A estagiária gostosa da Rádio Cidade veio para nos dar um recado

A “estagiária gostosa” da Rádio Cidade é uma mulher livre, e essa liberdade lhe dá o direito de consentir com uma piada ofensiva para outras mulheres. A estagiária pode ser você, eu, nossa melhor amiga, nossa prima ou a vizinha que está do outro lado da rua colhendo pitanga. Todo local de trabalho tem uma “estagiária gostosa”, mas raros são os locais que encontramos as estagiárias inteligentes. Essas mulheres podem ser gostosas e inteligentes ao mesmo tempo, mas em seus trabalhos como deveríamos nos referir a elas e como deveriam ser nossas piadas com elas?

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Gostamos de ser chamadas de gostosa na cama, quando enviamos uma foto vestindo aquela calcinha nova e quando queremos ser gostosas. Entretanto, nossa sexualidade deve ficar fora do nosso local de trabalho. Pedimos por isso do mesmo modo que reivindicamos receber o mesmo que um homem na mesma função exercida, ainda mais nos espaços de comunicação.

O que os veículos de comunicação tem feito pelas mulheres que circulam por eles e pelas mulheres que são o seu público alvo? Faço essa pergunta por que, segundo relatório da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) de 2013, as mulheres representam 63% dos profissionais da área. Entretanto, essas mulheres são minorias no cargo de liderança. E para piorar o quadro das mulheres que trabalham como jornalistas, o que não está quantificado, porém, circula nas mesas de bares até hoje, é o do teste do sofá como meio de se alcançar um cargo desejado. Esse discurso ainda é reproduzido por professores nas escolas de jornalismo pelo país.

É necessário que não só a Rádio Cidade reveja o que tem veiculado em suas redes sociais, é cada vez mais necessário que se discuta o ambiente de trabalho para as mulheres nos veículos de comunicação. A “estagiária gostosa”, no futuro, ainda vai receber menos que os seus colegas de trabalho, e isso está longe de ser uma piada, mesmo que os jornalistas da Rádio Cidade insistam nisso.

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Posso te apresentar para um amigo gringo? Não

Vem cá, vamos combinar uma coisa. Eu sou neguinha, preta, pretinha, negra, nega, seu bem, seu mal, tudo o que eu quiser ser, menos mulata exportação. Estamos combinados? Eu sei que você não está falando por mal, então por isso estou vindo aqui explicar com paciência. Você consegue entender que me chamar de mulata e de exportação não é elogio? Eu não gosto de ser comparada com mula e muito menos com um produto sexual a ser exportado.

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“Samba” (1925) – Di Cavalcanti

Tá, tudo bem, você não é uma pessoa ruim, mas isso não te impede de ser racista às vezes né? Quando eu ia a igreja ouvia que pra combater o mau a gente tem que chamar o pecado pelo nome. Eu acho que o mesmo é com o racismo, a gente tem que chamar pelo nome. Chamar uma mulher negra de mulata é racismo, e de mulata exportação é racismo e machismo, um combo pra acabar com a minha noite no samba.

Aquele samba era samba de branco, isso dá pra passar. O que mais incomodava era a cerveja cara e a falta de espaço para sambar. Até que uma moça simpática (e branca) cheia dos amigos gringos achou que seria bacana me apresentar pra todos eles. Ela dizia amar meu jeito de dançar, minha cor e meu cabelo. Ela dizia gostar da minha cultura, da história do meu povo e até ficou surpresa quando me viu arranhando no inglês. Ela gostou tanto de mim que até quis me vender pros seus amigos gringos.

– Você é uma mulata exportação linda. Posso te apresentar para um amigo gringo?

– Não, não pode.

Tive que ouvir que sou grossa e eu só queria sambar e comer um caldinho de feijão.

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Lá vai a ala das empoderadas

Já tinha passado a ala da velha guarda, das crianças, e então um furacão passou diante dos nossos olhos. Um grupo de mulheres negras sambava sobre saltos, balançava seus corpos e cabelos, distribuía sorrisos e eu fiquei ali paralisada. Um amigo perguntou que ala era aquela, respondi que só poderia ser a ala das empoderadas da VaiVai.

O bairro do Bixiga é um bairro italiano e branco, mas possui uma veia negra que o faz pulsar e ser um dos locais mais encantadores da cidade de São Paulo. O Bixiga é a casa da escola de samba VaiVai e com os ensaios para o Carnaval suas ruas aos domingos se tornam palco de um dos maiores espetáculos negros. Fui parar num desses ensaios e logo me emocionei quando do portão de entrada pude ver uma pequena garota com os cachos soltos que girava para todos os cantos ao lado da avó que sambava com a disposição de uma adolescente.

