racismo, pois seus pais sempre tiveram muitos amigos negros que frequentavam sua casa. Como se conviver com negros eximisse qualquer pessoa de ser racista. No caso da apresentadora, acreditar nisso fica ainda mais difícil.

Veja o debate aqui.

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