As escolas de samba são espaços de resistência e propulsoras de uma autoafirmação com o orgulho de ser negro. VaiVai não é só samba, é política e faz parte da vida de diversas mulheres negras, pois é capaz de transformar a leitura dessas próprias mulheres sobre a vida cotidiana. Todo o processo de construção das escolas de sambas incluem mulheres negras que transformam o samba e o carnaval num processo de construção coletiva e busca por suas raízes ancestrais. Sendo assim, a escola de samba também possui um papel educador sobre a história do povo negro que a escola tradicional não é capaz de suprir. Aos poucos fui achando mais famílias, crianças que corriam atrás da rainha da bateria e o brilho nos olhos de todas as senhoras que também desfilavam.

O vínculo familiar com as escolas de samba também é fruto desse processo de resistência e politização que permeiam esses espaços. A família é onde as discriminações, preconceitos e racismo são sinalizados e combatidos, seja na participação do processo criativo de um carnaval ou na militância dentro de movimentos negros. Eu estava em casa e maravilhada com a quantidade de mulheres que passavam pela minha frente ostentando seus cabelos naturais. Encantavam não só pela beleza, mas pelo empoderamento também.

Eu não sou rainha de bateria, mas sai de lá rainha de mim com uma coroa feita de cachos. Minhas pernas e pés doem, mal consigo andar de tanto que sambei. Mas fica o conselho, quer sambar até o amanhecer? Vai no Bixiga pra ver.

Enquanto isso vai decorando o samba enredo de 2015 que foi feito em homenagem à Elis Regina.

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O Hip Hop salva vidas, mas também pode salvar a universidade

Existe um muro invisível entre a universidade pública e a comunidade que a rodeia. O Hip Hop está no meio disso tudo e deseja quebrar esse muro, mas os “boys” precisam ajudar.

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Foto: Semana do Hip Hop Bauru 2014

Depois que “Nó na Orelha” explodiu e a classe média universitária descobriu que dá para ouvir rap e continuar sendo descolado, todo mundo passou a amar rap e a pedir mais amor por favor. Nada contra o Criolo e seu trabalho musical, mas os fãs de Criolo estão no mesmo caminho dos fãs de Beatles. Só que existe um problema nessa aproximação, rap é compromisso, não é viagem. A galera da quebrada e do Hip Hop está querendo chegar mais perto da universidade, mas o quanto a universidade está disposta a se aproximar e a compreender que o rap não é só Criolo e Emicida?

Em novembro, o Ponto de Cultura Acesso Hip Hop realizou a “Semana do Hip Hop de Bauru” com uma programação extensa repleta de shows, oficinas, saraus, atividades educativas e debates. Com o propósito de gerar uma aproximação entre a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) e o movimento Hip Hop, foi proposta a realização de um debate dentro da universidade. Entretanto, o momento que deveria funcionar como ajuntamento entre esses dois universos reafirmou a distância que existe e quais são os muros que os separam. O coordenador do Acesso Hip Hop, Renato Magú, questionou durante o debate não só a ausência de universitários naquele espaço, bem como o que a universidade pública compreende como Hip Hop.

Para a molecada da quebrada o Hip Hop salva vidas e traz esperança, além de dar voz à periferia. Porém, para a galera da universidade ainda é só um produto cultural a ser consumido na mesma velocidade em que universitários giram seus corpos, em festas indies e descoladas, na disputa para ver quem vira mais copos ou de quem faz mais cara de marrento para a foto quando toca Racionais. Enquanto os estereótipos estéticos sobre o Hip Hop forem maiores que o desejo de mudança da realidade das universidades públicas, o pobre e o preto continuarão sendo objeto de estudo e não protagonistas do seu próprio movimento cultural. Não adianta defender o Sistema de Cotas e recitar Marx nas assembleias estudantis se não compreender que ter marra na favela não é pose, é resistência. O Hip Hop salvou vidas, e pelo visto vai ter que salvar a universidade.

 

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Desafios da juventude negra é tema de evento a ser realizado neste final de semana em São Paulo

Discutir qual Brasil queremos para a juventude negra é o objetivo do Seminário “Juventude Negra: Desafios e projeto estratégico para o Brasil”. O evento será realizado nesse final de semana, nos dias 5 e 6 de dezembro no Sindicato dos Trabalhadores em Saúde e Previdência no Estado de São Paulo (Sinsprev). O seminário é uma realizada da Fundação Friedrich Ebert em parceria com entidades do movimento negro. O “Que nega é essa?” foi convidado para participar e no sábado pela manhã contribuirei com uma fala sobre os desafios do movimento negro dentro da comunicação.

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Para Juninho do Circulo Palmarino, o evento é um espaço importante, pois, tem observado um esvaziamento do debate ideológico político e ideológico sobre a sociedade. “O atual modelo de acomodação, de desenvolvimento à partir da ampliação do mercado de consumo vem se mostrando insuficiente para dar respostas a melhorias da qualidade de vida, principalmente das populações mais pobres e especial a negra”.

O seminário terá três momentos de debate, na sexta-feira o tema é “Brasil pós-eleições e a juventude negra”, no sábado pela manhã as “Lutas da juventude negra” estará em foco, e durante o período da tarde será discutido o “Projeto estratégico da juventude negra”. Os dados sobre a violência em que os jovens negros estão submetidos são aspectos importantes a serem levantados no evento, como coloca Juninho.

“Não é possível imaginar que vivemos em uma democracia que assassina 56 mil pessoas por ano, 30 mil jovens, sendo esses 30 mil, 77% jovens negros. Um estado democrático de direitos, onde trabalhadoras domésticas ainda não possuem plenos direitos trabalhistas. Onde a população negra representa 73% das pessoas abaixo da linha da pobreza. Em que os grandes meios de comunicação ainda constroem um imaginário de mulher negra como objeto sexual. Onde a nossa história ainda não é contada Nas salas de aula. Onde as negras e negros não estão nas esferas de poder e na representação politicas”.

SERVIÇO

Quando: 5 e 6 de dezembro de 2014
Local: Sinsprev (Rua Antonio de Godoy, nº 88 – 2º andar – Centro – São Paulo)
Evento: http://on.fb.me/1ySm5kY

PROGRAMAÇÃO

Sexta-feira | dia 5 | 18h30

“Brasil pós-eleições e a juventude negra”

Formato: Intervenções rápidas, seguidas de debate
Mediadora: Geyse Anne (Enegrecer)
Douglas Belchior (UNEAFRO)
Larissa Borges (Coletivo Casa de Pretas)

Sábado | dia 6 | 9h – 12h

“Lutas da juventude negra”

Formato: Intervenções rápidas, seguidas de debate
Mediador: Samoury Mugabe (APJN)
Extermínio – Lula Rocha (FEJUNES)
Comunicação – Aline Ramos (Que nega é essa?)
Reforma política – Beatriz Lourenço (Levante Popular da Juventude)
Mulheres – Nazaré Cruz (ACYOMI)
Trabalho – Thiara Nascimento da Cruz (CUT)
Juventude – Tamires Gomes Sampaio (Centro Acadêmico João Mendes Jr.)
Cultura – Andressa Baptista (Rio) a confirmar
LGBT – Yuri Silva (CEN)

Sábado | dia 6 | 14h – 18h
“Projeto estratégico da juventude negra”

Mediador: Juninho (Circulo Palmarino)
Dennis Oliveira (Quilombação)
Matilde Ribeiro (Unilab)

 

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Xênia França: a mulher negra em erupção

Batemos um papo com Xênia, vocalista da banda Aláfia e musa por vocação

A digna banda Aláfia possui dez integrantes, e uma delas é Xênia França, única mulher do grupo. Aláfia é música de resistência, é diversidade, é negritude. Nasceu em 2011 e cruza os extremos de São Paulo e do Brasil apresentando o resgate profundo com a ancestralidade afro-brasileira.

Xênia encanta por sua bravura, beleza e força motora para a transformação. Conversamos quando a banda se apresentou em Bauru e o papo foi longo e provocativo.  Como ela mesma diz, não tem medo de colocar o dedo na ferida. Então segura essa, neguim.

 

Imagem: Sté Frateschi

Foto: Sté Frateschi

Já faz um ano que vocês lançaram o primeiro álbum, né? Que balanço vocês podem fazer desse período? Chegaram onde queriam chegar?

Eu acho que a gente foi até além do que a gente desejava. No começo a gente nem estava pensando em público, se iríamos ou não atingir as pessoas. Mas lógico que a música em si tem uma mensagem e essa mensagem tem um público. E a gente fazia a menor ideia, eu, por exemplo, imagino que é difícil fazer um tipo de música como a nossa no Brasil. Onde a gente levanta questões, onde a gente coloca o dedo na ferida e muitas pessoas se afastam. As próprias pessoas da comunidade negra às vezes se sentem um pouco incomodadas, né?  Só que eu acho que a gente achou um lugar pra falar sobre isso onde a gente tem atraído cada vez mais pessoas, não só pessoas negras, mas eu acho que os negros tem se aproximado cada vez mais.

Vocês falam muito da África teórica e da importância de viver a África, como o Aláfia pratica a África e o que é isso?

A África é o que a cada um reconhece nela. Não dá para a gente dizer que pratica a África porque eu acho que ninguém no Brasil pratica a África. É um questionamento, inclusive da gente e não só pra quem está de fora.  A gente vive num país que tem um lastro construído na história do negro que veio para cá escravizado e que a influência desse povo está nos quatro cantos do país. Até onde você acha que não tem, por exemplo, no Sul, onde é a região do país que tem maioria europeia. Eu acho que é como a gente vê a África e como a gente traz para a nossa experiência e como a gente a reflete para o mundo. É algo que o Jairo fala em todo show, resistência em primeiro lugar, que resistir é você manter viva a memória, e no nosso caso é dar um ponto de luz para o futuro. É o que a gente sempre se pergunta né? Como vai estar o negro daqui a quarenta anos? Por nossa vontade e pelo o que a gente tem feito que é muito pouco perto do que os órgãos responsáveis poderiam fazer por uma população inteira, que é fazer com que a população se veja, se olhe no espelho, né? E eu acho que isso que é praticar a África, é todo mundo, a base da população brasileira receber educação adequada, que as pessoas negras possam se ver nos livros de História, tanto o povo negro, como o povo indígena que são considerados minorias na sociedade. Hoje já somos reconhecidos como cidadãos, fazemos parte da sociedade e por isso também temos um dever que é o de não esquecermos nossas raízes e de onde viemos. De manter viva essa chama. O importante é como a gente vê, como a gente absorve e como a gente reflete a África que há em cada um de nós.

Você acredita que uma maneira de combatermos o racismo é contando a história do povo negro?

Nós já sabemos que a maneira que a história é contada é de um modo pejorativo. Eu você, todos nós já aprendemos que o negro veio para o Brasil escravizado. Tem um clipe da Esperanza Spalding que fala exatamente disso, “Black Gold” que é a história de um pai que vai buscar os filhos na escola e quer saber o que os filhos aprenderam. E as crianças contam que aprenderam sobre os negros que foram para os Estados Unidos e foram escravizados. Então o pai pergunta se os filhos também aprenderam que antes deles serem escravizados, em seus países na África, esses negros eram reis e rainhas. É preciso contar a verdadeira história, a história que está atrás da cortina.

E como você vê a apropriação da cultura negra, ela existe?

Isso é uma coisa que me revolta muito. Muitos artistas se apropriam da identidade do negro. Vão lá, fazem pesquisa, vão ao terreiro de candomblé, escrevem livros, lançam álbum, e o negro não entra em contato com isso. Por isso acho que está na hora de mexer os pauzinhos. Algo que observo é que todo filme de escravidão existe um branco que vai salvar o negro, pra mim isso não deve existir. Eu acredito que há brechas no sistema, se formos observar todos os negros que conseguiram sucesso não nasceram em berço de ouro. Então temos que aproveitar essas brechas e contarmos nossa própria história.

Qual é a importância de uma artista negra como você dentro desse meio e como se dá a construção da identidade da mulher negra nesse processo?

Se o homem branco está no topo da pirâmide e recebe mais que a mulher branca, e o homem negro recebe menos que o homem branco e a mulher branca, o que sobra pra mulher negra? Temos um problema gravíssimo que é como se vê a mulher negra na sociedade brasileira, que é como um pedaço de carne. Temos você como uma estudante de Jornalismo e isso tem cada vez mais se espalhado, a mulher negra não está só na cozinha. Não que existam problemas em ser cozinheira, amo a todas, mas o problema é só coloca-la num lugar. Nós sabemos que após a abolição da escravidão não havia lugar para a mulher negra na sociedade, então ela virou cozinheira, babá ou prostituta. Essa mentalidade da sociedade sobre o que eu e você representamos leva a absurdos como “Sexo e as Negas” que só pelo título é gravíssimo porque só reforça essa ideia. Eu penso em soluções, nós sabemos como é e como sempre foi, e um passo importante é cada vez mais a mulher negra se organizar. A mulher negra cuidou e cuida até hoje da sua família e da dos outros. E por isso essas mulheres inteligentes devem se mobilizar. A mulher que é independente, que gasta com cosméticos, que frequenta bares, cafés, viaja, essa mulher que já existe na sociedade precisa a se organizar para criar força e mudar a sociedade. Precisamos nos posicionar quanto mulher, profissionalmente e não deitar para machismo e racismo. E continuar achando essas brechas porque elas existem.

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